Mídia

Patti Smith: De Rimbaud à madrinha do punk

01/10/2011 00:00

Luis Hernández Navarro - Correspondente da Carta Maior na Cidade do México



Uma foto, testemunho de uma aliança. Uma imagem que é um manifesto. Uma diagramação que oferece um lugar no torvelinho da vida cotidiana. Na capa do disco Horses, de Patti Smith, o fotógrafo Robert Mapplethorpe recriou a poeta-cantora como um moderno Arthur Rimbaud em Nova York, como o artista que pode adotar qualquer posição, qualquer voz, como a personificação do mito da fecundidade da arte na rua.

Na capa de Horses – seu primeiro disco – está Patti Smith com uma camisa branca que adquiriu no Exército da Salvação de Bowery, bem passada e sem manchas, com as letras RV bordadas e com as mangas cortadas. Veste também uma calça preta, suspensórios e uma jaqueta no ombro. Com o cabelo cortado à Keith Richards, de pé, sua figura esbelta sobre o fundo branco de um ático da Quinta Avenida de Nova York reluz andrógina, desafiadora, recém-desembarcada dos infernos da cidade dos arranha-céus, dona de si mesma.

A foto fala tanto dela quanto das canções que integram o álbum. Na primeira faixa, a poeta, nascida no seio de uma família pertencente às Testemunhas de Jeová, mistura a versão de Glória, o clássico de Van Morrison, com seu poema Juramento/Blasfemia (Oath) e proclama: Jesus morreu pelos pecados de alguém/mas não pelos meus/revolta em uma onda de ladrões/um coringa na manga/espesso coração de pedra/meus pecados são meus. Diz isso, mais do que como uma manifestação de dissidência religiosa, como a aceitação de sua responsabilidade plena em todos e cada um de seus atos.

Fusão de poesia com música, com frequência improvisada, homenagem a seu panteão de músicos admirados, Horses quis agradecer e lembrar personagens como Jimi Hendrix e Jim Morrison, mas, também, convocar os pobres mortais a tomar o rock em suas mãos e modificar o rumo presunçoso e cheio de falsos artistas no qual acabou se enfiando. “Em meados dos anos 70 – diz a artista – as coisas estavam se tornando um pouco materialistas e as pessoas estavam perdendo seus direitos. Para mim, a parte essencial do rock’n’roll era a revolução”.

Nascida no seio de uma família pobre, a quarta canção do disco, Free Money, foi inspirada em sua infância. “É uma canção para minha mãe – contou a Simon Rehynolds. Sempre sonhava em ganhar a loteria. Mas jamais comprou um único bilhete. Simplesmente imaginava que ganhava e fazia listas de coisas que faria com o dinheiro: uma casa junto ao mar para nós, e depois um monte de coisas generosas”.

A foto voltou a ser difundida massivamente agora que Patti Smith recebeu, junto com o quarteto Kronos, o Prêmio Polar 2011. Concedido anualmente pela Real Academia Sueca de Música a indivíduos, grupos ou instituições em reconhecimento a suas conquistas excepcionais na criação e avanço da música, é considerado um equivalente do Prêmio Nobel.

O reconhecimento é por ela ter dedicado sua vida à arte em todas suas formas. Segundo a Academia Sueca, a cantora-poeta demonstrou quanto rock’n’roll há na poesia, assim como quanta poesia há no rock’n’roll. Patti Smith é um Rimbaud com amplificadores Marshall. Ela transformou a forma pela qual toda uma geração se vê, pensa e sonha. Com sua alma de artista inimitável, Patti Smith demonstra mais uma vez que o povo tem o poder.

Com 16 livros publicados, o reconhecimento da Academia Sueca coroa uma longa lista de honrarias concedidas nos anos recentes. Entre muitas outras distinções, em 2003 recebeu o Prêmio de Poesai de Turim, em 2005, o Ministério de Cultura da França concedeu-lhe o grau de Commandeur des Arts et des Lettrres, e o Instituto Pratt de Artes outorgou-lhe um doutorado honoris causa.

