Mídia

Vlado – 30 Anos Depois

30/09/2005 00:00

Gérson Trajano





No dia 31 de outubro de 1975, 8 mil pessoas reuniram-se na Catedral da Sé, centro de São Paulo, num protesto silencioso contra a morte brutal do jornalista Vladimir Herzog. Seis dias antes, Herzog sai de casa logo cedo para prestar depoimentos no DOI-CODI – órgão da repressão política da ditadura militar brasileira –, sobre o seu envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Ele despede-se de sua mulher Clarice, e de seus dois filhos, André e Ivo. Clarice põe em dúvida se ele deveria mesmo se apresentar, pois outros jornalistas já haviam sido presos e sabia-se que estavam sendo torturados. Mas Vlado, como era conhecido pelos amigos, recusava-se a fugir. No fim da tarde, a família e os amigos receberam a triste notícia: Vlado estava morto e, segundo fonte oficial do governo, teria enforcado-se com o cinto do macacão de presidiário que vestia desde sua entrada naquela unidade militar.



Porém, de acordo com os testemunhos de Duque Estrada e Rodolfo Konder, jornalistas presos também no DOI-CODI, Vlado fora assassinado sob torturas. Tanto Konder quanto Duque Estrada ouviram com nitidez que o companheiro estava sendo torturado. A morte por suicídio é também desmentida pelas próprias contradições existentes nos depoimentos dos médicos legistas Harry Shibata, Arildo de Toledo Viana e Armando Canger Rodrigues, prestados na ação judicial movida pela família.



Para resgatar a figura do amigo morto e revelar com mais profundidade os acontecimentos políticos que levaram ao assassinato de Herzog, o cineasta João Batista de Andrade passou meses colhendo depoimentos e agora lança o seu 24º filme: Vlado – 30 Anos Depois.



“Nos éramos amigos, nossos filhos brincavam juntos. Eu senti-me desarvorado, assustado com a notícia da morte dele. Eu que filmava tudo, não filmei nada naquele momento”, diz João Batista.



A morte de Vlado aconteceu num momento particular da vida política brasileira, com o acirramento de disputas internas entre facções militares, opondo de um lado o presidente da Ernesto Geisel e o coronel Golbery e, de outro lado, os setores militares comprometidos com a repressão e contrários a qualquer abertura política. P>

Em 1975, o PCB havia optado pela via democrática e Vlado era alheio à clandestinidade e à luta armada. Mas para demonstrar “força”, um grupo de militares passou a usar métodos truculentos contra a sociedade. Centenas de pessoas foram presas e torturadas, quando se acreditava que a abertura política havia começado e nada a deteria.



Vlado – 30 Anos Depois tem um caráter extremamente pessoal e mostra cenas inéditas do culto ecumênico em memória do jornalista realizado na Catedral da Sé. Os depoimentos são fortes, surpreendentes e envolventes. Além disso, João Batista filma com a câmera na mão a pouco mais de 30 centímetros do seu entrevistado, e abusa do close-up, o que torna o documentário mais confessional.



São declarações de Clarice Herzog e do filho Ivo, D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, Fernando Morais, José Mindlin, Ruy Ohtake, Clara Sharf, Paulo Markun, Alberto Dines, Sérgio Gomes, Duque Estrada, Delia Frate, Rodolfo Konder, Mino Carta, João Bosco, Aldir Blanc e Rose Nogueira.



O documentário não tem apenas declarações de amigos e parentes. Logo no início, o cineasta pergunta às pessoas na Praça da Sé se já ouviram falar do jornalista Vladimir Herzog. Algumas dizem que sim, outras dizem não. Mas a surpresa maior é um homem de terno e gravata aparentando ter entre 45 e 50 anos de idade afirmar que Herzog não é do seu tempo. Uma resposta no mínimo tola, pois não é preciso viver uma época para conhecer a história do seu país.





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