Mídia

Sete faixas contra a crise

11/02/2005 00:00

Edson Wander

A crise da indústria do disco adentrou o século 21 como sombra sobre artistas, produtores e executivos do setor. As explicações para ela são muitas e variadas, às vezes, confusas e conflitantes (pirataria, internet, mudança no padrão de consumo, segmentação, etc.). Mas o certo é que ninguém sabe exatamente o que fazer para reverter a queda constante das vendas ou abrir novos flancos de comércio para a música. Iniciativas aparecem aqui e ali mundo afora.

Das experiências brasileiras que já vêm tateando caminhos, algumas características aparecem como traço comum. As mais evidentes são reuniões em coletivos de músicos de afinidades eletivas no campo estético e estratégias que reduzem custos de produção e, teoricamente, o preço para o consumidor, além do MP3 como consolidação de um promissor formato (ainda uma incógnita em termos de escala) e até a busca mais sistemática pelo mercado externo via relançamentos remasterizados. A Carta Maior inicia hoje série de reportagens mostrando algumas dessas iniciativas: o que propõem, como operam e as expectativas que as cercam.

A Elo Music, do baixista paulista Paulo Lepetit (na foto), é o pontapé da série. Lepetit juntou-se aos parceiros Carlos Zimbher e à cantora Vange Milliet para produzirem discos de apenas sete faixas. Há uma iniciativa no Rio de Janeiro, com o selo Cardume, de Bruno Levinson, que grava CDs de seis faixas. O início do projeto de Lepetit, batizado de “CD 7”, foi com um disco de Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção, lançada em abril do ano passado (“Isso Vai Dar Repercussão”). Lepetit foi músico e produtor de Assumpção (1949-2003), ícone da vanguarda paulistana nos anos 80. Um dos próximos títulos do projeto será o registro da banda da filha de Itamar Assumpção, Anelise, que canta no grupo Dona Dica.

Três novos álbuns do projeto são os discos dos próprios Lepetit (“Peças”), Zimbher (“Coração Contemporâneo”) e o do trombonista Bocato (“Cacique Cantareira” - leia sobre eles abaixo). Paulo Lepetit falou com a reportagem, por telefone, de Campinas. Na conversa, além do baixo custo, o músico justificou esteticamente o “CD 7” ("acho suficiente para firmar um conceito"), disse não crer no fim do CD como formato e falou de uma nova etapa da gravadora (que também faz dublagens para CDs de jogos eletrônicos).

A Elo Music, criada há cinco anos, estreou agora como produtora de shows, outra característica dessas novas trilhas alternativas no mercado da música (seguida também pela Trama). O primeiro show da Elo Produções foi realizado no começo do ano, em São Paulo, reunindo Naná Vasconcelos e Zélia Duncan. Confira a entrevista:

CARTA MAIOR - Por que só sete faixas num CD?
PAULO LEPETIT - Achamos que é uma alternativa de viabilização mercadológica. Queremos negar um pouco essa convenção de que um CD teria que ter 14, 15 músicas. Avaliamos que sete é um número suficiente para se definir um conceito, fixar objetividade com qualidade e ganhar tempo e baixar custo. Além do que, para o artista que trabalha na independência, isso pode reduzir a periodicidade de lançamentos, que é de cerca de três, quatro anos.

CM - Em quanto diminui o custo de produção de um disco no projeto e a que preço ele tem chegado ao consumidor?
PL - A diminuição maior é em tempo de estúdio e hora trabalhada dos músicos, porque na prensagem e no encarte nem tanto. Temos conseguido fazer com uma economia de cerca de 35% na produção, vendemos os discos nos shows a R$ 10 e sugerimos aos lojistas não passar de R$ 15. Nossas tiragens têm ficado em torno de mil cópias por disco, com exceção da estréia com Naná e Itamar, que abrimos com 2 mil cópias.

CM - O projeto tem 10 meses, que avaliação você faz dele?Os discos têm sido vendidos como você esperava?
PL - Está tímido ainda, as pessoas demoram para entender a proposta, mas é uma coisa que tem nos animado. Tem vendido bem, mas aos poucos, e acho que essa é a tendência mesmo em um trabalho como o nosso. Posso dizer que nossa perspectiva é continuar, os próximos álbuns vão sair neste formato. Se daqui a dois anos descobrirmos que o caminho não é esse, que é necessário voltar aos discos maiores, reavaliaremos.

CM - Distribuição é um gargalo? Quem a faz para a Elo Music?
PL - É, diria que hoje é o principal. Começamos com uma parceria com a Sony, que acabou não dando certo para nós. Agora nós mesmos fazemos e a saída tem sido um contato direto com os próprios lojistas, daí a dificuldade de chegar em todo o Brasil, claro.

CM - Como você avalia a internet como possibilidade de mercado? Os artistas da Elo produzem também em MP3?
PL - Mesmo para o mercado da música de uma forma geral, a internet ainda não resolveu o problema. Para vender na rede, você precisa de um volume que ainda não se consegue facilmente por título. Agora, a Elo não deixa de estar ligada no desenvolvimento de novos modelos de negociar, isso é inevitável. Pelo nosso site [www.elomusic.com.br], é possível ouvir algumas faixas em MP3 e comprar os discos com envio postal, só não dá para baixar as músicas. É uma coisa que estudamos com calma, assim como chegar ao mercado externo.

CM - O formato CD vai acabar?
PL - Não creio nisso. Acho que terá público para as duas coisas. Há a garotada que não quer saber de ficha técnica e vai ouvir os sucessos pela internet, mas sempre existirá aquele que quer saber de quem é aquela música que ele está ouvindo, quem toca, que instrumentos foram usados, etc.

CM - Você não acha paradoxal que, num momento em quea tecnologia permite ampliar o número de músicas parao consumidor, os artistas se vejam numa situação de ter
de reduzi-las para se viabilizar comercialmente?
PL - Continuo achando que sete músicas é um número suficiente para você dar um conceito ao seu trabalho, não é mais a quantidade que importa. Por isso, acredito na sobrevivência de formas alternativas de baratear os discos, é uma tentativa diferente.

LEIA RESENHA DOS LANÇAMENTOS DA ELO MUSIC




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