Esses reconhecimentos institucionais estão precedidos de uma popularidade inusitada para uma artista tão pouco convencional como ela. Ainda que seja uma criadora indefinível, que recusa ser rotulada e faça fotografia, desenhos, instalações, poemas e canções, a chave de seu sucesso entre os jovens é sua produção musical. Nascida em 1946 em Chicago e criada em Mantua, Nova Jersey, e forjada como artista em Nova York, lançou seu primeiro disco em 1975, aos 29 anos de idade. Já gravou 11 álbuns e vendeu mais de 47 milhões de cópias. Canções como Because the night, escrita a quatro mãos com Bruce Springsteen, alcançou em 1978 o 13° lugar entre as músicas mais escutadas nos Estados Unidos.

A sua maneira, a arte é para ela sua religião ou, pelo menos, sua missão. “Para mim – disse – meter-me no rock’n’roll não era uma questão se ser rica ou famosa. Essas coisas podem dar alegria, mas nunca são suficientes. O que sempre estou buscando é a iluminação”.

Escrever a história do caminho em direção à essa iluminação, que é também a história de amor, amizade e cumplicidade com Robert Mapplethorpe, lhe valeu o National Book Award da categoria de não ficção de 2010. O prêmio é justo. “Just kids” (Èramos só garotos) é um livro belo, inteligente, apaixonado e muito bem escrito. Autobiografia de uma mulher que constrói sua identidade com base no trabalho e na intuição, retrato de Nova York e do mundo cultural de meados dos anos 70, confissão amorosa descarnada de uma relação complexa, tratado sobre a devoção genuína que professa aos artistas nos quais acredita e a seus amigos, a obra é um dos melhores e mais lúcidos trabalhos sobre o mundo do rock’n’roll que já foram escritos.

No livro, Patti Smith narra a construção de seu próprio mito. Estudante normalista fracassada, mãe solteira grávida por acidente que dá seu filho para adoção aos 20 anos, operária em uma montadora de automóveis, vagabunda em Nova York, vendedora de livros, escritora de resenhas em revistas musicais, atriz em obras de teatro experimental, pintora, poeta, música, pacifista, ambientalista, a obra da cantora foi sendo construída à base de seu próprio esforço, tenacidade e criatividade.

De maneira crua, Patti Smith conta suas paixões amorosas, suas infidelidades e suas lealdades. Apaixonada a primeira vista por Mapplethorpe, o futuro artista a salva de maus momentos, compartilha com ela bons e maus momentos e se encarrega de pagar o estúdio que compartilham. Juntos constroem um casal fora de todos os estereótipos e estabelecem um pacto de cumplicidade que dura toda a vida. Patti termina aceitando a homossexualidade de seu parceiro (da qual, em algum momento, chega a se sentir culpada), mas acaba ficando quase impossível para ela digerir as amizades ricas que ele fez ao se tornar famoso. Ele é, porém, seu companheiro de caminhada: “De Robert – escreve – aprendi que, muitas vezes, a contradição é o caminho mais desimpedido para a verdade”.

Se, para Rimbaud, o poeta devia tornar-se vidente por meio de um longo, imenso e racional desconcerto de todos os sentidos, Patti Smith torna-se vidente convertendo sua vida na matéria prima para criar sua arte. Na canção Piss Factory (Fábrica de mijo), recria sua experiência na linha de montagem de uma fábrica, recorda o salário de 36 dólares por 40 horas de trabalho semanais, o inferno que viveu na linha de montagem e sua fantasia de fugir para a grande metrópole. Vou ser alguém/Vou subir nesse trem, vou para a cidade de Nova York/Vou ser tão má que serei uma grande estrela e nunca voltarei/Nunca voltar, não, nunca voltar, a queimar nesta fábrica de mijo.

Como se fosse um baralho de cartas marcadas, Patti Smith apresenta ao longo do livro personagens chaves da boemia nova-iorquina e do mundo artístico dos anos 70: Andy Warhol, Allen Ginsberg, William Burroughs, Sam Shepard, Janis Joplin, Bob Dylan e muitos outros. Cada uma dessas cartas é colocada para compor um deslumbrante relato que dá conta do clima emocional de uma época.

Rimbaud escreveu: Ao amanhecer, armados de ardente paciência, entraremos em esplêndidas cidades. Em “Just Kids”, Patti Smith recria o mito do artista iluminado, que chega ao esclarecimento interior através da criação e, ao fazê-lo, de mãos dadas com seu adorado Rimbaud, armada de ardente paciência, nos conduz através de uma esplêndida cidade e de uma genuína história de amor, a mesma que se encontra plasmada na imagem da poeta que ilustra a capa de Horses.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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