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Maria Odete da Costa Semedo, uma alma inquieta da Guiné-Bissau

29/08/2006 00:00

Luciano Silva* – da Bagatelas! Especial para Carta Maior*

Em 7 de novembro de 1959, nasceu a poeta Maria Odete da Costa Semedo, em Bissau, capital da então colônia portuguesa, Guiné-Bissau. Nesta época, a vida política e literária desta colônia passava por importantes e intensas mudanças. A principal foi a consolidação dos primeiros poetas guineenses, representados pelas figuras de Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e mílcar Cabral, ligados ao Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde (PAIGC). Engajada na luta pela emancipação, iniciada em 1945, esta geração de poetas e revolucionários seguiu até os anos 70, e caracterizou-se pela poesia de combate, cujo foco é a exaltação do sentimento nacionalista e a denúncia da miséria e do sofrimento decorrente da colonização. O objetivo imediato deste grupo foi o de incitar a luta de libertação e a construção de um país independente. Por conta do caráter exploratório da colonização portuguesa, seria irrelevante ressaltar que só em 1958 surgiu a primeira instituição oficial de ensino médio. Entretanto, esse fato é significativo para que se compreenda a importância da poesia militante desenvolvida nesta época e o porquê do surgimento de uma nova concepção poética na geração seguinte, voltada para as questões existenciais e intimistas.

A poesia intimista
Representante da nova geração, Odete Semedo foi a primeira poeta a publicar, em 1996, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), um livro de poesia, intitulado Entre o Ser e o Amar. Nesta obra, encontram-se dois grandes temas, comuns a esta geração: o primeiro, expresso de forma muitas vezes indireta, trata das desilusões vinculadas à pós-independência e de todas as agruras que envolveram o país em formação (o que resultou na guerra civil de 1998/1999); o segundo, diretamente, manifesta-se na busca de uma identidade, de um eu que se vê dissolvido em mundo de contradições. Os versos de Odete revelam não só a tensão que permeia o período de mudanças, mas, também, a inquietude própria do individuo diante da existência. Neste sentido, o tema barroco par excellence, embora desprovido do formalismo rebuscado do Quinhentismo português, é a manifestação latente do seu fazer literário. Em cada verso, evidencia-se o clamor de uma alma cindida entre as necessidades práticas do mundo material e o universo lírico de sua poesia: é a mulher do dia-a-dia debatendo-se com o dia-a-dia das reflexões metafísicas.

As dobras da língua
Outro aspecto da poesia de Odete, comum a todos os que passaram pelos grilhões da colonização, é o questionamento e a reflexão acerca da língua e das suas diversificações: “Na Guiné-Bissau, diz ela, (...) para além das línguas usadas por cada um dos grupos étnicos, existe uma língua franca falada por cerca de 70% da população de todo o país, o crioulo de base portuguesa, e uma língua oficial utilizada na administração e no ensino, o português, dominado por cerca de 12 por cento da população guineense” (in A língua e os nomes na Guiné-Bissau, 2003).

Segundo Albert Memmi, no livro Retrato do Colonizado, com o prólogo de Jean-Paul Sartre, de 1966, que trata da colonização francesa na Argélia, a imposição da língua do colonizador provoca, intelectualmente, uma secção na personalidade individual e coletiva e que dificilmente pode ser superada, pois o conflito manifesta-se em todas as áreas da vida social do colonizado. Assim, terá ele que lidar com “uma língua doméstica, a materna, para as relações amorosas, a família e a amizade, e outra língua, a do dominador, para os usos administrativos (...)”.

Em que língua escrever, então?
Odete Semedo evidencia este conflito ao apresentar os poemas que compõem Entre o Ser e o Amar em duas versões: o português e o crioulo. Se por um lado a poeta está inserida na cultura portuguesa, por outro a sua memória está profundamente fincada no solo da tradição, da sua terra, da sua cultura. Entretanto, no texto Língua Esvoaçante, a multiplicidade lingüística deixa de ser o foco principal da questão e a língua, enquanto tal, é concebida sob os seus diversos aspectos. Se isso não resolve a questão, e essa irresolução é muito mais significativa para a poesia, ao menos traz à tona o caráter simbólico e transitório da língua, sem que a sua função primeira, isto é, a transmissão de vivências, seja alienada. Pois, se a “língua nasceu solta e desenvolta”, se “Nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silêncio, próprio da caverna onde livremente se encontra enclausurada”, se “A língua serve-se dos olhos, de tudo ao seu alcance e fora dele para, sem papas, testemunhar a nossa relação com a vida”, então “a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado”, pois “o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha”.

Sim. A língua é sempre testemunha dos percalços e desventuras, da união e da segregação, dos mais íntimos confins do poeta e do seu entorno, dos silêncios que em muitos casos dizem muito e da verborragia desenfreada que, se não diz tanto, ao menos alivia a alma. A língua, essa inquieta forma de manifestação do Ser, é a representante maior da fissura existencial. Assim, a questão sobre em que língua escrever é facilmente superada, pois, seja em português ou em crioulo, o testemunho estará guardado, “as declarações de amor” atingirão os corações, “As histórias que ouvi contar” serão recontadas, e os feitos “das mulheres e dos homens do meu chão” estarão registrados e disponíveis às lembranças das gerações futuras.

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Maria Odete da Costa Semedo licenciou-se em línguas e em literaturas modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade nova de Lisboa. Professora da língua portuguesa, foi Diretora da Escola Normal Superior “Tchico Té”. Coordenou, entre outras atividades, o Projeto “Expansão e Melhoria Qualificativa do Ensino da Língua Portuguesa” apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Foi Ministra da Educação Nacional e Presidente da Comissão Nacional da UNESCO-Bissau. É atualmente Ministra de Saúde Pública e Consultora do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) para as áreas da Educação e Formação. 1971/1972: publicou na revista Zeitschrift fûr literatun, kuns and kultur politik losophones Afrika e Giraz. 1996: publicou o livro de poesia Entre o ser e o amor, além de diversos trabalhos em várias antologias literárias, jornais e revistas especializadas (no exterior e na Guiné-Bissau): Antologie de Literatures Francophones de L`Afrique de L`Ouest, Paris pela Editions Nathan e na revista austríaca Sterz. Participou da fundação das revistas Tcholona Artes e Cultura onde publicou ensaios de intervenção cívica. 2000: publicou dois volumes de histórias oriundas de pesquisa oral respectivamente, Soneá e Djênia. O primeiro foi editado em Bissau, pela Editora Escolar, e marca a sua estréia na ficção. 2003: recebeu o prêmio, na categoria escritor, de personalidade que contribuiu para o desenvolvimento global da Guiné-Bissau. Publicou os artigos “A língua e os nomes na Guiné-Bissau” e “Língua Esvoaçante”.

(*) Luciano Silva é Bacharel em Filosofia (UFRJ), Mestre (PUC/Rio), escritor co-fundador da Bagatelas! (www.bagatelas.net) e professor de Literatura Brasileira.

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