Mídia

'A função social da guerra na sociedade Tupinambá

21/12/2006 00:00

Da Redação

Poucas nações indígenas marcaram tanto o imaginário europeu quanto os Tupinambás. Descritos por viajantes em best-sellers (para os padrões da época) europeus dos séculos XVI e XVII como índios de verve guerreira, com apreço pela antropofagia e pela luta feroz contra os invasores portugueses, os Tupinambás sucumbiram ao genocídio da colonização (embora algumas tribos se autodenominem seus descendentes). Em 1951, num mundo ainda traumatizado pelo maior conflito armado da história, o jovem professor e sociólogo da Universidade de São Paulo, Florestan Fernandes, faz de sua tese de doutorado um ambicioso estudo sobre a guerra na extinta sociedade Tupinambá. E, já que não poderia observá-los in loco, o faz por meio da leitura minuciosa de relatos e narrativas produzidos pelos viajantes europeus. O resultado é uma obra-prima: não há, cinqüenta anos depois, nenhum estudo equivalente sobre os Tupinambás e, portanto, nenhuma obra mais oportuna para prosseguir com o relançamento pela Editora Globo das obras reunidas de Florestan Fernandes, um dos mais importantes intelectuais brasileiros.

E por que Florestan foi, justamente, buscar a guerra entre os Tupinambás? Por um lado, ele dava continuidade ao tema de estudo de seu mestrado, empreendendo uma análise dessa tribo indígena sob a lente da ciência, com método sistemático e cuidadoso, que, aliás, marcaria a carreira do sociólogo. Por outro, seu objetivo era o de contrapor-se às teorias vigentes da época, que explicavam a guerra a partir da idéia do instinto universal humano. Nada mais propício do que o estudo de uma tribo guerreira e canibal para que Florestan pusesse em xeque tal teoria: a guerra é um fato social e, como tal, só pode ser explicada a partir da organização social dos diferentes povos.

A obra é composta de três partes interdependentes. A primeira concentra densa descrição de toda a tecnologia de guerra Tupinambá. As armas, as estratégias, os rituais e, enfim, os objetivos e propósitos pelos quais lutavam. A riqueza dos detalhes e a preocupação em mostrar como se desenrolava a guerra é exposta ao mesmo tempo em que se desenha uma das teses de Florestan: a guerra não se explica por si só, numa espécie de obsessão indígena pela batalha. Seu sentido deve ser analisado num campo mágico-religioso que orientava seu objetivo mais manifesto – a vingança –, mas ao qual deveriam ser agregados outros propósitos, como os econômicos e territoriais. Dessa forma, Florestan vê a guerra enquanto função social, filiando-se ao seus inspiradores funcionalistas; enquanto função social, a guerra tem sua origem e seu fim na manutenção da sociedade Tupinambá.

Demonstrada a tese da guerra enquanto fato social, Florestan aponta, na segunda parte do livro, para os seus impactos nas formas de controle social que, seguindo a matriz funcionalista, é aquilo que orienta as ações coletivas e a socialização dos indivíduos. Passa-se, nesta parte, à descrição dos pontos de conexão entre a guerra e a organização dos papéis sociais: a educação das crianças, os atributos das faixas etárias e dos gêneros, os rituais de passagem, o status conferido aos guerreiros e aos pajés, enfim, todas as formas de socialização que podem ser via de acesso ao que os funcionalistas, como Florestan, chamavam de “psicologia coletiva”: a relação entre subjetividade e estrutura social. O destaque nessa segunda parte do livro é a discussão a respeito da situação dos cativos, ou seja, dos prisioneiros de guerra dos Tupinambás. Em primeiro lugar, Florestan nega a teoria de que entre eles houvesse escravidão, uma vez que os cativos não tinham um papel econômico significativo, sendo incorporados às tarefas tradicionais da tribo. Segundo, numa análise de grande repercussão, Florestan se dedica à compreensão dos rituais antropofágicos dos Tupinambás, tão minuciosamente descritos pelos viajantes, para demonstrar que estavam inseridos, tal qual a guerra, numa lógica religiosa e espiritual de vingança entre as diferentes tribos. Não se “comia” o inimigo por conta de sua carne, mas de seu espírito; no entanto, ao devorar seus cativos, os índios pareciam incorporar espiritualmente animais caçadores, como a onça. Esses ricos apontamentos de Florestan a respeito do canibalismo e da antropomorfização dos Tupinambás permanecem fundamentais para a etnologia brasileira, influenciando discussões contemporâneas, como a teoria perspectivista de Eduardo Viveiros de Castro.

Cabe ainda ressaltar dois grandes feitos dessa obra e que estão presentes na terceira e última parte do livro, sua conclusão. O primeiro deles é afastar, com rigor científico, a distinção evolucionista entre sociedades simples e complexas. Obviamente, Florestan, escrevendo em meados do século passado, ainda utiliza termos como “civilização primitiva”, mas, contudo, defende com clareza a necessidade de se encarar a organização social indígena a partir de sua complexidade. Essa postura se expressa, por exemplo, na aplicação dos conceitos sociológicos no entendimento da função social da guerra, cujo quadro explicativo se assenta na complexa relação entre a função manifesta (a vingança), e as latentes (religiosa, espiritual, social etc.). Ainda que esses conceitos desenvolvidos pelo funcionalismo norte-americano para o estudo de sociedades complexas estejam um tanto quanto superados pela sociologia contemporânea, sua aplicação, na década de 1950, ao estudo dos Tupinambás, marcava uma posição intelectual: onde há sociedade humana há uma organização social complexa que deve ser entendida como tal pela ciência, a despeito da diversidade humana.

Por fim, um último feito, entre os inúmeros deste clássico: a contribuição para uma teoria geral da guerra, que Florestan faz questão de ressaltar nos instantes finais do livro (embora trate do tema ao longo de todo o livro). Não há guerra e nem guerreiros que não sejam construções sociais. A sociedade Tupinambá mantinha-se sob permanente estado de guerra porque ela integrava um todo funcional para a coesão em torno de sua própria organização social. Qualquer semelhança sociológica com uma poderosa nação guerreira contemporânea não é mera coincidência.

Florestan Fernandes, paulistano nascido em 1920, é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos. De origem popular, ingressou na Universidade de São Paulo em 1941, iniciou a docência como assistente em 1945 e, em 1964, tornou-se professor catedrático na vaga do sociólogo Roger Bastide. Aposentado pela ditadura militar em 1969, foi professor em diversas universidades no exterior e na PUC-SP. Além da carreira acadêmica, Florestan sempre atuou politicamente, mantendo-se ligado ao Partido dos Trabalhadores desde sua origem, legenda pela qual foi deputado em dois mandatos. Faleceu em 1995. Entre suas obras clássicas, destacam-se, para além da presente edição, A integração do negro na sociedade de classes e A Revolução Burguesa no Brasil.

A função social da guerra na sociedade Tupinambá
Florestan Fernandes
Prefácio de Roque de Barros Laraia
Editora Globo
596 páginas + 24 (caderno de fotos)
R$55,00


Conteúdo Relacionado