Mídia

Bixo ou bicho?

03/02/2006 00:00

Moacyr Scliar

Cada vez que saem os resultados do vestibular é a mesma coisa: nas fachadas de prédios ou de casas aparecem faixas (já existem empresas especializadas em prepará-las) saudando um calouro ou caloura de Medicina, de Direito, de Letras. E a palavra "bixo" freqüentemente é utilizada. O certo não seria "bicho"? De acordo com as regras ortográficas, sim. O certo, e o dicionário do Houaiss enfatiza isso, também seria "brochura" e não "broxura", para designar aquela situação em que - bem, vocês sabem (não se trata de livro que não tem capa dura. A dureza, melhor dizendo, a falta dela, aí está em outro contexto).

Esta modificação não é a única. Os brasileiros também adoram recorrer à letra K. "Ki coisa" substitui "que coisa", "Kibon" está no lugar de "Que bom", "kachorrão" designa um cachorro-quente grande. Já o Y e o W, também letras meio estrangeiras, freqüentemente relegadas a um segundo plano. Eu sou registrado como "Moacyr", mas não me importo quando escrevem "Moacir", porque isso acontece com bastante freqüência. Algumas pessoas até escrevem Moacir Sclyar, o que deve ser uma espécie de compensação. E às vezes a intervenção chega a um extremo. Há algum tempo, escrevi para uma editora de São Paulo uma biografia de Oswaldo Cruz, o fundador da saúde pública brasileira. Quando recebi o livro, verifiquei, para minha surpresa, que Oswaldo tinha virado Osvaldo. Ponderei ao editor que o homem era Oswaldo mesmo, registrado dessa maneira. Resposta: para nós, W não existe. Ou seja, K, sim, Y e W não. Como é que se explica esta opção? Não se explica. Isto obedece a alguma questão psicológica, que depois se propaga de pessoa a pessoa.

É por isso que não vejo grande problema com a linguagem de Internet (e do Telecine 1 da Net), freqüentemente atacada por puristas. De fato, não é a grafia oficial. Mas é uma maneira que as pessoas têm de dizer: nosso grupo é diferente e, portanto, escrevemos de forma diferente. Quando se trata de vestibular, ou de trabalhos de escola ou faculdade, ou de teses, esses jovens escreverão como todo mundo.

Bixo, portanto. Coisa que, em geral, a gente só é uma vez na vida. Portanto, e com qualquer grafia, temos de aproveitar.

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Arteiros ou artistas? Recebi muitos comentários acerca da crônica da semana passada, diferenciando pichação de grafitagem. O Paulo Vítor dos Santos diz que ele e seus amigos trabalham grafitagem como arte, usando somente lugares autorizados. E a Lidia, do Instituto de Cardiologia, que trabalha com o doutor Ivo Nesralla, conta que aquela grande instituição também encomendou um mural a grafiteiros.


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