Mídia

Vaza Jato Semanal - 5 a 12 de agosto

 

15/08/2019 15:46

 

 

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A partir desta semana, o boletim sobre a cobertura da Vaza Jato na grande mídia, produzido pelo Manchetômetro, passa a ser semanal. Nosso recorte temporal será sempre de terça a segunda nos jornais impressos e de segunda a domingo no Facebook e no Jornal Nacional. Com este novo modelo, apresentamos um panorama melhor e mais completo da cobertura que tem sido dedicada ao escândalo. Este número se refere, portanto, ao período compreendido entre os dias 6 e 12 de agosto, nos jornais impressos, e entre 5 e 11 de agosto, no Facebook e no Jornal Nacional. Nosso boletim também passa a apresentar um novo gráfico que indica a soma total de textos sobre a Vaza Jato em todos os veículo ao longo do tempo, para facilitar o acompanhamento da cobertura.

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Conforme aponta o gráfico acima, o escândalo teve a maior cobertura em 8 de agosto, dia seguinte à votação, no Supremo Tribunal Federal (STF), que recusou a transferência do ex-presidente Lula da sede da Polícia Federal de Curitiba para o presídio de Tremembé, em São Paulo. Além desse tema, tivemos novas revelações de conversas que sugerem possíveis investigações contra o ministro Gilmar Mendes e muito debate sobre o futuro da Operação Lava Jato dentro das instituições brasileiras, especialmente o STF.

O GLOBO

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O Globo mantém uma cobertura tímida, sem deixar de mencionar a Vaza Jato em nenhum dos dias analisados. No dia 6 de agosto, o jornal defende em seu editorial que o STF abalou a segurança jurídica com a abertura do inquérito para investigar fake newscontra membros da Corte e afirma também que o hacking foi um dos maiores ataques à Lava Jato.

Na cobertura sobre o julgamento da transferência de Lula no dia 8 de agosto, o diário relembra a insatisfação da Corte com Dallagnol, após a divulgação de mensagens em que o coordenador da Lava Jato sugeria a investigação de ministros. No mesmo dia, Ascânio Seleme afirma que nem mesmo o bate-papo virtual entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol é capaz de inocentar Lula de seus crimes.

No dia 10 de agosto, Merval Pereira afirma que a mudança do foco de Moro para Dallagnol nas revelações de mensagens vazadas ocorreu porque as divulgações não foram capazes de fazer com que o ministro fosse afastado. Assim, o coordenador da Lava Jato se tornou a bola da vez, inclusive com a atuação do STF na tentativa de, ao menos, puni-lo. O jornalista, contudo, destaca que nenhuma das ações reveladas pelas conversas foi concretizada. No dia 12 de agosto, o jornal relembra as duas representações contra Dallagnol e destaca que está nas mãos de Raquel Dodge, atual procuradora da República, a condução dos trabalhos no Conselho Nacional do Ministério Público.

ESTADÃO

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O Estadão também mantém uma cobertura tímida da Vaza Jato. O diário não mencionou o escândalo em três dias – 7, 8 e 12 de agosto.

Na coluna do Estadão do dia 6 de agosto, Alberto Bombig compara as Operações Lava Jato de Curitiba e do Rio de Janeiro, destacando que enquanto a versão curitibana está desgastada, a versão fluminense continua brilhando e alinhada à PGR.

Apenas no dia 9 de agosto o diário retoma o tema, destacando as articulações de Renan Calheiros para afastar Dallagnol, alegando que o coordenador da Lava Jato atuou para prejudicar a eleição do primeiro à presidência do Senado. No dia seguinte, o Estadão divulga documentos da Operação Cravada, na qual um suposto líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) teria mencionado relação com o PT. A reportagem abre espaço para o contraditório, no qual o PT relembra os vazamentos que revelam condutas criminosas de Moro, que lidera a Polícia Federal.

Já no dia 11 de agosto, a coluna do Estadão é pontual e cita uma pessoa próxima a Moro para afirmar que o objetivo da divulgação das mensagens é libertar Lula e que o fato de Marcelo Bretas, juiz da Lava Jato do Rio de Janeiro, não ter sido afetado pelos vazamentos seria a prova disso.

FOLHA

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A Folha de S. Paulo continua sendo o jornal que mais enfatiza a Vaza Jato em suas páginas, cobrindo o escândalo todos os dias e sendo um dos parceiros do Intercept na divulgação das mensagens.

Em reportagem do dia 6 de agosto, o diário noticia que a Polícia Federal entregou ao Supremo cópia do inquérito que investiga ataques a contas do Telegram de autoridades.

No dia 7, o jornal abriu espaço para discutir a revelação do El País e do Intercept de que a Lava Jato planejou buscar informações sobre o ministro Gilmar Mendes e que este criticou a Operação e cobrou providências da Procuradoria.

O dia 8 trouxe a decisão do corregedor da Procuradoria de não investigar Dallagnol, apesar de avaliar como grave a conduta do procurador. Dallagnol também é citado em outra reportagem que apresenta mensagens que apontam que o procurador utilizou o partido Rede Sustentabilidade para propor ação contra Gilmar Mendes.

No dia 9 de agosto, a Folha defendeu que o ministro Moro está desgastado no Supremo por sua atuação na Operação Spoofing e pela avaliação de que ele teve influência no pedido de transferência de Lula para Tremembé. Entretanto, conforme Daniela Lima aponta na coluna Painel, Moro ainda ostenta uma aprovação popular maior do que a do presidente Bolsonaro.

