Mídia

Anais do Rumo

24/12/2004 00:00

Edson Wander

Em 1985, a última faixa de "Caprichoso", quarto LP do paulistano grupo Rumo, funcionava como uma profecia que agora se concretiza ao menos em parte. “Release”, a música de Luiz Tatit, começava dizendo o seguinte: "Nascido em 74 com uma história singular/Levava a bandeira de ser um grupo novo/Já tinha biografia razoável/O tempo passava e o grupo continuava novo/É singular!/(Em que ano foi?)". O término daquele samba de auto-enredo era assim: "Chegando em 2004 o grupo festejou/Os trinta anos de sua independência/E, pela primeira vez, nas rádios de audiência/E os locutores gritando: é um grupo novo!!!/É singular! (Em que ano foi?)".

Trinta anos depois, o grupo de dez músicos que integrou a geração que antecipou o que hoje se conhece por cena “"indie"“ (independente) na música popular brasileira continua não tocando em rádio, mas o apelo de sua discografia continua vivo. É o que garante Paulo Tatit, guitarrista e violonista, responsável pela reedição digital dos seis LPs do Rumo
lançados entre 1981 e 1988. O grupo reuniu-se especialmente para os relançamentos, há duas semanas em São Paulo.

Segundo Paulo Tatit, o público que lotou os shows e uma edição extra não era formado só por gente saudosista. "Havia muito moleque, garotos de 15 anos", disse Tatit, que hoje comanda um selo voltado para a música infantil, Palavra Cantada, pelo qual sai as reedições do Rumo. Os shows no Sesc Pompéia tiveram ainda uma exposição de fotos, cartazes e vídeos do acervo do grupo preparados por Gal Oppido, o baterista que se tornou fotógrafo e designer profissional. Paulo Tatit afirma que está em estudo a possibilidade da gravação de um DVD em parceria com a TV Cultura.

NOVO E ANTIGO
Formado por estudantes da USP, o Rumo foi um dos grupos de destaque da chamada Vanguarda Paulista, uma geração reunida em torno do teatro Lira Paulistana entre os anos 70 e 80. Nesse time, havia entre outros, Itamar Assumpção (morto em 2003), Arrigo Barnabé (que nunca tocou no Lira, mas circulava por lá e acabou associado a eles), os grupos Premeditando o Breque, Sossega Leão, Metalurgia e um tal de Titãs do Iê-iê-iê (você sabe quem, leitor), além de Ultraje a Rigor.

Depois do "Rumo ao Vivo" (1992), cada um dos integrantes do Rumo foi cuidar da vida sozinho, nem todos na música. Luiz Tatit e Ná Ozzetti tocam as carreiras individuais (Tatit, em paralelo à carreira de professor na USP); Paulo Tatit partiu para fazer música infantil (de ótima qualidade) no selo Palavra Cantada (com Sandra Peres), Hélio Ziskind (sopros)
também partiu para música infantil (tem dois discos e são dele as trilhas do Castelo Rá-tim-Bum e Glub Glub, programas da TV Cultura); Gal, o baterista, segue na fotografia; Pedro Mourão (percussão), Akira Ueno (guitarra) e Ricardo Breim (teclados, da segunda formação) atuam em escolas de música; Fábio Tagliaferri (violão e composição, também da segunda formação) segue carreira-solo; Zecarlos Ribeiro (voz/violão) montou escritório de arquitetura e Geraldo Leite (voz) uma empresa de comunicação. Ciça Tuccori, cantora da primeira formação, morreu ano passado.

O som do Rumo preconizava o antigo pelo novo, buscava nas canções a música enfronhada nas palavras, todas defendidas como canto-fala em entonação característica sobre um instrumental entre o contido e espalhafatoso. Tudo muito bem executado apesar da precariedade técnica dos "meninos que viviam meio mal, gostavam muito de música, mas sem tino comercial" (como os descrevia a citada “Release”). Os dois primeiros álbuns do grupo são emblemas. Lançados simultaneamente em 1981, o primeiro, homônimo, reunia composições do grupo, com Luiz Tatit e Zecarlos Ribeiro à frente. Crônicas esconcertantes, de um humor e ironia ferinos.

O outro, “Rumo aos Antigos” mostrou outra face marcante deles com as pesquisas e releituras inventivas de canções de Sinhô, Lamartine Babo, Noel Rosa, Vadico e outros lumiares da canção brasileira dos anos 30. Os seguintes “Diletantismo” (1983) e “Caprichoso” (1985) mantiveram a linha autoral até o derradeiro ao vivo, de 92. Antes, saiu o infantil “Quero Passear” (88), que pavimentou os talentos de Ziskind e Paulo Tatit (irmão de Luiz) para falar às crianças. A reedição não significará reunião do grupo, mas a memória de um pedaço bacana de mais um rico gueto musical brasileiro está para sempre resgatada, inclusive na internet. Paulo Tatit promete colocar todo o resgate iconográfico do grupo no site já em funcionamento em www.gruporumo.com.br. É por onde também é possível comprar os discos.


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