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"Eu fui, eu sou, eu serei"

08/03/2007 00:00

Moacir Scliar



O bairro de Coyoacán, na cidade do México, é famoso por sua história, que remonta ao período colonial, seu artesanato, seus teatros, seus museus. Grandes figuras moraram ali, como foi o caso do exilado Leon Trotsky e de Frida Kahlo, cuja casa é hoje um museu.

Frida Kahlo, cujo centenário de nascimento ocorre este ano, foi uma artista e foi uma revolucionária. Mas foi, sobretudo, uma heroína. Vítima de paralisia infantil, ela, ainda jovem, sofreu um terrível acidente, cujas seqüelas exigiram mais que trinta cirurgias e que a deixaram com dores pelo resto da vida, aliás curta: morreu com 47 anos. Isto não a impediu de tornar-se uma conhecida pintora e de viver tempestuosos casos de amor, sobretudo com o também artista Diego Rivera, que a traía adoidado.
Frida Kahlo é uma das quatro mulheres que eu gostaria de lembrar neste 8 de março, Dia da Mulher.

A segunda é a polonesa-judia Rosa Luxemburg, que morreu ainda mais jovem, aos 38 anos. Uma das pioneiras do comunismo na Europa, Rosa fundou, junto com Karl Liebknecht, a Liga Spartacus, cujo nome homenageava o líder da rebelião de gladiadores romanos. Junto com Karl liderou, em 1919, uma malograda revolução em Berlim; foi presa e sumariamente executada. Diferente dos comunistas de então, Rosa Luxemburg defendia uma organização partidária mais livre, mais espontânea, mais democrática - ou seja, ela não sobreviveria ao stalinismo.

A terceira heroína de nossa lista é Anita Garibaldi. Uma moça de Laguna, obrigada pelo pai a casar aos 14 anos, Anita deixou tudo para fugir com o lendário Giuseppe Garibaldi, com quem teve quatro filhos e a quem acompanhou numa vida de lutas no Brasil e depois na Europa.

A quarta heroína é uma médica, a alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Formada em Medicina, Nise da Silveira dedicou-se à psiquiatria, em que revelou-se uma contestadora: não aceitava métodos agressivos, como a internação forçada ou a lobotomia, que consistia em destruir uma parte do cérebro para tornar o paciente "dócil". Presa como comunista em 1936, foi afastada do serviço público. Isto não impediu que organizasse o Museu do Inconsciente, em que a arte é utilizada para entender melhor o sofrimento psíquico dos pacientes.

Todos nós temos nossas heroínas. Nossas mães, nossas mulheres, nossas irmãs, nossas sogras (sogras, sim, genros ingratos: aquelas figuras antipáticas das anedotas são antes a exceção do que a regra). E a elas vamos acrescentando as outras heroínas que encontramos ao longo de nossa vida: nossas professoras, nossas colegas de trabalho. À minha lista das quatro heroínas famosas eu juntaria uma quinta, anônima: uma mulher ainda jovem, que trazia o bebê para consultar no posto de saúde em que eu atendia, na Lomba do Pinheiro. Esta mulher vinha a pé, não sei de onde, e caminhava vários quilômetros com a criança nos braços. Cada vez que eu a via, eu me emocionava, e todos os motivos que pudesse ter de queixas na vida desapareciam. Uma heroína, sim.

"Eu fui, eu sou, eu serei", disse Rosa Luxemburg. Acrescentem a esta frase, que dá sentido a qualquer existência, o substantivo que vocês considerarem mais adequado: mulher, revolucionária, artista... Eu acho que "heroína" resume-os todos.


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