Mídia

A cineasta que quase filmou Sophia Loren como "Tieta"

17/03/2006 00:00

Aline Buaes - (ANSA) especial para Carta Maior

Lina Wertmuller, em conversa com a ANSA em São Paulo, também lembrou de como ficou abalada com a morte de "seu grande amigo" Jorge Amado, em cuja casa esteve hospedada diversas vezes. Quando preparava o roteiro de "Tieta" na década de 80, visitou muitas vezes o Brasil, e viajou por quase todo o país.

O seu roteiro baseado na obra-prima de Jorge Amado recebeu muitos elogios, inclusive do próprio escritor, e a produção não chegou até o fim por muito pouco. Alguns anos depois, em 1996, Cacá Diegues filmou "Tieta" com Sônia Braga como protagonista.

A grande diva do cinema italiano também estava empolgada com o projeto baseado na obra de Jorge Amado. Wertmuller desenvolveu nas últimas décadas uma relação de amizade com Sophia Loren que rendeu diversos filmes, incluindo sua última produção, "Peperoni Ripieni e Pesci in Faccia", de 2004.

Diretora de cinema desde a década de 60, Lina foi assistente de Federico Fellini em "Oito e Meio" (1962). Em 1975 tornou-se famosa por ser a primeira mulher a ser indicada a um Oscar pelo filme "Pasqualino Sete Belezas". Seus filmes politizados da década de 70, como "Mimi, o Metalúrgico" e "Amor e Anarquia", a tornaram uma diretora muita apreciada principalmente nos Estados Unidos.

ITÁLIA PODERIA TER UMA MULHER PRESIDENTE
A extrovertida cineasta, que atualmente trabalha com teatro e televisão na Itália, também foi rotulada como "feminista" na década de 70. Apesar de rejeitar o rótulo, ela afirma que se as mulheres querem avançar na sociedade, devem fazer diferente dos homens.

"É preciso não refazer o mundo como os homens fizeram durante séculos", salientou a diretora que se mostrou muito interessada na participação feminina no Congresso brasileiro.
Além de lamentar o fato de seu país não ter eleito até hoje uma presidente mulher, também criticou seriamente o projeto de lei "Quota Rosa", que pretende definir uma percentagem mínima de mulheres no Parlamento italiano.

HEGEMONIA DE HOLLYWOOD É UMA TRAGÉDIA
Lina, enquanto uma artista da época de ouro do cinema italiano, quanto cineastas como Federico Fellini e Luchino Visconti conquistavam o mundo, acredita que a atual hegemonia norte-americana no cinema "é uma tragédia para todos nós, mas também para os norte-americanos".

"As novas gerações se formaram assistindo estes filmes, estes diretores", lamentou a diretora referindo-se às grandes produções do cinema dos Estados Unidos que praticamente dominam as salas de cinema em todo o mundo.

"É muito grave que a América Latina não assista mais aos filmes italianos. O mundo inteiro costumava assistir aos nossos filmes", afirmou referindo-se a clássicos como "A Doce Vida" e "Rocco e seus Irmãos".

Sobre a dificuldade de distribuição das produções italianas nas salas de cinema, não apenas brasileiras, mas em todo o mundo, ela acredita que o caminho para uma possível solução passa necessariamente por um esforço conjunto a nível governamental dos países interessados em mudar esta situação.

"É preciso reciprocidade e regras expansivas, ao invés de leis restritivas", exemplificou Wertmuller.

Atualmente ela continua se dedicando ao cinema e à televisão na Itália, onde produziu recentemente os filmes "Francesca e Nunziata" (2001) e "Ferdinando e Carolina" (1999).

A diretora chegou esta semana a São Paulo onde participará de uma série de atividades, entre elas uma retrospectiva de seus principais filmes, muitos deles não distribuídos no Brasil, e de uma mesa-redonda na Bienal do Livro de São Paulo, onde discutirá sobre imagem, texto e hipertexto. Também apresentará seu espetáculo teatral "Pecados da Alegria", sobre música e cinema, no Pavilhão da Bienal.



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