Mídia

A extinção do conhecimento

20/06/2006 00:00

Lula Miranda

Admito que talvez haja um certo exagero no título dessa crônica. Talvez, por enquanto, ainda haja mesmo um certo exagero, sim. Mas apenas por enquanto – poder-se-ia dizer de modo previdente e sensato. Talvez ainda – frise-se o ainda – se possa falar que isso que vivenciamos e experimentamos hoje é “somente” uma desvalorização do conhecimento. Tudo bem. Mas, e aí está o risco, todo processo de extinção principia com a desvalorização, descaso ou descuido para com determinada coisa, valor ou espécie. Não é fato?

“Mas o conhecimento, o saber, não se extinguirá nunca!” – exclamaria indignado você, leitor exigente e arguto. Sim, talvez você esteja correto, mas a minha preocupação de fato, daí talvez haver um calculado “exagero” nessa minha assertiva, é a de que o acesso ao conhecimento torne-se algo cada vez mais raro, difícil, restrito e de interesse tão-somente de uns poucos “eleitos”, “iniciados” ou membros de certas seitas, confrarias ou castas – o que, de certo modo, já ocorre hoje. Tenho medo de que o saber torne-se algo exclusivo de sacerdotes e a cultura alvo de interesse só de antropólogos, arqueólogos ou “paleontólogos”. Entende o que digo?

A cada geração que passa, verifica-se uma progressiva desvalorização do saber. A minha geração, por exemplo, há uns vinte e poucos anos, já era criticada por ser “alienada”, por interessar-se pouco por livros, pelas coisas da arte e da cultura e pela observação e discussão dos acontecimentos à volta. Isso já ocorria com a minha geração, que é a dos indivíduos que eram adolescentes na década de 1970, e certamente aconteceu com gerações anteriores à minha. Imagine então se analisarmos as gerações que estão surgindo agora – e as que ainda estão por vir! Um desastre!

No ano passado, visitando a casa de um sobrinho de uns 28 anos, que morava à época com mais dois jovens da sua geração, pude observar que aquela casa, por ser a casa de jovens de classe média, tinha de tudo em termos de eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos sofisticados, mas, pequeno detalhe, não tinha livros. Nem um sequer.

De uns anos pra cá, entrevistando jovens candidatos a vagas de estágio na Fundação em que trabalho, sempre lhes pergunto sobre seus hábitos de leitura e fico estarrecido ao constatar que hoje ele praticamente inexiste entre os jovens. A resposta, da quase totalidade dos entrevistados, sobre quantos livros leu nesse ano ou no ano anterior é elucidativa: ZERO. Os jovens hoje simplesmente não lêem! Só a título de curiosidade, vai aqui mais uma informação, a média per capita de consumo anual de livros no Brasil é de menos de 2 por habitante – incluindo-se aí os didáticos que são distribuídos pelo Governo. É mole, não!?

No livro “Farenheite 451” de Ray Bradbury, uma obra de ficção publicada em 1953 (adaptada para o cinema em 1966 por François Truffaut), temos o exemplo de uma sociedade totalitária em que a leitura era considerada um crime e, por isso, todos os livros eram incinerados – daí o título do livro que alude à temperatura em que o papel entra em combustão. Nesse contexto, e como uma forma de resistência, surgem os homens-livro, espécie de eremitas ou “marginais” que viviam isolados, refugiados nos campos a recitar trechos de livros, e até mesmo obras inteiras, em longas caminhadas, à semelhança dos passeios peripatéticos de Aristóteles e dos epicuristas.

Sabe-se, decerto, que o conhecimento não está presente somente nos livros, que o preço dos livros estão proibitivos e que ainda faltam bibliotecas públicas em muitas cidades etc. e etc., mas isso não justifica tamanha inapetência para a leitura. Sabe-se também que há outras formas de difusão do saber, sim, novas tecnologias – como a internet. E outras, nem tão novas assim, como a TV. Mas será que essas tecnologias estão sendo utilizadas verdadeiramente como instrumentos de difusão e democratização do conhecimento? Mais ainda: será que essas novas tecnologias estão ao alcance de todos? Ou será que estamos caminhando para uma sociedade como a descrita na instigante, virtuosa e antológica ficção de Bradbury, onde os homens apartados do conhecimento eram presas frágeis e indefesas da manipulação e dominação totalitárias? Será que o homem do futuro, o jovem de hoje, pode realmente prescindir, como pensa, do saber que repousa nos livros e na tradição?

Já pensou que espécie de médicos, engenheiros, advogados, políticos, psicólogos, jornalistas estão sendo formados hoje? Já pensou que tipo de professor que estamos formando hoje!? Veja bem, justo os professores que são, ou pelos deveriam ser, como outrora já o foram, os “mestres” ?

Já pensou o tipo de sociedade que estamos construindo?


N.A – Texto extraído do livro “Balão de Ensaios – poesia e engajamento”.


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