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O que a arte ensina?

08/09/2005 00:00

em treden.com

Créditos da foto: em treden.com
"Técnico, 100% prático, voltado exclusivamente para o mercado, diploma em 2 anos". Esses, com pouquíssima variação, têm sido os apelos de venda dos cursos universitários nos últimos 10 anos. Esse é o resultado da chamada “explosão das Unis” (abertura de centenas de universidades particulares, muitas das quais de qualidade duvidosa). Esses apelos de venda, que têm funcionado com tanto vigor junto ao mercado revelam de forma cristalina um determinado perfil de entendimento da educação.

A conversão do Ensino Superior em técnico, rápido, 100% prático, voltado exclusivamente para o mercado não caminha sozinha. O ensino de nível médio que, em muitos casos, focava exclusivamente os exames vestibulares, começa a sofrer também a pressão de tornar-se útil ao mercado. As cisões sociais brasileiras reproduzem-se assim no Ensino Médio. Escolas particulares vendem o “ingresso” na Universidade Pública enquanto a escola pública só pode ofertar o ingresso na Universidade Particular, as “Unis” - técnicas, rápidas, 100% práticas, voltadas exclusivamente para o mercado – muitas delas, de qualidade duvidosa.

Não raro, encontramos quem defenda, muitas vezes movidos por verdadeiro espírito cívico e certeza de estarem contribuindo, que a escola pública dirija o ensino médio para o ingresso dos adolescentes no mercado de trabalho. Essa pressão existe e ressoa harmoniosamente nos ouvidos de boa parte dos políticos e dos gestores públicos brasileiros. É inevitável que essa pressão e essa contaminação atinjam também o Ensino Fundamental a até a Educação Infantil.

A questão é complexa e há bons argumentos, bons argumentadores e boas intenções em quaisquer dos lados que se tome. O ensino meramente profissionalizante ultrapassa os limites da escola, chega às ONG’s, aos Institutos e Fundações, aos órgãos da Assistência Social e até ao Sistema de abrigo/reclusão de adultos, adolescentes e crianças.

Mas, o papel da educação, em todos os níveis, é o mero treino para o mercado?

A resposta a essa questão não é simples, pressupõe estudo multidisciplinar e terá que ser construída politicamente pelos diversos segmentos sociais, não pode ser apenas objeto da vontade canhestra e irresponsável de ministros e secretários da educação ou do populismo barato de qualquer ocupante dos poderes executivos. Aqui, a nós, interessa-nos discutir o papel do ensino de Arte nesse jogo de tensões sociais e interesses políticos.

Inicialmente podemos afirmar que o ensino de Arte crítico e consciente não pode ser 'técnico, rápido, 100% prático, voltado exclusivamente para o mercado', pois, como se apresenta, não é "útil ao mercado". Então, para que serve? O que a Arte ensina?

Uma primeira resposta já vem formulada na própria pergunta. Não é importante que exista algo que não seja "técnico? Rápido? Prático? Voltado exclusivamente para o mercado?" Algo que podemos dizer até, “inútil”? Será que o universo humano está circunscrito no universo técnico e veloz da compra e venda de mercadorias úteis? Não há nada além? Será que educar, no sentido maior de formar cidadãos críticos e conscientes, resume-se a sintonizá-los no discurso único do tecnicismo prático da veloz mercancia utilitária?

Ou ainda, será que insinuar a possibilidade de questionar o útil, o prático, o rápido e o venal é ser “romântico”, “hippie”, “bicho grilo”, “porra louca”, “carola”, “rebelde sem causa” ou “de esquerda frustrado”?

Na ONG, na Escola, na Fundação, no Instituto ou no abrigo/reclusão, ensinar Arte tem por compromisso inicial revelar e permitir ao educando relacionar-se com valores outros além daqueles que imediatamente possam ser trocados por moedas, além dos que sejam medidos em dígitos bancários, permitir ao educando perceber o mundo além do que se pode vender, além dos que se pode comprar ou roubar.

A equação é simples. Se permitirmos que o valor único seja o do mercado, que o consumo de bens seja a medida humana e que o comprar e vender esteja acima de qualquer outro valor, não teremos como evitar a conclusão, já presente em nosso meio social, de que: “vale a pena matar e roubar para possuir bens”, “é lícito abrir a balas o caminho para o consumo”, “a corrupção vale a pena”, posto que o objetivo-fim posse/consumo é o único valor socialmente reconhecido.

Não queremos com isso dizer que o ensino de Arte tenha a função de colocar “panos quentes”, de “dourar a pílula”, de “evitar derramamento de sangue” ou de “acalmar os insatisfeitos”, não. Estamos apenas dizendo que o ensino de Arte pode e deve estar presente na reconstrução e reforço de outros valores, valores presentes no ato da criação desinteressada, da apreciação prazerosa, do conhecimento que amplia os horizontes e visão do mundo.

