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Corinthians x Chelsea: Jogo Voraz

16/12/2012 00:00

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Créditos da foto: teste
Quando em 1910, alguns operários do Bom Retiro decidiram criar um time de futebol que tivesse a cara do bairro, não estava em gestação a construção de uma cultura nacional. Bem ao contrário, a elite nacional buscava nos padrões europeus o molde para condutas e relacionamentos, o que somente veio a ser contestado, de forma direta, na Semana de Arte Moderna, em 1922.

Assim, e mesmo considerando que, em 1910, a maior parte dos operários brasileiros fosse composta por imigrantes europeus e o fato de que a inspiração tenha vindo a partir da visualização de um time inglês, que veio fazer uma partida em São Paulo, a ideia dos operários, Joaquim Ambrósio, Carlos Silva, Rafael Perrone, Antônio Pereira e Anselmo Correia, ainda que não estivesse inserida em um projeto político mais amplo, exerceu, certamente, um relevante papel no favorecimento da construção de uma identidade nacional, o que se permitiu com maior intensidade com as conquistas de 1958 e 1962, especialmente pela postura do Garrincha de denominar todos os seus adversários “gringos” de “João”.

Inegavelmente, o futebol ganhou um espaço importante no cenário nacional e, considerando a história do Corinthians – e de tantos outros times brasileiros – acabou servindo, também, para a formação de uma consciência de classe, pela forma de associação popular em torno de um ideal, embora limitado ao aspecto da diversão. Analisando a experiência mundial, Eric Hobsbawm, lembrado por José Miguel Wisnik [1], definiu o futebol, em um dado momento histórico, como “a religião leiga da classe operária”.

Verdade que dado o seu efeito anestésico, o futebol, igualmente, pode ser visto como o “ópio do povo”, conforme destaque de Juan José Sebreli, também citado por Wisnik, tendo servido, inclusive, a projetos de ditaduras militares, como se deu no Brasil, em 1970, e na Argentina, em 1978, e se inserido, a partir da década de 80, de forma definitiva, à lógica de mercado, sobretudo por favorecer a reprodução da crença no sistema pela inserção meritória de caráter individual.

Mas, como adverte Wisnik, podemos abordar os aspectos políticos do futebol, mas não podemos deixar de falar do futebol em si e o fato é que o futebol insiste em encontrar os seus próprios caminhos, pois é um esporte que, ao menos no Brasil, mexe com emoções amortecidas e se apresenta como um campo das contradições, principalmente porque desenvolve uma lógica coletiva que atinge jogadores e torcedores.

Além disso, não será exagero dizer que a vitória do Corinthians, que ao longo de sua história tentou preservar as suas origens, instalando-se na zona leste da capital de São Paulo e não tendo vergonha de expressar um pouco da cultura popular, tendo sido, inclusive, o “locus” de grande experiência pela luta democrática, impulsionada pelos cidadãos, Sócrates, Casagrande e Wladimir, no período de 1981 e 1985, que, inclusive, extrapolou os limites dos gramados, foi uma vitória do povo e uma forma de difusão de valores importantes para o desenvolvimento de uma cultura nacional republicana.

Bem ao contrário do Santos no ano passado, que estava por demais integrado à lógica de mercado e ao propósito de internacionalização, o Corinthians jogou como Corinthians, assumindo suas origens e sem medo do enfrentamento, sem trauma de inferioridade... A torcida do Corinthians “invadiu” Tóquio como torcida do Corinthians, com orgulho da sua própria história.

Os jogadores, a exemplo do que já haviam feito no jogo contra o Boca, integraram-se a essa lógica coletiva, de sacrifício pelo todo, e, mais uma vez, jogaram uma partida memorável do ponto de vista da entrega e da competência, pois, como se trata de um esporte, só a raça não salva! É preciso técnica e isso se viu de sobra nas defesas do Cássio e na tranqüilidade do Danilo e, em certa medida, em todos os demais, que compensaram, com sobras, a noite sem brilho do Paulinho, mas que tinha crédito, com sobra, para tanto.

O movimento dos torcedores, tido como a nova invasão, repercutiu na atitude dos jogadores, e foi incentivado pela mídia, que ajudou a difundir as “marcas” corinthianas: “vai Corinthia!”, “é nóis”; “mano”; “bando de loucos” etc.

Passado o jogo, no entanto, a percepção que se tem é a da tentativa de esvaziamento do caráter “revolucionário” da ação coletiva corinthiana, pautada pelo conteúdo de uma cultura popular, que foi capaz de desafiar o desconhecido e o poder econômico, representado pelo “status” do adversário, para que essa experiência, transformada em euforia, não seja incorporada a outras práticas populares com propósitos anti-hegemônicos.

