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Os papéis do inglês, de Ruy Duarte de Carvalho

06/06/2007 00:00

Rita Chaves

Editado em 2000 pela Editora Cotovia, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, o livro Os papéis do inglês, de Ruy Duarte de Carvalho, um escritor angolano que, felizmente, vem consolidando seus laços com o Brasil.

Em 2000, teve publicado, pela Griphus, o belíssimo Vou lá visitar pastores (leia resenha aui) e, nos anos de 2005 e 2006, escreveu em terras brasileiras uma parte considerável de seu Desmedida - Luanda - São Paulo - São Francisco e volta - crônicas do Brasil (leia resenha aqui), que, como indica o título, tem o nosso país como um dos objetos de sua atenção. Pelas páginas em que registra um grande conhecimento de nossa História e de nossa Literatura, o autor constrói um instigante diálogo com a complexa realidade brasileira sem deixar de considerar olhares de outros estrangeiros que por aqui passaram e intervieram na formação de nossas identidades.

A publicação de Os papéis do inglês abre ao leitor brasileiro a possibilidade de entrar em contato com a primeira narrativa longa em que o autor investe efetivamente no domínio da ficção. Antes, além de uma
vasta produção poética, vieram uma coletânea de contos intitulada Como se o mundo não tivesse leste e o já citado Vou lá visitar pastores, fortemente marcado pela dimensão ensaística.

Ao reconhecemos o caráter dominantemente literário dessa narrativa, todavia não podemos, ao mesmo tempo, deixar de observar que, em se tratando da obra de Ruy Duarte de Carvalho, essas diferenciações são relativas, pois uma das características de sua escrita é precisamente a capacidade de colocar a indistinção dos gêneros à disposição de um projeto que se ancora no rigor, na pesquisa e na invenção. O resultado, o leitor pode comprovar, exprime-se na sofisticação de uma obra densa e diversificada. Em Os papéis do inglês, por exemplo, encontraremos uma escrita marcada pela incorporação de várias linguagens, em que se misturam os materiais provenientes da Literatura, da Antropologia, da História - modos de conhecer as coisas que o autor junta, em princípio, para recontar a história que leu num fascinante livro de crônicas intitulado Em terra de pretos, da autoria de Henrique Galvão, figura notável da história portuguesa do século XX.

O ponto de partida seria a crônica O branco que odiava as brancas, um dos textos assinados por Galvão, datado de fevereiro de 1928. O branco é Archibald Perkings, um ex-professor de antropologia que, por razões pessoais, vai para a África, e dedica-se à caça. Depois de matar um outro caçador, grego de origem, com quem dividia o acampamento na fronteira de Angola com a Zâmbia, percorre uma enorme distância para entregar-se às autoridades portuguesas, que lhe mandam regressar ao local onde vivia. Meses mais tarde, após alguns acontecimentos envolvendo presumíveis herdeiros do Grego, Perkings volta ao posto solicitando os procedimentos que o seu crime deveria ter gerado. Diante da inoperância, ele regressa. Na síntese de Ruy Duarte:

"É então que, de novo no acampamento, à chegada, o Inglês se mune de uma lata de petróleo, abre a porta do curral dos animais e abate a tiro, um a um, tudo quanto é boi, carneiro ou galinha, depois os cães, rega com petróleo a sua tenda, deita-lhe fogo e, finalmente, vira para si a arma, encosta-lhe o peito e dispara".

Segundo o nosso autor, há mais de uma versão para esses casos.
Interessadíssimo na história há tantos anos, ele também produzirá a sua
versão, assinalando a serena consciência de que será mais uma:

"Da mesma forma que eu, a deter-me agora nesta estória, haveria de introduzir muita perturbação e muita invenção minha na versão das coisas. É isso que vai acontecer?... Depende ... Tenho que ver primeiro o que estará a passar-se aqui".

