Mídia

Uma viagem de 25 mil quilômetros em busca da resistência na América Latina

23/09/2006 00:00

Eduardo Carvalho e Latinautas*

Quatro jovens latinautas, Milena Costa de Souza, Pedro José Sorroche Vieira, Thiago Costa de Souza e Ligia Cavagnari, todos entre 18 e 24 anos de idade, começaram neste dia 19 de setembro uma viagem pelas Américas, partindo dos EUA e chegando ao Brasil, passando por 17 países e percorrendo mais de 25 mil km a bordo de um automóvel, com a intenção de percorrer os caminhos das Américas, observar e registrar quais as formas de resistência à hegemonia política, econômica e cultural dos EUA que estão sendo engendradas e praticadas em solos latino-americanos.

A expedição recebeu o nome de "Da América para as Américas", título que já delata em si um traço da mentalidade dos norte-americanos que chamam a sua pátria de América, como se fossem os donos do continente. Além disso, indica a direção do movimento dos expedicionários, que partirão de Nova Iorque com destino ao Brasil, atravessando parte da América do Norte, toda a Central e grande parte da do Sul.

Carta Maior publicará, espaçadamente, ao longo dos 6 a 8 meses que tal jornada durará, alguns relatos, crônicas e imagens desta odisséia em busca de uma identidade de resistência latino-americana e procurará interlocutores de notório saber que discutam em forma de artigos alguns dos temas apresentados pelos expedicionários, além de publicar reportagens a respeito dos fatos que forem sendo citados nos relatos dos Latinautas.

No texto de hoje, apresentamos a explanação dos motivos da viagem, redigida pelos próprios organizadores. No seguinte, apresentaremos um relato do encontro do grupo com as lideranças do partido socialista americano, ponto de largada deste painel que mostrará facetas desta face aguerrida das Américas que não se redem à América. Formas de esquerda organizada nos EUA, como o Partido Socialista visitado pelos latinautas, serão alvo do primeiro comentário em artigo que será publicado junto com o primeiro relato na próxima semana. No final deste primeiro texto, há uma sucinta apresentação dos quatro viajantes e breves depoimentos acerca de suas motivações pessoais.

Os motivos
A civilização ocidental vê como necessária a existência de um governo democrático. Isto é, a democracia é vista como um ideal a ser alcançado por todas as nações. Nos últimos anos, o governo do presidente norte-americano George Bush vem, em nome desta mal aplicada Democracia, interferindo politicamente em diversos países do mundo. Presidentes e líderes políticos que apresentam uma alternativa para a forma de governo proferida por Washington são rotulados como ameaça mundial.

A América Latina mostra-se, neste momento, um foco de resistência à política imperialista dos EUA. As últimas eleições em países como Venezuela, Bolívia e Chile demonstram a vontade de mudança destas populações. O desejo de mudança não se reflete somente nas eleições, mas também nas organizações civis e nas lideranças locais.

Será empreendida, nos próximos meses, uma viagem dos Estados Unidos ao Brasil, empenhada em documentar os casos nos quais esta resistência encontra-se presente. Serão gravadas entrevistas com líderes comunitários e representantes eleitos por voto. O objetivo do projeto é observar e documentar a possibilidade de uma sociedade estruturada sob formas de governo alternativas. Não se pretende julgar se essas formas de governo são boas ou más, antes simplesmente as apresentar como possibilidade. Pretende-se, acima de tudo, observar se a resistência proferida pela América Latina é verdadeira e de que forma ela manifesta-se na prática.

A expedição “Da América para as Américas” diferencia-se das demais viagens feitas pela América, pois não pretende alcançar recordes, nem desvendar caminhos, mas sim apresentar um documento da situação política na América Latina. 17 paises serão percorridos: EUA, México, Cuba, Belize, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina e Brasil. A maior parte do trajeto será percorrida pelo conjunto de estradas que formam a rodovia Pan-americana que é, acima de tudo, um conceito e não propriamente uma rodovia, pois não se trata de uma só rota, porém de um complexo conjunto de diversas estradas. Esse emaranhado de caminhos forma a maior “estrada” do mundo, interligando povos e culturas que serão visitados pela expedição.

