Mídia

As desconhecidas vozes da América

04/12/2006 00:00

Publius Vergilius

Créditos da foto: Publius Vergilius
SALVADOR – Inquietação é característica fundamental para aqueles que dedicam uma vida inteira à arte. No âmbito da música universal, o pianista e compositor Benjamim Taubkin é uma dessas peças raras no universo da careta música popular brasileira. Além de produtor e pesquisador, o curador musical do VII Mercado Cultural, realizado entre 1º e 4 de dezembro em Salvador, apresentou no Teatro Castro Alves o espetacular concerto América Contemporânea, reunindo onze músicos latino-americanos e seus repertórios em um só palco.

Álvaro Montenegro, da Bolívia; Aquiles Baez, da Venezuela; Christian Galvez, do Chile; Lucia Pullido, da Colômbia; Luis Solar, do Peru; e Ari Corales, João Taubkin, José Miguel Winik e Siba, das terras canarinhas, sob o comando de Taubkin, fazem parte do projeto que conta com um álbum lançado em setembro desse ano em São Paulo.

A programação musical do Mercado, que acontece em Salvador integrado ao II Fórum Cultural Mundial, procurou a diversidade da música brasileira equilibrando o debate entre o erudito e o popular. Além das tradições da sabedoria oral expressa em tantos momentos, artistas consagrados do lado b da música contemporânea estão representados em espetáculos que preservam a chamada qualidade musical.

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Benjamim Taubkin falou de onde surgiu a idéia de criar o América Contemporânea, do restrito mercado fonográfico mundial e de saídas alternativas para as produções independentes, da urgência em acabar com a prática do jabaculê e da necessidade de organizar propostas práticas além das discussões democráticas criadas nos fóruns para a cultura.


Carta Maior – De onde surgiu a necessidade de resgatar e integrar a música contemporânea da América Latina?
Benjamin Taubkin – Isso começou há 15 anos. Comecei a ficar muito inquieto com o pouco ou nada que a gente conhecia da produção de nossos vizinhos. Nos anos 70, por causa da resistência política, nós tínhamos um pouco de Mercedes Sosa, Violeta Parra. Então fiquei pensando: não é possível que só exista isso. Aí veio toda essa inquietação. Tentei alguma bolsa para fazer uma viagem de pesquisa, quando eu estava na Secretaria de Cultura também tentei alguma coisa com o Memorial da América Latina, mas nada deu certo. E a idéia ficou presente. Então, em 2001, comecei a trabalhar no Mercado Cultural e tive contato com muitas pessoas desses países. Fiquei muito entusiasmado com as coisas que ouvia. Tentei colocar como foco do Mercado trazer música latino-americana para a Bahia. Em 2003, consegui fazer uma viagem por vários desses países e fiquei encantado com o que vi e ouvi. E, dessa viagem, das pessoas que conheci, nasceu o América Contemporânea. Gravamos o disco, que foi lançado também na Europa e nos Estados Unidos. Temos esse desejo da permanência eventual, pois cada um tem os seus próprios projetos. A intenção é que pelo menos um mês por anos nós consigamos nos reunir.

CM – No Brasil, o mercado fonográfico é uma coisa muito sofrida e restrita, devido à concentração dos meios de comunicação nas mãos e interesses de poucos grupos. No resto da América Latina a situação é diferente?
BT – Esse problema é mundial. Em 1999, eu comecei a participar muito na Europa nesses encontros de música, e percebi que todo lugar tem a produção fora da grande indústria procurando seu espaço. Uma tiragem de três ou cinco mil discos independentes vendidos é bom no Brasil, nos EUA e na Europa do mesmo jeito. Os mercados são muito parecidos, não existem facilidades. O mercado argentino vem apresentando um cenário de evolução. Eles conseguiram realizar agora a primeira Feira da Produção Independente. Todos estão buscando espaço e tentando novas estratégias.

CM – Mas estão buscando isso de forma individual ou já articulados em rede?

BT – Ainda está no cada um por si. Mas algumas coisas se fazem em conjunto. Eu tenho um selo e lancei o disco do Carlos Aguirre, em 2002. A Colômbia dá um grande exemplo com muitos coletivos de músicos, que trabalham sempre juntos nos shows, gravações e distribuições. Tem um projeto muito bacana chamado Distrifonicas que faz um excelente trabalho coletivo de distribuição dos discos.

CM – E o que o Poder Público poderia fazer para colaborar com a música contemporânea?
BT – Ultimamente eu tenho pensado que, dependendo da intervenção do governo, ele pode apenas piorar as coisas. Falta a idéia da autonomia. Quer fazer? Faça. Busque os contatos e vá atrás. As pessoas esperam demais essas iniciativas governamentais e, às vezes, elas só atrapalham. Boa parte do meu trabalho é ajudada por uma pequena instituição e o resto depende de contato individual. Eu defendo a autonomia.

CM – Partindo para a crítica musical, como o sr. analisa as produções musicais do cenário atual?
BT – Na América Latina há infinitas coisas, é sempre uma descoberta. Para mim, é o melhor lugar que produz música popular hoje em dia. No Brasil, eu sinto honestamente que tem uma nova geração de muitos bons músicos, como nunca tivemos. Isso é muito bacana. Estamos em uma entressafra, depois de muita criatividade nos anos 90 até 2000. Agora as pessoas estão digerindo tudo isso ainda e novas coisas virão. Tem mais uma coisa: as questões do governo mexeram muito com a imagem do brasileiro. Os problemas que ocorreram afetaram um pouco a idéia da construção de um Brasil. E isso afeta a música. Nos últimos anos, teve uma redescoberta do Boi, do Maracatu e outras tradições que se uniram com outras expressões. Houve uma ruptura na coisa do imaginário. E o governo tem de prestar atenção nisso. Porque é um governo com que as pessoas se sentem representadas, tem muita expectativa e a responsabilidade é maior. Eu acho que está tendo overdose de discussão pública que tem que ser canalizada para uma direção, ou então não acontece nada. É importante o debate, mas não pode servir para nós nos distrairmos. Precisamos pensar na ação, uma política clara.

CM – E quais são as questões claras na área da música que precisam ser discutidas?
BT – Acabar com o jabá é claro, é fundamental. Se nos distrairmos dessa discussão para outra, não vai acontecer nada. Todos que estão discutindo aqui e ali acabam sentindo-se abandonados. Isso é vital. Podemos equipar também com os livros para ter descontos em impostos. Apenas criminalizar o jabá eu não sei se é o suficiente. Tem que tocar música diversa. O Canadá criou um projeto de lei que diz que rádios que toquem mais do que um determinado número de músicas têm isenção de impostos. E estamos preocupados com a música no Brasil, precisamos encarar de frente. Eu detesto as discussões vagas sem olhar para o principal. Isso é dar balinha para criança. Chega disso.


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