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"Vou lá visitar pastores" - literatura, antropologia e identidade(s)

25/10/2006 00:00

Rita Chaves*

Quando o tema é identidade e o país é Angola, não há lugar para qualquer simplificação. O assunto é profundamente delicado nesse país africano que abriga uma das realidades mais convulsionadas do universo que reconhecemos como a de língua portuguesa. A independência tardia e tão recente ocorreu num contexto histórico que trouxe maiores complicações a um espaço recortado por uma impressionante diversidade de etnias, línguas, tradições... A guerra, que se prolongou por décadas, é apenas uma das faces – certamente a mais cruel – desse quadro de crises vivido pelos angolanos.

Nesse panorama de graves contradições, a atividade literária procurou encontrar lugar e, como pôde, participou dos projetos que tinham como norte construir uma nação e institucionalizar um estado. Ao contrário do que poderíamos pensar, e daquilo que defendem alguns críticos, o empenho na busca de uma utopia não uniformizou o repertório que hoje podemos avaliar com mais cuidado. E podemos verificar, então, que, na obra dos escritores contemporâneos, encontram-se muitas maneiras de responder à experiência de viver e de ocupar-se dessa parte de um continente marcado por pluralidades e tantas contradições. Algumas das mais criativas estão na obra de Ruy Duarte de Carvalho, de que Vou lá visitar pastores (editado pela Editora Cotovia em 1999 e publicado no Brasil pela Editora Griphus em 2000), é um ótimo exemplo.

Numa tentativa de síntese, podemos definir essa narrativa como um relato apurado, baseado em longo trabalho de pesquisa sobre os kuvale, povo pastoril que vive na região sul de Angola e que vem sendo objeto das pesquisas antropológicas realizadas por Ruy Duarte de Carvalho desde o início dos anos 90. No texto, estão os dados que a etnografia ajuda a selecionar, sistematizar e classificar e, com isso, revelar lógicas que não são as nossas, decifrando um universo de percepções, sentimentos, causalidades e relações que definem um outro modo de estar no mundo. Dividido em quatro partes – Memórias, colocações / Viagens e encontros: figuras / Etnografias, torrentes / Decifrações, desafios -, o livro traz-nos ainda um post-scriptum e um glossário, além de ilustrações que participam do esforço do autor para nos apresentar um outro mundo.

O título da própria obra e de cada uma de suas partes antecipa ao leitor a inquietação confirmada a cada página desse que pode ser visto, afinal, como um livro incatalogável. Após o fim da leitura, vamos continuar sem saber exatamente como definir esse livro que habita a estante de antropologia e não ficaria mal localizado na de literatura. É certo que temos um ensaio antropológico, acurado, rigoroso, responsável; contudo, ao lado do olhar etnográfico atento, detectamos a preocupação de alguém que pretende mais que descrever o outro. Desses pastores que têm sido foco da atenção do autor, com resultados publicados em vários textos, a narrativa tenta chegar mais perto, num movimento de aproximação, no entanto, diferente daquele que comumente é a base dos documentos produzidos pelas ciências sociais. A energia da linguagem poética que emerge em muitas passagens sugere outras dimensões para esse que não deixa de ser um relato de viagens.

Já no início, somos informados de que a obra nasce de um acaso: em mais uma viagem pelo Sul do país, o escritor seria acompanhado por um amigo jornalista que, entretanto, atrasa-se e não pode partir com ele; a possibilidade de sua vinda leva o autor a gravar umas fitas com dados que seriam úteis no contato do amigo com esse universo a ser visitado. Mais tarde, da transcrição dessas fitas resultaria o livro, cuja origem está, portanto, no propósito de orientar a travessia por terrenos já muito percorridos por Ruy Duarte. Como ele próprio diz: “(...) Fui-lhe, por isso, deixando cassetes com a gravação do que contava dizer-lhe pelo caminho. Era a maneira de ajudá-lo, mesmo assim, a alargar o contacto com o que buscava. Não chegou a aparecer e mais tarde transcrevi essas cassetes. Divulgo agora os salvados, são a viagem do texto”.

Preparando o amigo para o percurso, o narrador constrói um espaço de interlocução que nos envolve. A partir dali ficamos sabendo da importância do gado para esses povos, da estrutura que define suas relações de parentesco, da simbologia do fogo, ou melhor, dos fogos na sua vida, das relações com o sagrado, da relevância da mobilidade na dinâmica cultural que compõe a sua identidade, do lugar que ocupam ou deveriam ocupar na constituição da identidade angolana. Para nós, ocidentais e/ou ocidentalizados, tudo pode parecer novo e o aviso dirigido ao Felipe, o amigo atrasado, deve ser considerado:

“(...) vai ser preciso até cumprir um caminho bem físico e bem concreto, quanto às suas referências, para que possas ver-te introduzido no quadro, no enquadramento desse presente que vais pretender identificar como o dos “outros” e acabará inevitavelmente , espero, por marcar também o teu. Vais viver situações novas e uma conveniente disponibilidade poderá colocar-te, se o permitires, não só perante o desconhecido que a prática dos outros te há-de revelar, mas também face àquele que a tua experiência e a tua sensibilidade vieram a colocar à consciência que é a tua, tributária ela mesma dos tempos e das idades que te tiver sido dado cumprir.”

