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'As Revoluções do Capitalismo', de Maurizio Lazzarato

05/12/2006 00:00

Da Redação - Carta Maior

Em seu novo e inovador livro, As Revoluções do Capitalismo, o filósofo italiano Maurizio Lazzarato propõe o desafio de se pensar uma política da multiplicidade para as lutas do século XXI – aquelas que começaram com o ciclo de Seattle, continuaram com os Fóruns Sociais Mundiais e mobilizaram as multidões globais contra a guerra do Iraque. O mote fundamental dessa política é a desconstrução da dialética, de seus conceitos binários, cujo cerne se encontra na relação entre sujeito e objeto. Isso significa entender que os dualismos dialéticos são na realidade aparelhos de captura e controle da multiplicidade.

É para além do pensamento dialético que podemos enfim desconstruir a falsa alternativa entre individualismo e holismo. Lazzarato, que desenvolveu com Antonio Negri as teorizações pioneiras sobre trabalho imaterial e pós-fordismo, radicaliza neste livro sua crítica do capitalismo, afirmando que seu paradigma não é o que Marx tomou emprestado de Adam Smith e sua fábrica de alfinetes, mas a empresa. A empresa se diferencia da fábrica pois não produz uma mercadoria, mas um mundo. O capitalismo não é mais apreendido como modo de produção, mas como produção de mundos. Mais precisamente, o capitalismo consiste na redução da criação aberta de mundos possíveis à afirmação da possibilidade de um único mundo, sem alternativas.

A noção de “público” proposta por Gabriel Tarde, com quem dialoga o autor, é usada para substituir o conceito de cooperação – subordinada à captura capitalista –, desvelando uma sociabilidade na qual os cerébros se tocam a cada momento por meio de comunicações, exatamente como acontece na internet. Diante disso, as “máquinas de expressão”, que pela modulação dos desejos e a manipulação das mentes produzem a opinião pública, são o principal instrumento de captura das atividades de criação e invenção de (mundos) possíveis. A “guerra econômica” surge então como uma guerra estética que, por meio das máquinas de expressão, se ergue contra nossa capacidade de criar mundos possíveis – no plural. Ora, as máquinas de expressão precedem as fábricas e também a própria guerra: “o corpo paradigmático da sociedade de controle não é mais o corpo aprisionado do trabalhador, do louco, do doente, mas o corpo obeso (cheio de mundos da empresa) ou anorético (recusa destes mesmos mundos) que observa pela televisão os corpos mortos pela fome, pela violência e pela sede da maior parte da população mundial.”

Além de Gabriel Tarde, Lazzarato aborda de maneira inovadora e vigorosa autores como Deleuze, Guattari, Foucault, Bakhtin, Bergson, Leibniz e Bruno Latour. Ao mesmo tempo, sua luta contra a idéia de que existiria um só mundo e o esforço para colocar a relação entre natureza e sociedade para além do modelo antropomórfico promove um diálogo extremamente fecundo com o “multinaturalismo ameríndio” e seu horizonte cosmológico.

"O conceito de Império, proposto por Antonio Negri e Michael Hardt, definiu um novo horizonte de reflexão sobre a crise da modernidade. O léxico usado em Império mobiliza os esforços de inovação teórica e política de um conjunto de autores (filósofos, sociológos, economistas) que, desde o início dos anos 1990, problematizaram as noções de trabalho, multidão, biopolítica, comum, linguagem, potência. A proposta desta coleção, organizada por Giuseppe Cocco, é apresentar ao público brasileiro essa bibliografia de grande interesse para apreender os desafios da política no império."

Coleção A Política no Império
O conceito de Império, proposto por Antonio Negri e Michael Hardt, defeniu um novo horizonte de reflexão a respeito da crise da modernidade. O léxico usado em Império mobiliza os esforços de inovação teórica e política de um conjunto de autores (filósofos, sociológos, economistas) que, desde o início dos anos 1990, problematizaram as noções de comum, trabalho, multidão, biopolítica, linguagem, potência. A proposta desta coleção é a de apresentar ao público brasileiro esses autores e, com eles, uma bibliografia de grande interesse para apreender os desafios da política no império.

Os títulos que serão editados em 2007: A estética da multidão (Barbara Szaniecki); Os marxismos do novo século (César Altamira), previsto para o segundo semestre de 2007; Mondanitá (Paolo Virno, ainda sem título definido em português), também previsto para o segundo semestre de 2007.

Os livros propostos participam, todos, do trabalho de criação e aplicação desse novo léxico dentro da vivência política e militante, bem como no desenho de novos horizontes filosóficos. Se todos provêm das noções mobilizadas por Negri e Hardt em Império e Multidão, ou discutem com elas, os enfoques privilegiados são diferentes e às vezes marcam expressivos deslocamentos e até rupturas de perspectiva. Assim, por exemplo, entre os primeiros títulos a serem publicados, Estética da multidão, de Barbara Szaniecki, problematiza a nova relação entre resistência e criação como expressão de uma estética da multidão que se mobilizou contra a guerra e o ”estado de exceção” no início desta década. Por sua vez, Cesar Altamira, com Os marximos do novo século, coloca o “pós-estruturalismo” de Negri e Hardt dentro de uma avaliação crítica das diferentes correntes do marxismo do século XX e em particular do que ele chama de “open marxism”. Em Virtuosismo e revolução, Paolo Virno reafirma a centralidade do trabalho na passagem do fordismo ao pós-fordismo e ao mesmo tempo o apreende por meio da noção marxiana de General Intellect, discutindo com Hannah Arendt e Jurgen Habermas. Christian Marazzi, em O lugar das meias, aprofunda a análise da nova qualidade do trabalho, apontando para suas dimensões lingüísticas e para seu “devir mulher”, ou seja, para a integração das atividades de produção e reprodução.

Neste volume que abre a coleção, As revoluções do capitalismo, Maurizio Lazzarato trabalha nessa mesma direção e ao mesmo tempo opera uma ruptura de perspectiva: ao passo que aprofunda alguns dos principais elementos teóricos da proposta negriana (o próprio conceito de multidão e de singularidade), o autor afirma a necessidade – para produzir os “mundos possíveis” - de romper de vez com a tradição marxista e, pois, com a própria noção de centralidade do trabalho, inclusive aquela de “trabalho imaterial” que ele mesmo e Negri desenvolveram no início dos anos 1990. Para fazer isso, Lazzarato se apoia nos aportes não apenas da filosofia da diferença - que tem em Deleuze seu principal referêncial -, mas também na sua radicalização por meio das leituras que faz da sociologia heterodoxa de Gabriel Tarde, pensador francês do final do século XIX.

Na teia:

Leia entrevista exclusiva com Marcelo Lazzarato (leia aqui).



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