Mídia

Nada se cria, tudo se copia?

23/11/2002 00:00

Existe na Internet um site (Plagiarism.org) destinado a lidar especificamente com um problema que está em ascensão nos nossos dias. De fato, dizem os responsáveis pelo site, cerca de 30% das pesquisas encomendadas a estudantes são atendidas mediante a simples providência de baixar da Internet um texto. Cuja origem é praticamente impossível de descobrir, neste imenso universo da comunicação. E a prática se tornou comum: um amigo contou-me que o filho pediu-lhe uma enciclopédia, assim, seus trabalhos teriam uma fonte diferente daquela de seus colegas. O que não chega a ser originalidade, mas é, pelo menos, uma tentativa.



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Nada se cria, tudo se copia, diz um aforisma muito comum no meio acadêmico, onde as acusações de plágio fazem parte do cotidiano. Será que é verdade? A julgar pelos trabalhos universitários, onde a lista de citações é imensa, pareceria que sim. Mas na verdade é assim que progride o conhecimento: somos anões nos ombros de gigantes, disse o grande Newton (a frase já foi atribuída a outros). Ou seja, precisamos nos basear naquilo que outros descobriram e transmitiram. Mas basear-se nos outros não quer dizer copiar os outros. Quer dizer ler o que outros escreveram, pensar a respeito, e dar a nossa própia interpretação, a nossa própria visão do assunto. Afinal de contas, não somos impressoras ou copiadoras. Somos gente e temos cérebro. E se não usamos o nosso cérebro ele se atrofia.



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E na ficção? Quando há cópia e quando não há? Na semana passada, andei envolvido com um assunto assim: um autor canadense usou a idéia de meu livro Max e os Felinos para escrever a sua obra.


Não foi o primeiro. Há uns anos vivi um episódio semelhante. Um estudante de Direito venceu o concurso de contos promovido pela Universidade Federal do Piauí com uma história supostamente escrita por ele. Acontece que um professor daquela universidade conhecia o meu trabalho e não teve a menor dificuldade de identificar a origem: tratava-se do conto A Vaca, que apareceu no livro O Carnaval dos Animais. Como em Max e os Felinos, há um naufrágio. Um marinheiro e uma vaca salvam-se e daí nasce a narrativa. Já sei o que vocês vão dizer: esse cara é obcecado por histórias de naufrágios estranhos. Pode ser. O fato é que o nosso estudante copiou tudo direitinho. Só trocou o lugar do naufrágio: em A Vaca tal ocorre ao largo da costa da África. Ele mudou para o Maranhão, talvez homenageando a família Sarney.



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A coisa complicou, porque o prêmio, em dinheiro, resultava de verba federal, da qual o jovem tinha se apossado indevidamente. Um processo foi aberto e ele me ligou, desesperado, pedindo que eu o ajudasse: eu teria de dizer que não havia escrito o conto. Um pedido que talvez o categorizasse como ficcionista mas ao qual, por razões óbvias, eu não podia atender.


Em termos de idéias é bom ser original. Se não podemos ser originais, devemos pelo menos citar a fonte. De maneira geral, copiar não é uma boa. É uma concessão à nossa preguiça, mas não é uma homenagem à nossa inteligência.




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