Mídia

Ismênia Coaracy

30/10/2004 00:00

Margarida Nepomuceno

Quem foi à exposição "Mulheres Pintoras" que reuniu, recentemente,
preciosidades de 50 artistas brasileiras do final do século XIX e do século XX na Pinacoteca do Estado, não pôde deixar de sentir a ausência de Ismênia Coaracy (na foto), uma das mais tradicionais artistas paulistas. Reconhecida e admirada pelo meio artístico e pelos críticos de arte de sua geração, hoje com seus 86 anos, está em plena atividade participando de mostras e recebendo amigos e estudantes em sua casa, no bairro de Pinheiros. Ismênia pertenceu ao Grupo Guanabara, formado nos anos 50 pelos artistas paulistas Ianelli, Elzira e Armando Pecorari, Fukushima entre outros, do qual fizeram parte também as nipo-brasileiras Alina Okinaka e Tsukika Okayama - ambas com obras nessa mostra. Sua ausência causa, ainda, maior estranheza, uma vez que duas de suas melhores telas, entre elas "As duas colunas mestras" e "Vernissage", do
final dos anos 60, fazem parte do acervo da Pinacoteca, doadas pela artista há vinte anos.

Com uma trajetória marcada por ousadias artísticas, ao longo de seus mais de 50 anos de trabalho, Ismênia trilhou caminhos diversificados sempre preservando sua personalidade artística, sem esconder a identidade com o expressionismo e a admiração por Van Gogh. Como tantos artistas de sua geração, segundo observou o escritor José Roberto Teixeira no seu Dicionário Crítico da Pintura, de 1988, Ismênia iniciou sua carreira com pintura figurativa, passando na década de 60 à abstrata, retornando, após múltiplas experiências, à uma nova figuração. Trabalhou ainda com ilustrações para jornais da capital, fez gravuras - que estudou com Lívio Abramo - foi professora de pintura e desenho e teve algumas experiências com filmes super-8.

É como pintora, entretanto, que ela conseguiu expressar melhor seu grande talento. Autodidata, suas obras têm um pouco de todos os "ismos". Do expressionismo à figuração lírica, intercalando fases mais abstratas ou
figurativas mantendo sempre, entretanto, seu traço inconfundível, que é a
independência de escolhas para expressar sua visão crítica, eclética e bem-humorada do mundo.

Vizinha e amiga da artista Marjô, falecida recentemente, foi por
ela levada a ter contato com os integrantes do Grupo Guanabara - um dos últimos da escola modernista de São Paulo- cujos membros reuniam-se em torno do ateliê e oficina de moldura de Fukushima, no Largo Guanabara, hoje estação do metrô Paraíso, em São Paulo. Participou de três coletivas com o grupo paulista, inclusive da mais importante delas, na Associação Cristã de Moços, em 1958.

De lá para cá, não parou mais: foram mais de 100 exposições, individuais e coletivas, por todos os estados do Brasil, participações em três Bienais de São Paulo - VII,VIII e IX - mostras e Bienais de Arte em países da América Latina, Europa e EUA.

Sua última mostra, em março de 2002, denominada "Cartas de
Baralho", no Centro Britânico, em São Paulo, mereceu destaque do jornal "O Estado de São Paulo", com matéria de página inteira assinada pela respeitada jornalista de arte Maria Hirszman.

Recebeu dezenas de prêmios e medalhas, dos quais muito se orgulha, como o de Aquisição, do Itamarati, na última Bienal de São Paulo em
que participou, a de 1969.

Recentemente, foi homenageada no I Congresso Mundial de Gestão Coletiva de Direito Autoral, em agosto último, em São Paulo - ao lado de familiares do escultor Victor Brecheret e da pintora Tarsila do Amaral - pelo conjunto de suas obras. Nessa ocasião, Maria Luiza de Freitas Valle Egea, diretora do evento, lembrou a importância da artista para a história da arte brasileira do século XX.


Polêmica por não se deixar atrelar a nenhum movimento ou estilo,
recebeu da crítica especializada, desde o início de sua carreira, em 1946,
respeito e admiração. Já em 1969, a escritora e crítica de arte Aracy Amaral,
no catálogo de apresentação de uma das mostras da artista escreveu : "... encontramo-nos diante de uma pintora que fala em voz alta, no mesmo nível do mundo que a rodeia". Cinco dicionários de arte, enciclopédias e dezenas de artigos e ensaios analisam a trajetória de Ismênia, desde que começou. Tudo registrado pela Equipe técnica de Artes Plásticas da Divisão de Pesquisas da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo.

Qual teria sido o critério utilizado para a escolha das obras expostas em "Mulheres Pintoras" para que o trabalho de Ismênia não fosse
lembrado? Foram 120 trabalhos escolhidos e os de Ismênia, se estivessem ao lado de suas contemporâneas do Grupo Guanabara ou ao lado de Lucilia Fraga, Georgina de Albuquerque, Djanira, Tarsila do Amaral, Tomie Ohtake ou Lucy Citti Ferreira teria engrandecido certamente esse histórico encontro de senhoras pintoras.

Valeria uma explicação dos curadores responsáveis pela mostra. Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca, não nos atendeu, quando procurado por telefone, até o encerramento desta edição.


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