Em matéria do dia 11, o diário compara Lula a Bolsonaro na hostilidade à mídia, citando a Vaza Jato para lembrar Glenn Greenwald, considerado o “inimigo gringo” do atual presidente. Em outra reportagem, Mônica Bergamo cita um grupo de 17 juristas estrangeiros que defendem a anulação da sentença de Lula e consideram a troca de mensagens entre Moro e Dallagnol estarrecedora.

Em artigo publicado no dia seguinte, 12 de agosto, Eugênio Bucci e Taís Gasparian defendem a divulgação das mensagens pelo Intercept, por conterem informações de interesse público.

JORNAL NACIONAL

Na última semana, a temática deste boletim apareceu  em duas matérias no Jornal Nacional.

No dia 6 de agosto uma matéria longa (8m22s) abordou a divulgação pelo Intercept de novos trechos das conversas via Telegram.  O JN descreve e reproduz trechos das mensagens trocadas entre procuradores em um esforço de coleta de provas contra o ministro Gilmar Mendes e afirma que essa ação é proibida, ressaltando que essa interpretação das mensagens é atribuída ao Intercept e ao El País Brasil.  Ao fim, o JN cita a resposta dos procuradores da operação Lava Jato ao El País e destaca, mais uma vez, que a força-tarefa vem afirmando que não pode reconhecer a autenticidade das mensagens publicadas. O telejornal também destaca as respostas de Gilmar e do PSDB (em razão da sugestão dos procuradores, nas mensagens vazadas, de identificar possível conexão entre o Gilmar e Paulo Vieira, que foi preso e apontado como operador deste partido). Foi consultada, ainda, a defesa de Paulo Vieira, que não se manifestou .

A parte final da matéria aborda outra ação – o inquérito aberto para apurar possíveis ofensas ao STF. Neste trecho, são mencionados um documento Associação Nacional dos Procuradores da República, pedindo que o inquérito seja fechado ou que se determine que procuradores só podem ser investigados após aviso prévio à Procuradoria Geral da República, e uma carta assinada por 200 auditores fiscais pedindo que seja revista a suspensão de investigação contra 133 contribuintes, ambos entregues ao STF.

Na chamada, o JN continua se referindo ao Intercept por meio do epíteto “site”. Também se refere dessa forma ao El País, que em nenhum momento foi chamado de jornal.

A segunda matéria, divulgada no dia 8 de agosto, foi curta (58s) e abordou a comunicação oficial enviada pelo ministro Sérgio Moro ao STF, negando que tivesse determinado que o material apreendido (as mensagens trocadas entre procuradores e o próprio Moro) fosse destruído. O JN basicamente cita o que o ministro disse no documento. A matéria também informa, no final, a transferência de um dos presos suspeitos de hackeamento para o presídio da Papuda.

FACEBOOK

Ao longo desta semana, a Vaza Jato foi mencionada indiretamente em dois dos posts mais compartilhados entre as páginas que monitoramos como consequência da repercussão do áudio obtido pela Operação Cravada, no qual uma liderança do PCC afirma que com o governo Bolsonaro e Moro à frente da pasta da Justiça as regras foram endurecidas, e que durante as gestões petistas havia diálogo entre os presos e o governo. As matérias com esses áudios foram amplamente compartilhadas pelas páginas da direita (sobretudo pelas páginas de Eduardo Bolsonaro, Alvaro Dias e Kim Kataguiri, com o objetivo de mostrar a probidade do atual governo e associar o PT ao crime organizado. Contudo, parte dessas notícias vinha acompanhada do contraditório do PT. O partido declarou que as falsas acusações foram oportunisticamente capturadas pela Polícia Federal por interesse do seu superior, o ministro Sérgio Moro, e que este sim deve esclarecimentos ao Brasil dadas as revelações da Vaza Jato: “Quem dialogou e fez transações milionárias com criminosos confessos não foi o PT, foi o ex-juiz Sérgio Moro, para montar uma farsa judicial contra o ex-presidente Lula com delações mentirosas e sem provas. É Moro que deve se explicar à Justiça e ao país pelas graves acusações que pesam contra ele”.

Além disso,  ao comentar em sua live a Portaria 666, que permite a expulsão sumária do território nacional de estrangeiros considerados “perigosos”, Bolsonaro afirmou, fazendo referência a Glenn Greenwald, que o documento “não tem nada a ver com o jornalista espertalhão que acusou Moro de querer expulsá-lo do Brasil”.

CONCLUSÃO

A última semana trouxe novos elementos para a Vaza Jato. As novas revelações de investigações da Lava Jato contra Gilmar Mendes e o pedido de transferência do ex-presidente Lula repercutiram nos jornais. Conforme a grande mídia destacou, ambos os fatos não foram bem recebidos no Supremo e imediatamente incitaram reações da Corte contra Dallagnol. O procurador, inclusive, parece contar cada vez menos com a boa vontade da mídia. O ministro Moro, por sua vez, ainda goza de alguma aprovação popular e tem sido poupado de críticas.

Os novos vazamentos, que divulgam que a Lava Jato usou movimentos como o Vem pra Rua para pressionar o STF e o governo, devem repercutir nos próximos dias principalmente nas redes, onde esses grupos se fazem mais presentes. Vejamos como a grande mídia se posicionará diante desse novo capítulo.

*Publicado originalmente no Manchetômetro

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