A partir dessa crônica, Ruy Duarte realiza uma viagem pelo sul de Angola e
pelas décadas que vão do tempo de Galvão à contemporaneidade, referindo fatos do período que ali viveu ele próprio, quando a sua família deslocou-se de Portugal. Foi lá que iniciou o seu percurso por Angola, é para lá que sempre retorna, inclusive para observar Luanda, a capital do país que concentra população, riqueza econômica e poder político e de onde emanam os mandos e desmandos que são objeto de sua atenção. Sem dúvida, sendo sua preocupação o país como um todo, seu porto de referências é o sul, como se pode observar no trabalho poético, na filmografia e na obra em prosa. Nos Papéis, ele assinala:

"Durante a vida inteira fui arranjando maneira de continuar a vir a
Moçâmedes, e cheguei mesmo a fazer curtas travessias do deserto (...) E
quando, depois de me ter metido nisto das antropologias decidi, já com a
tese feita, insistir em arranjar maneira de apontar decididamente para aqui, garanto que foi também a pensar nisso que esperei anos até conseguir vir fazer estes terrenos".

Assim, não é apenas à crônica de Galvão que ele regressa. Volta ao Sul, que é uma de suas obsessões; mas ao voltar a Galvão, ele retorna a Conrad e a todo um repertório literário marcado pelo espanto diante das terras e gentes africanas. E, no exercício de narrar que atualiza, repassando leituras que o marcaram, reflete sobre alguns problemas inerentes à Literatura, incluindo as razões e os sentidos da escrita:

O que há de ser preciso para escrever, em primeiro lugar, se não achar que vale a pena porque tem destinatário? E para contar uma estória, que outra única e suficiente razão poderá haver senão vontade de a contar, de contar coisas?

Aludidas algumas razões da escrita, o autor recupera um procedimento usado em Vou lá visitar pastores, isto é, a definição de um destinatário. Lá era o Felipe, o amigo jornalista a quem se destinavam as cassetes gravadas. Aqui, esse alguém fará de conta (...) que são e-mails. Nos dois casos, a idéia da interlocução que integra o mundo da tradição oral é atravessada por signos da modernidade, numa representação da mescla cultural que a literatura angolana também reflete.

A presença da destinatária, a quem, aliás, é dedicado o livro, é uma
importante peça na narrativa, modulando a dicção discursiva, que se atualiza na forma de um diálogo explicitado em muitas passagens. São muitas as alusões a essa presença que se insinua e a que o autor volta, como volta a outros tempos, como regressa a outros espaços, como retorna a alguns textos, como circula à procura de um sentido para as viagens que já fez e para aquela que se renova na busca dos papéis de outro antropólogo.

Talvez assim se possa explicar o ritmo nada convencional da prosa,
freqüentemente invadida pelo narrador que coloca em pauta o próprio ato de narrar, trazendo para a discussão que trava consigo mesmo, e para a qual arrasta o leitor, referenciais de sua formação como Doris Lessing, E.
Forster, Céline, Hemingway, o sempre presente Conrad, além de autores
associados à produção colonial portuguesa como Luiz Simões e o próprio
Henrique Galvão. Empenhado na produção ficcional, o autor não renuncia ao seu patrimônio de antropólogo, conjugando esses saberes com as linhas da linguagem tributária do cinema.

Articulada à ligação com o cinema, percebemos a vocação do espaço que é uma vez mais explorada pelo autor. O movimento da errância, já presente na caracterização do Inglês, constitui outros personagens, vivendo em tempos diversos por aquelas paisagens. Ao girar em torno da procura dos papéis que poderiam esclarecer fatos que marcam o itinerário de Archibald Perking, a narrativa desenrola-se sob o signo da circularidade. A mobilidade - traço identitário das populações que habitam aquelas terras - inscreve-se como uma marca do processo narrativo.

Toda a aventura de narrar - as suas travessias pelas estepes e savanas, as suas travessias por tantos textos, as travessias da invenção que, ao fim e ao cabo, organiza tudo o mais - passa-se num curto período, entre 23 de
dezembro de 99 e 01 de janeiro de 2000. Durante esses poucos dias, o tempo será investido na reflexão sobre muitas coisas e a história do inglês e seus papéis funcionará como uma espécie de eixo a que o narrador agarra-se enquanto procura desvendar outros enigmas que a realidade que o cerca engendra, fundindo e confundindo percursos: o do inglês misturado ao de seu pai, que se mistura ao seu, que se mistura ao do seu país. Em meio a tudo, a literatura, mesclando-se à antropologia, a perseguir respostas, a inventar um lugar para si própria num universo em permanente crise.

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(*)Rita Chaves é professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo. É pesquisadora associada do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, na Universidade Cândido Mendes (RJ). Entre outros títulos, publicou A Formação do Romance Angolano (2000); Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários ( 2005) e Marcas da diferença – Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (2006).

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