Mídia

A hora do marketing político radical

O patuá que vende desta vez é investir em Big Data e turbinar as redes sociais quando deveria dar lugar a um outro marketing político, dedicado a servir e estar com o povo e pôr a política no comando

23/03/2018 13:49

Kako Abraham/BBC

Créditos da foto: Kako Abraham/BBC

 
Com a eleição do presidente Lula em 2002, o campo democrático-popular foi se acostumando com a ideia de que um marketing político e eleitoral de alto custo e produção hollywoodiana era indispensável para o bom desempenho daqueles que fizeram da justiça social e da soberania nacional um projeto de vida.

Das pequenas campanhas locais à Presidência da República, a figura do “marketeiro” usurpou o espaço da política e da condução coletiva. Parafraseando o baiano Caetano Veloso, “magos” não cessaram de brotar como os responsáveis ocultos pelo destino de uma liderança, de um partido, de um mandato e mesmo de um governo.

Esse marketing deitou sombra sobre o histórico de um outro, aquele que fez o MST, a CUT, as iniciativas feministas, antirracistas e LGBT furarem o bloqueio da grande mídia para colocar suas pautas na ordem do dia, permitindo com que governos progressistas e movimentos sociais fossem reconhecidos por inverter prioridades.

Até mesmo o poderoso roteiro de um discurso do presidente Lula, combinado à habilidade dessa inquestionável liderança operar em benefício das classes trabalhadoras, foi rebaixado à mandinga de publicitários, que ganharam até mais espaço do que os líderes que assessoravam.

Com a deposição a fórceps da presidenta Dilma Rousseff, vê-se alguns efeitos colaterais da overdose desse marketing milionário.

Apesar das restrições impostas pela proibição do financiamento empresarial de campanha, do cerco à esquerda como largada do combate às fakenews e do liquidificador de denúncias em que famosos “marketeiros” tentam “bater” lideranças populares, tem quem ainda queira reproduzir o marketing micareta. Talvez porque vejam a chance de seguir atrás desse trio elétrico de dinheiro. Só que não são negócios o que está em jogo. São direitos.

O patuá que vende desta vez é investir em Big Data e turbinar as redes sociais quando deveria dar lugar a um outro marketing político, dedicado a servir e estar com o povo e pôr a política no comando. E isso em alta resolução como as tecnologias HD, com a autenticidade do sucesso de um vídeo viral amador, em tempo real como os reality shows mais eletrizantes. Afinal, ninguém aqui advoga o anacrônico. Queremos, sim, combater o custo e o risco do marketing cosmético.

Sim, pois nas eleições de 2018, a sociedade exigirá verdade e vontade. Exigirá, portanto, à esquerda, marketing político radical e disruptivo com resultados medidos em não permitir que os de cima fiquem sempre em cima e os de baixo sempre embaixo.

Qual é o segredo de uma estratégia bem-sucedida de marketing político radical? Como fazer com que o público conheça a plataforma e as lideranças do campo democrático- popular sem que seja preciso despolitizar o discurso, submeter suas proposições a um “photoshop” e suas trajetórias a um “storytelling” enganador? Como fazer o uso de ferramentas do marketing na atividade política anti-hegemônica, aplicado em momento de campanha eleitoral e, após, para restabelecer a democracia plena e reverter retrocessos sociais, tendo como ponto de partida uma base material limitadora: o uso de recursos financeiros escassos?

É sobre isso que falaremos nesta coluna a partir de hoje.

 * Chico Cavalcante é Estrategista-chefe da Agência Vanguarda, primeira a trabalhar com enfoque diferenciado de marketing para sindicatos, movimentos sociais, partidos de esquerda e pequenas empresas. É considerado a maior referência nacional em Marketing de Guerrilha. Nos anos 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por oposição à ditadura militar



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