A complexidade desse universo em foco e da própria tarefa de apresentá-lo sem reduzi-lo ao exótico exige do autor uma atenção maior e uma extraordinária habilidade. Trata-se de colocar em discussão alguns dos problemas que são cruciais no quadro dos países africanos, entre os quais a relação entre o patrimônio cultural convencionalmente chamado de tradição e as pontas da modernidade que ali têm presença. Conhecemos pouco ou nada dos temas e a adaptação às formas que o autor utiliza para refletir sobre esse universo é condição para que, tal como o Felipe, alarguemos o contato com esse mundo abordado. Como a tarefa é complexa, o autor recusa facilitações, requerendo do leitor uma atenção especial para a organização dos argumentos, para a ênfase descritiva e para o jogo de sentidos que é próprio do texto literário. Isso explica que a leitura seja, em algumas passagens, morosa, justificando ainda a necessidade de voltar atrás para rever o que talvez tenha passado de modo displicente. Colocando-se como mediador, o autor não faz do seu um livro de divulgação, tão a gosto dos esquemas do mercado que a tudo pode transformar em curiosidade.

A ausência de notas no desenvolvimento do texto não significa que as referências bibliográficas tenham sido ignoradas. Escrito em “forma epistolar ou parecida”, o texto não deixa de incorporar contribuições de estudiosos que estão na base de seu pensamento, cujas obras integram o instrumental que lhe é útil nas análises do mundo que se tornou objeto de sua preocupação. Para compor este que é também um painel das paisagens do sul de Angola e algumas de suas gentes, ele recorre a trabalhos de natureza vária, de Angola - Apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do Sul de Angola, publicados pela Agência Geral das Colônias, em Lisboa, em 1940, a clássicos da antropologia como Os nuer, de Evans-Pritchard, assim como Pureza e perigo, de Mary Douglas. Referências de outros saberes, como Paul Auster e Gaston Bachelard estão inscritas no próprio texto, fazem parte da aventura vivida.

O post-scriptum e o glossário abrem ao leitor a possibilidade de avançar na busca de maiores dados sobre essa comunidade de pastores e não só. Há outras riquezas guardadas pelo relato, inclusive, e talvez sobretudo, hipóteses que movimentam a reflexão sobre a constituição da identidade e/ou das identidades angolanas sob um outro prisma. O deslocamento do ponto de vista para fora da capital é uma das marcas essenciais da obra de Ruy Duarte de Carvalho e está nas primeiras páginas já colocado um dos objetivos da viagem do amigo: “estava previsto acompanhar-me, para se inteirar das terras e das gentes, e olhar Angola a partir dali (... )” Seria a finalidade da viagem e acaba por se converter numa das razões de ser do livro. Para um país que teve a capital apartada do resto, por variados motivos e talvez até por comodidade das elites dominantes, esse é um dado relevante.

Ao mesclar antropologia e literatura, Ruy Duarte filia-se a uma linhagem de antropólogos que traz para o interior de seus textos questionamentos a respeito dos limites da objetividade, da imparcialidade na recolha de dados, da cientificidade do trabalho de campo, não para negar a pesquisa, mas para torná-la mais útil à função de compreender e esclarecer mundos que não são os nossos. Os usos que faz do recurso a outras linguagens não são para temperar o estilo, mas para fazê-lo mais conseqüente na tarefa que a si atribui.

Como em outros de seus textos em que o cultivo dos gêneros de fronteira é assumido, também aqui a situação narrativa compõe-se apelando à imaginação e evocando elementos da tradição oral – matriz essencial da cultura desses povos com que vamos travar contato. O que se pode sentir é que as marcas desse universo não são apenas assunto das reflexões que o autor tece. O tema interfere na própria estrutura do texto, no jogo estabelecido com uma linguagem que ultrapassa o plano do documental. Em suas páginas assinalam-se dados que apontam para concepções de literatura determinantes nesse escritor que se caracteriza pela pluralidade de linguagens com que busca exprimir sua relação com o país, com o continente, com seu tempo, com a vida que vai vivendo e reinventando. A partir da leitura dessa obra, podemos perceber a diversidade de sua formação: ali estão o regente agrícola, o antropólogo, o cineasta, o artista plástico, o ficcionista e o poeta que o Ruy Duarte de Carvalho nunca deixa de ser.

(*)Rita Chaves é professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo. É pesquisadora associada do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, na Universidade Cândido Mendes (RJ). Entre outros títulos, publicou A Formação do Romance Angolano (2000); Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários ( 2005) e Marcas da diferença – Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (2006).


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