Mídia

O teatro do horror

30/07/2007 00:00

ilustração do autor

Créditos da foto: ilustração do autor
Se você tivesse um ente querido entre os mortos do avião da TAM, mediria conseqüências na hora de soltar os gritos de desespero? Se chegasse a câmera para registrar o seu choro convulsivo, e mostrasse a toda a nação o momento de maior fraqueza e desolação da sua vida...

O show da Grande Mídia alcançou números estratosféricos nos últimos dias, turbinado pelas lágrimas dos parentes dos mortos. A agonia em carne viva foi mostrada por ser um apelo necessário, ou tão somente porque esse tipo de imagem prende a atenção do espectador e rende uma fortuna no mercado midiático?!

Bonner nunca esteve tão bem vestido, nunca tão poderoso como durante o furo de reportagem Global apresentado por ele sobre as trapalhadas dos técnicos da TAM. Foi um momento de glória para a emissora. Apesar da evidente falha técnica, os informativos seguintes não se cansaram de mostrar as manifestações que associam o desastre às questões crônicas do transporte aéreo e, por conseguinte, ao governo Lula. Instigados pelos meios de comunicação, aqueles acostumados a perder horas nos aeroportos aproveitaram para juntar tudo num mesmo pacote de protesto.

QUESTÃO DE JUSTIÇA
A aviação comercial brasileira ganhará investimentos vultosos nos próximos anos. Não por ser esta uma questão de justiça, mas porque os reclamantes são poderosos. Se fosse pela justiça, o governo deixaria de se preocupar com aqueles que dormem nos corredores dos aeroportos por algumas noites, aquele povo bem servido que tem sofrido nas filas de chek-in, e trataria de multiplicar seus programas aos famintos da nação. Procuraria diminuir a dor daqueles que doem toda vida. Buscaria aquecer o frio daqueles que tremem em todo inverno. Daria abrigo àqueles que dormem mal toda noite.

É provável que muitos discordem, ou que me odeiem por dizer isso. Provavelmente já passaram horas no saguão de Congonhas, tendo somente as mochilas como travesseiros. Mas será que já experimentaram as carências extremas?

Tenho muitos amigos, companheiros de velhas batalhas que, depois de alcançarem uma certa posição econômica e social, botaram um tapume entre si e a favela. Viajam todas as férias para as praias do Nordeste, adquiriram dois ou três carros novos nos últimos cinco anos, construíram mais alguns quartos no velho sobrado e passam a vida malhando o nosso “iletrado” presidente, que estaria governando para os miseráveis e os banqueiros.

Milhares de calhambeques e carroças trafegam em estradas brasileiras que nunca foram asfaltadas e ninguém parece preocupado com isso. Caminhoneiros atravessam o país em viagens que duram dias, tocados à base de café e rebite, morrendo em desastres horríveis, e disso pouco se fala. A TV prefere mostrar aquelas justas manifestações nos aeroportos pedindo providências urgentes. Uma ou duas horas de atraso nos vôos e as senhoras de casaco de pele ficam histéricas. Os filhinhos de papai que nunca ergueram uma palha do chão querem bater nos aeroviários. A dentista que nunca lavou as próprias meias está possessa porque perdeu a abertura do congresso em Salvador. O estudante de medicina que comprou vaga no vestibular está catatônico porque não poderá chegar à tempo à festa de aniversário do namorado.

Perdoe-me, leitor, o povo merece, sim, voar com dignidade para visitar os parentes na Europa e fazer compras em Miami. Sim, ninguém deveria enfrentar aquelas filas horríveis. Mas, por favor, não me diga que essa é uma questão de justiça. O que temos aqui é uma questão de poder. O apagão aéreo, como repetem diuturnamente os papagaios tucanos, tornou-se notícia permanente porque mexeu com gente graúda. Por esse motivo, e só por isso, em breve o problema será resolvido.

(Obviamente, nem todos os que voam são graúdos, mas parece que todos os graúdos voam. Inclusive eu, que sonho ser graúdo para nunca mais olhar a miséria que ronda minha casa. Não quero nunca mais ver essas mães tentando cobrir os filhos com trapos, nem quero ver seus filhos juntando comida no latão de lixo. Que gente desclassificada! Ui! Parecem animais!).

Temos um ano de conflito aeroviário, e temos quinhentos anos de exploração escrava, mas qual é o assunto em pauta? Quando a grande mídia publicará em seus editoriais o fato de que a remuneração pelo trabalho do carregador portuário que anda de bicicleta deve ser, por justiça, igual ao do empreiteiro que anda de avião? Quando faremos as contas para constatar que a empregada doméstica realiza um trabalho mil vezes mais difícil que a senhora dona da loja de bijuterias do shopping e que, por isso, deve receber, quando menos, o mesmo salário?

Não se fala mais nisso, pois o capitalismo venceu, e quem tem coragem de defender Marx ou o socialismo? Talvez Oscar Niemeyer!? A revista Veja não se cansa de dizer que os marxistas não conseguiram provar as teorias do mestre, o que comprova que o ser humano é mesmo uma besta, um capitalista nato. Quem pode mais chora menos, é essa a humanidade que estamos construindo, é com essa coisa horrível que temos de nos conformar!


Conteúdo Relacionado