Mídia

Jorge Aragão - Entrevista exclusiva

31/12/2004 00:00

Rodrigo Sanfelice da Cunha



Jorge Aragão estava em Luanda, onde nosso correspondente Rodrigo Sanfelice entrevistou-o. O sambista fala de suas referências musicais e de projetos no continente africano, além, é claro, do resgate de suas raízes.



Carta Maior - Jorge, este depoimento será veiculado numa mídia independente e alternativa, através de uma agência de notícias na internet. Você acessará a rede mundial de computadores para ler a entrevista?



Jorge Aragão - Foi justamente através da internet que me interessei por esse processo complexo chamado globalização. A internet foi, de fato, a minha porta de entrada nesse universo virtual. O meu apreço pelo rompimento das limitações das distâncias físicas vem desde garoto e me faz lembrar dos tempos idos, quando eu gostava de saber o que estava acontecendo fora do Rio de Janeiro. As cidades tinham sempre as suas rádios difusoras, que anunciavam os produtos à venda na farmácia da rua Central, e que o meu radinho de ondas curtas sintonizava e me levava para os lugares mais diversos. Hoje a internet é o veículo que tem exatamente essa mesma propriedade de romper as distâncias, de aproximar.




CM - Um fato de grande importância na semana foi a notícia de que, finalmente, os Racionais MC’s cederam os direitos de execução de uma de suas músicas para veiculação em um vídeo-clipe no Fantástico que vai ao ar neste domingo, na Tv Globo.



JA - É mesmo? Eu não sabia.






CM - Eles sempre estiveram na ponta de uma lista de autores que se recusavam terminantemente a ceder seus direitos à Globo, por considerá-la racista, sectária e excludente. Alguns setores da mídia vibraram ao saber que os rappers finalmente baixaram a guarda. Você vem de uma longa jornada em defesa dos direitos da negritude e das questões de igualdade racial no Brasil, e ao mesmo, tempo, é um dos autores mais tocados na Globo - a vinheta do Carnaval Globeleza, por exemplo, é de sua autoria. Como você enxerga essa questão?



JA - É uma questão muito pessoal. Veja bem, eu não faço música para a Rede Globo. Se eles quiseram tocar minha música, tudo bem, eu não posso perder a oportunidade de falar para essa janela para o mundo que é a TV Globo. Ela é sintonizada até aqui em Angola, e eu não sabia – estive no programa do Serginho Groismann no sábado anterior ao embarque para Luanda, falei que faria shows aqui, e não sabia que ela tinha tanta audiência em Angola. Por outro lado, é bom ser comedido. Deixar o seu público te ver, matar saudades. Não fazer só a TV Globo, ir à Record, à TV Educativa, à Cultura de São Paulo. Mesmo porque essa situação pode descambar para um outro extremo – veja o caso da Alcione, e suas excessivas aparições em tudo o que era Globo de Ouro e afins: o público cansou-se de vê-la. A hiper-exposição pode também ser negativa.




CM - Então, a seu ver, qual a importância de vir a Angola, de trazer a música brasileira e o samba ao encontro de seus ancestrais mais remotos?



JA - Quando eu pisei em Angola a primeira vez foi em 1987. O Martinho da Vila chamou-me para acompanhá-lo ao cavaquinho. Como agora, o componente financeiro era um aspecto de menor importância. A previsão era
realmente a de ir ao encontro de nossas raízes ancestrais. Fomos ao ponto de embarque dos navios de onde partiam os escravos, ao sul de Luanda. Não havia essa preocupação de busca da identidade ou questões ideológicas, nada disso. Queríamos mesmo ouvir os instrumentos, conhecer a musicalidade. Eu não poderia imaginar que um dia estaria de volta, e o destino reservaria-me essa agradável surpresa de vir trazendo o meu próprio nome, a minha banda.




CM - Qual a ligação, hoje, do seu trabalho com o do autor de Canta, Canta, Minha Gente?



JA - O meu samba é em outra vertente. Mas Martinho da Vila é sem dúvida uma grande referência, e o seu trabalho é o exemplo inequívoco do que deve ser feito para se continuar e se dignificar o samba.




CM - Numa entrevista recente, durante a divulgação das suas apresentações em Luanda, foi publicado no jornal oficial do governo angolano que - nas palavras suas - o grande nome do samba, sua maior referência na música fora Roberto Ribeiro. Diga mais sobre essa admiração.



