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"O futebol é uma representação contemporânea da escravatura", diz Márcio Chagas

Em palestra no Fórum Social das Resistências, em Porto Alegre, ex-árbitro conta como o racismo o levou a abandonar a carreira

26/01/2020 13:44

(Juan Ortiz)

Créditos da foto: (Juan Ortiz)

 
"A gente tem que botar o dedo na ferida", introduziu o comentarista esportivo Márcio Chagas no início da noite da última quinta-feira, dia 23, na Câmara Municipal de Porto Alegre. Chagas falaria durante as próximas duas horas sobre racismo no futebol, tema que o levou ao Fórum Social das Resistências 2020. Além dele, também participaram da conversa Alexandre Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, e representantes do Fórum de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma).

No início da semana, os jogadores Tavares e Vinícius Mello, das categorias de base do Internacional, foram chamados de "macacos" por rivais uruguaios do time Albión, durante uma partida da Copa Santiago de Futebol Sub-20. As comissões técnicas de ambos times foram alertadas, mas ignoraram o episódio. De acordo com registros do Observatório, houve 59 casos de injúria racial no futebol brasileiro em 2019 – 16 deles só no Rio Grande do Sul. O próprio Márcio Chagas foi vítima de um desses episódios no dia 15 de dezembro. Embora tenha deixado a arbitragem profissional em 2014, foi convidado a apitar a final do campeonato municipal de Ajuricaba, noroeste gaúcho, entre América e Juventus. No meio do jogo, um torcedor gritou "apita direito, negro safado, se não apitar direito vão fazer que nem em Bento Gonçalves". A ameaça verbal, que fez o homem ser levado à delegacia e depois liberado, era uma referência ao episódio de racismo que deu fim à carreira de Chagas nos gramados.

O árbitro que bateu de frente contra os racistas

O gaúcho Márcio Chagas aprendeu o que era o racismo ainda criança. Aos 10 anos, em 1986, ele jogava futsal pelo Teresópolis Tênis Clube e estava prestes a enfrentar um time casca grossa. O treinador então perguntou aos garotos o que eles deveriam fazer para vencer os rivais. Todos ficaram em silêncio no vestiário. O menino Márcio, único negro da equipe, se atreveu a falar: respondeu que era preciso fazer tudo o que eles tinham treinado ao longo da semana. O técnico deu um sorriso irônico, olhou para o diretor do clube e concluiu: "tu vê, tão inteligente, tão esperto... só tem um defeito", disse coçando a mão, sem completar a frase. "Aos 10 anos, eu estava sendo exposto pela cor da minha pele num vestiário de futebol", lembra Chagas.



Do futsal, ele foi para o basquete, esporte que lhe rendeu bolsas de estudos na escola e faculdade particulares: o Instituto Porto Alegre (IPA) e o curso de Educação Física da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Como jogador das categorias de base da Sogipa, ele enfrentava regularmente a equipe do Recreio da Juventude, de Caxias do Sul – um clube da elite branca da serra gaúcha. "Durante os confrontos contra essa equipe, havia alguns meninos que passavam o jogo inteiro dizendo 'tua mãe, por ser preta, deve ser puta ou faxineira'. E era o jogo inteiro". Os árbitros não tomavam qualquer providência.

Em 1991, na final do campeonato estadual, os companheiros de time da Sogipa – majoritariamente brancos – compraram a briga do amigo. Depois de vencer os rivais caxienses por um ponto de vantagem, os jogadores partiram para o soco, e a Brigada Militar teve que intervir para controlar a confusão. "Foi a única maneira de combater aqueles caras naquela idade", defende.

Na escola e na faculdade, procurava não tocar no assunto por receio de virar chacota, motivo de "piada". Depois de formado, já atuando como árbitro da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), adotou a estratégia de não aquecer em campo para evitar xingamentos racistas das torcidas antes do jogo. "Macaco", "escória", "morto de fome", "volta para a África", "matar um negro não é cometer um crime, é adubar a terra" eram algumas das ofensas mais comuns. "Mesmo que eu relatasse em súmula, quando chegava na Federação Gaúcha, me diziam que era coisa de torcedor, da boca para fora."

A gota d'água veio no dia 5 de março de 2014, quando apitou o jogo do Esportiva contra o Veranópolis, válido pela primeira divisão do Gauchão. Foi xingado pela torcida ao sair do vestiário, na ida e na volta do intervalo e ao término da partida. Após o encontro, o árbitro foi ao estacionamento privativo do estádio e encontrou seu carro com as portas amassadas e cascas de banana no capô. Assim que ligou o veículo, duas bananas caíram pelo cano do escapamento. Chagas levou o caso à imprensa no dia seguinte, o que desatou a ira do presidente da FGF, Francisco Novelletto Neto, de quem recebeu uma ligação tentando comprar seu silêncio.

 O árbitro se recusou a ficar calado. "E aí ele desligou o telefone dizendo 'tu sabe o que vai acontecer'. Eu sabia que ali tinha encerrado minha carreira", lembra Chagas – que deixou a arbitragem por conta própria e depois venceu o processo judicial contra o Esportiva. Ele foi o último árbitro negro a apitar a primeira divisão do Gauchão e a compor o quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desde então, atua como comentarista esportivo da RBS.



O combate ao racismo dentro e fora dos gramados

Em novembro, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol promoveu uma campanha junto com o Santos para tratar da desigualdade racial no Brasil. No clássico contra o São Paulo, todos os jogadores santistas trocaram os números das camisas por porcentagens que denunciavam o abismo social entre negros e brancos: Everson usava a 79% (de mortes violentas); Felipe Jonatan, a 61% (de presidiários); Evandro, a 12% (de pessoas negras no ensino superior). "Outro exemplo é o Grêmio, que mudou totalmente sua maneira de pensar a questão racial. Hoje, o clube entendeu que o papel dele na sociedade é falar de racismo, independente do que já aconteceu dentro de sua história", elogia Alexandre Carvalho. Em dezembro, o Grêmio firmou uma parceria com a Defensoria Pública da União para abordar a questão racial internamente com seus funcionários.

“Todos os clubes de futebol têm um problema de racismo estrutural. Afinal, a presença de negros está limitada dentro das quatro linhas”, observa Carvalho. Dos 40 clubes que integram as séries A e B do Campeonato Brasileiro, só um tem presidente negro: a Ponte Preta, dirigida por Sebastião Arcanjo desde novembro do ano passado. Outra rara exceção é o Bahia, clube treinado por Roger Machado e que tem feito diversas ações de conscientização racial, inclusive assumindo a falta de negros no quadro de funcionários.

Ainda assim, são poucos os esforços dos grandes clubes para combater o racismo no esporte, e a manutenção dos privilégios brancos acaba se perpetuando. “O futebol nada mais é do que uma representação contemporânea da escravatura", aponta Chagas no final de sua fala. “A pirâmide social dentro do estádio é muito evidenciada: os camarotes, as cadeiras, a social são definidas pelas pessoas que ocupam. E os negros estão sempre na geral ou na popular, atrás das goleiras, onde raramente passa a câmera para filmar."

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