Mídia

Cabra-cega

16/06/2005 00:00

Helena Sut

Luz! Uma claridade que ofusca os olhos e traz o período obscuro da história brasileira à consciência de cada espectador. As vendas não se limitam aos olhos, a brincadeira infantil amadurece nos corpos dos personagens. Os presentes são contagiados pela dor logo nas primeiras imagens e verificam, no esconderijo de algumas percepções, que as principais amarras são as construídas pelo medo. A resistência nos cárceres da ditadura, aniquilada nos porões da alienação e do esquecimento...



Reforma ou revolução? O diálogo entre o militante ferido (Tiago) e o arquiteto simpatizante pela causa (Pedro) abre a janela para a necessária análise do contexto histórico, dos ideais sociais e das formas de implementação da possibilidade entre a utopia e o conformismo. Para a compreensão da história, é necessário senti-la com dor, perceber que a reprodução dos fatos muitas vezes remete ao esquecimento os sujeitos de transformação que não se deixaram atar pelas mordaças da época.



Grandes silêncios pautados por um relógio impiedoso. Um tic-tac que marca o tempo da ficção na contemporaneidade do tempo de todos os reais sobreviventes.



Cabra-cega é um foco de luz. Narra a trajetória de um militante, o idealismo exacerbado que muitas vezes beira à paranóia, a necessidade de lutar contra as imposições e a consciência construída na leitura histórica e filosófica das sociedades. Depois de quase enlouquecer entre as quatro paredes de um apartamento, Tiago (Leonardo Medeiros) é levado à cobertura do prédio na clandestinidade e novamente percebe o mundo em movimento, passa as mãos pelos contornos da cidade distante, parece acariciá-la, ao tempo em que compreende a indiferença das grandes massas pela sua luta. Será que sabem de nossa luta por eles?



A militante Rosa (Débora Duboc), sua interlocutora com o mundo, desnuda a fragilidade do militante quando constata a solidão como causa da morte da vizinha, mãe de uma vítima da guerra civil espanhola, e questiona a extensão do conflito interior dos indivíduos. Como pode o homem liderar a revolução se não consegue compreender a solidão de cada um? Como pode buscar preencher a sociedade se não consegue reconhecer as ausências em sua imagem refletida?



O corpo ensangüentado do experiente militante Mateus (Jonas Bloch), exposto na rua sob os olhares de uma multidão amedrontada, a divulgação da morte de Lamarca e a traição de um jovem militante após ser torturado poderiam ser motivos para a rendição dos combatentes encurralados, contudo, são elementos que abrem uma nova janela para os personagens, agora com o engajamento de Pedro (Michel Bercovitch), armados para uma claridade ofuscante.



Cabra-Cega é mais do que um retrato da ditadura, é um espelho aberto para a percepção de nossos papéis na sociedade. A metáfora da brincadeira infantil ganha os contornos de nossas covardias, as vendas que tantas vezes usamos para obscurecer nossa lucidez e nos preencher com a dificuldade de posicionamento.



Uma obra-prima do cinema nacional. Atuações, trilha sonora, direção, fotografia e roteiro impecáveis emolduram o tema ainda não cicatrizado pelos que viveram o período obscuro. Uma janela aberta, uma intensa claridade que fere a sensibilidade dos mais jovens com as vivências históricas e revitaliza a luta dos que acreditam numa sociedade melhor. Um filme necessário para decifrar as tantas ditaduras que construímos no cotidiano e que nos impedem de sentir a realidade como sujeitos conscientes.



Cabra-Cega é um filme que deve ser visto e revisto por todos que anseiam alicerçar seus ideais em uma compreensão aprofundada de um período histórico que não pode ser encarcerado no esquecimento.




Na teia:



Veja mais informações e trailer do filme



Veja o texto O que as vozes das derrotas nos dizem de Marco Aurélio Weissheimer, sobre o filme Cabra-cega




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