A viagem já teve início no encontro com o Partido Socialista em Nova Iorque e durará de 6 a 8 meses. Entretanto, o tempo de duração não é preciso e deve variar de acordo com os acontecimentos da viagem que, planejada na base, está suficientemente aberta e receptiva aos eventos e surpresas que se apresentarem.

Os latinautas e suas motivações
“Da América para as Américas”: tirar a venda dos olhos, sentir o calor, viver e aprender. Em que América vivemos, em qual América queremos viver? Existem formas de Governo alternativa a proferida por Washington e a América Latina demonstra resistência e criatividade. Queremos ver como podemos fazer diferente, experimentar uma liberdade de escolha que não se baseie na demagogia de falsas democracias.

Como será a América Latina que não está nos noticiários? De que maneira essa América une-se e constrói-se? Dessa vez, a viagem não será feita de motocicleta, porém a idéia permanece lado a lado com o sentimento de descobrir. Queremos desvendar nossa terra, nossa gente, perder o medo de viver, encontrarmo-nos na pluralidade da nossa latinidade.

Milena Costa de Souza, 24 anos
Artista Plástica formada pela Escola de Musica e Belas Artes do Paraná (EMBAP), Pós-graduanda em Historia da Arte, pela EMBAP. Cursando o terceiro período de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
“Eu e o Pedro somos empregados de um Cassino em Uncasville, CT (...) Os dois maiores grupos de imigrantes que aqui trabalham são Chineses e Latino-Americanos (...) Começamos a nos perguntar o que essas pessoas vem procurar aqui, porque sujeitam-se a esses empregos e, acima de tudo, o que nos liga uns aos outros. Essa ligação parece-nos estar fundada no papel que nossas nações ocupam economicamente no mundo. Percebe-se uma cumplicidade entre os latinos, como se um entendesse o que o outro está passando e sentindo”.

Pedro José Sorroche Vieira, 22 anos
Fotógrafo, apaixonado por dirigir e viajar.
Professor de fotografia.
Cursando o quinto período de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
“(...) decidimos que a melhor maneira de compreender a união que existe entre os latino-americanos seria por meio de uma viagem que nos levasse da América do Norte à América do Sul, para que pudéssemos coletar material sobre os povos, formas de lideranças e governos. Com isso pretendemos encontrar quais são as novas propostas que estão surgindo para fugir do imperialismo norte-americano”.

Thiago Costa de Souza, 22 anos
Membro do Movimento Estudantil.
Cursando o 7º período de Direito na UniBrasil.
“(...) Talvez eu consiga sentir as veias abertas da América Latina como Eduardo Galeano sentiu 30 anos atrás, apenas na prática e na presença das pessoas que vem construindo a história, ou melhor, mudando-a como uma alternativa ao imperialismo. Acredito que seja uma grande oportunidade para realizarmos um trabalho que tenha um grande valor, pois estaremos expondo um tema que nunca foi tão debatido e defendido no mundo como as alternativas a este neoliberalismo exercido pelos Estados Unidos e seus cúmplices”.

Ligia Cavagnari, 18 anos
Viajante por natureza.
Cursando o 3º período do curso de Direito na UniBrasil
“era uma vez...”, esse era o início de todas as histórias que conhecia, que me contavam e que eu lia. Porém pude perceber que não passa de uma grande ilusão, que a realidade é outra, onde fadas e magias soam para meninos e meninas que dormem de barriga cheia. Por que não ter uma visão do mundo real? Parar com essa mediocridade de que tudo está bem. Talvez seja a hora de construir minha própria história, numa viagem de novos horizontes, novas culturas, lutas permanentes pelo princípio da dignidade da pessoa humana. Talvez seja apenas uma fuga da rotina, um passeio, um aprofundamento no direito internacional, não sei. Única certeza dessa viagem é: darei um início diferente para minha história.

(*) Latinautas é o apelido dado pela Carta Maior à equipe da expedição "Da América para as Américas", formada por Milena Costa de Souza, Pedro José Sorroche Vieira, Thiago Costa de Souza e Ligia Cavagnari.


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