JA - Quando comecei, Roberto Ribeiro já tocava nas rádios, seu nome era conhecido e respeitado no universo do samba do Rio de Janeiro e suas agremiações. Eu espelhei-me nele, na sua refinada elegância, desde a escolha do repertório ao seu estilo de interpretação. Tudo o que faço hoje é uma continuação do que vi e aprendi com Roberto Ribeiro. Por ocasião do começo do Fundo de Quintal, do qual sou fundador, Roberto Ribeiro era a nossa maior fonte.







CM - O fato dele ter sido um intérprete genial, e ter tido um final tão deprimente – desprezado, desassistido, doente e no ostracismo – isso tudo chega a te abalar, esse imenso desrespeito que o Brasil tem pelos seus maiores artistas?



JA - Vou buscar, aos 55 anos, esquecer o que foi feito. Eu atenho-me ao trabalho de Roberto Ribeiro, mas sei que cada um tem o seu espaço, que tem que lutar por ele e construir a sua própria discografia. Bem sei das condições de trabalho que foram colocadas à sua disposição na época, seus bons contratos, boas gravadoras e músicos, mas seguidos pela carreira conturbada, os problemas pessoais e de saúde – como a visão prejudicada pela diabetes e agravada pelas crises de alcoolismo, até o episódio desastrado em que ele foi limpar as lentes com limão, e que, respingando-lhe nas vistas, o deixou definitivamente cego.




CM - O que você procura fazer para evitar essas armadilhas e que lhe aconteçam reveses semelhantes na sua laureada carreira?



JA - Seguir o meu instinto. Eu sei das minhas condições, dos meus desejos, das possibilidades da minha música e da intenção de melhorar sempre, de me aperfeiçoar.




CM - E o que você leva na bagagem dessa incursão à África?



JA - Hoje foi fundamental ouvir do vice-ministro da Cultura de Angola, Sua Ex.ª. o Sr. André Mingas: “Você pode colaborar mais do que o governo brasileiro pela formação de músicos em Angola”. Aqui praticamente não há conservatórios, e parece-me que há um único estúdio de ponta num país tão grande e com um patrimônio cultural tão rico como Angola. E eu estou sinceramente disposto a aceitar o desafio de trazer luthiers brasileiros para ensinar as técnicas de confecção de instrumentos, e também professores para formar em Luanda uma escola livre de música a fim de ensinar, principalmente, a dedilhar o cavaquinho e o violão de sete cordas.




CM - Como seria isso? Por meio de parcerias com os governos, com subsídios oficiais, de empresas, com incentivos fiscais, ou por meio de ONG’s?



JA - Através da minha própria empresa, a JÁ Produções. Reitero a fala do vice-ministro: “Você pode fazer mais até do que o governo brasileiro”. E de fato, posso mesmo investir dinheiro do meu próprio bolso nessa empreitada, sem as burocracias todas dos trâmites oficiais.




CM - Jorge, acho que você, como eu, está apaixonado por Angola.



JA - Você duvida?




CM - O que lhe motiva a prosseguir este trabalho de intercâmbio cultural?



JA - Meu trabalho é valorizado no Brasil, eu ganho muito mais do que o suficiente, onde recebo e vivo muito bem, graças a Deus. Eu moro em dois lugares, no Rio e em Itaipuaçu, em Niterói, num fundo de vale junto a florestas e montanhas onde passeio de quadriciclo, veja só, e isso tudo me dá uma certa tranqüilidade. Então posso me dedicar a causas, como nessa viagem a Angola, cujo fim principal não seja o dinheiro, o ganho pecuniário, porque acredito que já tenho o bastante para viver bem no Brasil.




CM - Sobre a música africana, quais são suas referências?



JA - Confesso que não conheço. Nem Cesária Évora, nem os senegaleses. Vim para sentir o cheiro da terra, ouvir primeiro, despertar a vontade de gravar algo daqui.




CM - Por fim, e voltando ao Brasil: na sua opinião, Jorge Aragão, porque se criou essa imagem de que São Paulo seria o “túmulo do samba”?



JA - De modo algum, isso foi uma besteira sem tamanho, uma afirmação despropositada. Quem disse isso o fez de uma maneira equivocada, sem conhecimento. É um absurdo, que está fora de questionamento. Eu posso afirmar: isso nunca existiu. O começo do meu reconhecimento como autor foi justamente em São Paulo, quando nós saímos oriundos da quadra do Cacique de Ramos. E foi no centro de São Paulo - o começo da minha carreira se deu mais precisamente na “Boca do Lixo”.



Na teia:



Veja como será show de Jorge Aragão em São Paulo



Depoimento concedido a Rodrigo Sanfelice da Cunha, entre os dias 31 de Março e 1º de Abril de 2004, na capital angolana.



FOTOS: divulgação

Conteúdo Relacionado