É interessante, aliás, fazer um paralelo da presente situação com a ficção de Suzanne Collins, Jogos Vorazes. No livro, transformado em filme com o mesmo nome, a autora trata de um momento futuro no qual a sociedade, dividida em classes e com diversidade cultural e econômica, é gerida por um governo autoritário que, por um dia ter enfrentado e derrotado uma revolta popular, institucionaliza um jogo, um reality show, que serve ao mesmo tempo como punição e prevenção de novas revoltas.

No jogo, que se realiza anualmente, cada Distrito, 13 ao total, envia dois representantes, escolhidos entre jovens de 12 a 18 anos, para um combate de vida e morte, do qual apenas um sai vencedor, e se transforma em herói, com o propósito específico de gerar a esperança de que se uma pessoa comum, do povo, conseguiu ser a vencedora, qualquer outro pode conseguir.

Na trama do filme, no entanto, o casal que vem do mesmo Distrito se apaixona, ou simula a situação, e desenvolve uma lógica coletiva para sobrevivência, sendo que um deles, a menina, em nenhum momento do jogo, se mostra integrada àquela lógica, e depois que sobram apenas os dois, estes se recusam ao fim trágico de um matar o outro e resolvem praticar suicídio. Diante da possibilidade da constituição de heróis alheios às regras do sistema, o sistema muda as suas próprias regras antes dos suicídios e os acolhe, a ambos, como vencedores, mas buscando, nos atos seqüenciais, destruir o propósito questionador, sobretudo da menina, tratando o ocorrido como uma situação episódica, justificada pela “paixão infantil”. O jogo devia ser apenas, como expresso no livro, um “momento de esperança”, não podendo servir ao desenvolvimento de práticas coletivas concretas anti-sistêmicas.

Pois é. Vivenciamos quase um mês de envolvimento com a “loucura” corinthiana, de difusão orgulhosa da cultura popular. Com essa confiança, o time do Corinthians jogou com a coragem dos aventureiros imigrantes, a técnica desenvolvida na várzea e a tranqüilidade dos que não tem o que perder, como se estivessem na “fazendinha”, culminando com a apoteótica vitória do time da zona leste paulistana, de todos os “manos”, sobre o mais representativo símbolo do neoliberalismo, o time inglês, que foi montado a partir do investimento pessoal de um milionário, o Sr. Roman Abramovich.

Essa conquista proporciona a difusão da noção de que é possível acreditar mesmo que o povo unido, em prática coletiva, é capaz de qualquer coisa, não temendo, pois, o enfrentamento de poderosos e opressores. Acabado o jogo, no entanto, o que se viu foi o processo de destruição da empolgação. De plano, foram escolhidos os três melhores jogadores, sendo que ao primeiro, se conferiu o prêmio de um automóvel. Já se buscam os “verdadeiros heróis” individuais da conquista e a identificação das estratégias de “marketing” que o Corinthians deve usar para fazer dinheiro e difundir sua “marca” para inserção no cenário futebolístico e mercadológico internacional, assim como para que também os jogadores possam se beneficiar economicamente, vislumbrando os seus projetos individuais.

A torcida? Bem, segundo o projeto institucionalizado pela própria entidade que domina, mundialmente, o futebol, a FIFA, que possui, a propósito, um projeto com nome extremamente revelador, “Momento de Esperança”, ligado a ações filantrópicas, e claro, conforme o projeto das elites nacionais, a torcida deve retornar à sua vida verdadeira, pois tudo aquilo não seria mais que uma experiência ilusória, temporária. Não seria nada além que um simples jogo de futebol, restando da partida apenas os momentos “mágicos” que possam conduzir a práticas mercantis.

O problema é que cada vez mais essas experiências bem sucedidas das classes populares tendem a alimentar a compreensão em torno da ação coletiva para a mudança do próprio destino, ainda mais em se tratando do “bando de loucos”, que já viu sua democracia participar ativamente da vida política do país. E, nesse contexto, a vitória nas quatro linhas é apenas um reforço, muito importante é claro, mas não é a essência. Vide, a propósito, o exemplo do time derrotado pelo próprio Corinthians na sem-final, o Al Ahly, que, fundado em 1907 por estudantes, com apoio da classe operária, tem participado, desde então, ativamente da vida política do Egito, lutando contra o colonialismo britânico e tendo integrado, também, recentemente, a Primavera Árabe, na luta pela derrubada do presidente Hosni Mubarak, que estava no poder há 30 anos.

Hoje, ninguém há de contestar: o mundo é do bando de loucos, que bem mais que um bando sem direção, trata-se de uma nação, composta por pessoas dispostas a lutar por objetivos comuns, mantendo firme a memória de sua origem, que não as impede de buscar conquistas, muito pelo contrário. Em que medida a afirmação incontestável de que o mundo é desse “banco de loucos” pode ser de fato uma verdade é uma questão que envolve o conflito entre os potenciais emancipatório e alienante do futebol e a capacidade de todos nós corinthianos, ou não, de apreendermos as mensagens cifradas dos fatos que nos circundam.

(*) Professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP.

[1] Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 43.

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