Fazer, não para vender. Realizar, não para possuir. Dedicar-se, não por um pagamento. Construir, não pela utilidade. Esforçar-se, não para vencer. Saber, não para competir. Unir-se a outros não pelo retorno individual, mas pela construção de algo maior que os indivíduos e de posse coletiva. Esses são alguns valores presentes no fazer da arte e que podem e devem estar presentes no ensino de Arte. Ensinar arte não pode desvincular-se de fazer arte.

Fazer arte, fruir arte, contextualizar arte. Trinômio elaborado por Ana Mae Barbosa e tão conhecido - ao mesmo tempo tantas vezes ausente dos planejamentos e práticas do ensino de Arte nas escolas, ONG’s, Institutos e Fundações. Perdemos o contato com o potencial transformador da arte e com o trinômio descrito por Ana Mae quando, ao invés de criar, levamos os alunos a reproduzir; quando, ao invés de apresentar arte, oferecemos os clichês banais da indústria do entretenimento; quando, ao invés de observações, análises e interpretações, oferecemos aos educandos um amontoado de dados e leituras prontas.

Criar arte conseqüente. Se esse for o centro das preocupações do professor de Arte, muitos dos equívocos cometidos serão evitados e a aproximação com o fazer-fruir-contextualizar estará garantida.

Mesmo quando o professor trabalha com a mera reprodução: do balé clássico ao colorir desenhos mimeografados. Mesmo quando o próprio professor só conhece e consome os clichês da indústria do entretenimento: das dancinhas da moda às novelas e desenhos animados da TV. Mesmo quando o professor ignora a história da arte e limita-se a decorar nomes, datas, escolas e estilos como conhecimento da obra de arte. Ainda assim, não raro, encontramos educandos transformados, envolvidos, participativos.

Não seria interessante, então, pensarmos nas possibilidades de trabalhos realmente conseqüentes, articulados, críticos e problematizadores dentro e fora das escolas? Não estaria aí um possível caminho para a percepção de outros valores, além dos de compra e venda, posse, enriquecimento e consumo? Valores além dos que políticos corruptos, publicitários irresponsáveis e criminosos assumidos comungam e veiculam?

Quando o professor de arte está comprometido com o conhecimento das linguagens artísticas abre aos seus alunos possibilidades de vivenciar as relações humanas de outra forma: sem a violenta e eterna competição, sem vencedores ou perdedores, sem utilitarismos primários, sem obviedades superficiais na observação, apreensão e expressão do contexto em que se vive.

O professor comprometido com a linguagem da arte e com seus alunos permite-se e conduz os que estão sob sua responsabilidade a conhecer, via obras de arte, como vivem e convivem outros povos, gêneros, etnias, religiões etc., aprende mais sobre a tolerância, o respeito e o diálogo com o diferente nas diversas leituras de mundo que os trabalhos de arte trazem, e nas suas contextualizações histórico-sociais.

Se há um planejamento e professores engajados no conhecimento das linguagens artísticas, os educandos terão acesso a outras possibilidades de perceber e atuar no mundo e, conseqüentemente, poderão participar da construção social de formas diferentes. Se a dança foi apresentada como linguagem e construção de arte, o corpo e o movimento serão vividos de outras formas pelos alunos; se a música foi apresentada como linguagem e construção de arte, os sons e as músicas ofertadas no meio social serão consumidos de outras formas; se as artes visuais foram apresentadas como linguagem e construção de arte, a profusão de imagens que nos rodeiam serão assimiladas de outras formas; se o teatro foi apresentado como linguagem e construção de arte, as personagens e a cena cotidiana serão vivenciadas de outras formas; se a poesia foi apresentada como linguagem e construção de arte as palavras terão novos valores.

O conhecimento das diferentes linguagens artísticas permite ampliar o universo da comunicação humana, das relações interpessoais, das relações entre o indivíduo e o coletivo, seja no âmbito da amizade, no espectro familiar, no ambiente educacional ou do trabalho. O conhecimento da arte que foge ao consumo imediato e descartável da indústria do entretenimento permite criar redes de relações entre as pessoas que não perpassem, necessariamente, pelo universo da compra e da venda.

O conhecimento na área de arte, assim, tem o potencial não somente de ampliar e diversificar relações e relacionamentos, mas, sobretudo, de aprofundar e eventualmente transformar a visão monocórdica do consumo descabido, da ganância sem ética, de fins que justificam meios vexatórios, escandalosos e desrespeitosos.

O ensino de Arte não pode garantir a ética, o respeito, a dignidade, a convivência pacífica, os relacionamentos enriquecedores, a preocupação com o coletivo, a participação social, a consciência crítica e o compromisso social. O ensino de Arte pode sim propor, abrir outras janelas e portas, discutir, problematizar e fazer viver relações sócio-político-culturais e esperar que cada indivíduo comprometa-se responsavelmente com a construção de um mundo justo, digno e habitável.


(*) Isabel Marques e Fábio Brazil, professores e artistas, dirigem o CALEIDOS ARTE E ENSINO em São Paulo, capital, ministrando cursos e prestando assessoria a secretarias de educação, escolas públicas e privadas nas áreas de dança e poesia.


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