Movimentos Sociais

'As favelas latino-americanas precisam se organizar politicamente', diz ativista

Militante de movimento de favelas da Argentina fala sobre encontro que acontece neste final de semana em Porto Alegre

30/07/2018 16:50

Por meio do futebol popular e da organização horizontal, movimento de favelas argentino ganhou o continente / Reprodução

Créditos da foto: Por meio do futebol popular e da organização horizontal, movimento de favelas argentino ganhou o continente / Reprodução

Kátia Marko, Brasil de Fato

Fidel Ruíz, nascido em Zavaleta, uma favela de Buenos Aires, capital da Argentina, começou a jogar futebol cedo e a se mobilizar politicamente ainda jovem. Aos 9 anos, a organização de favelas La Poderosa começava a se organizar em seu bairro e trazia a novidade do futebol popular como uma ferramenta de organização e educação da vizinhança. Organizava assembleias e propunha novas formas de organização social.

Passados 14 anos, Fidel, hoje aos 23, está em Porto Alegre (RS) para participar do 2º Fórum Latino-Americano de La Poderosa, que acontece entre esta sexta (27) e o domingo (29). Militante da organização que hoje se estende por 96 comunidades do continente (Brasil, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, México e Cuba), Fidel contou ao Brasil de Fato um pouco de sua história, das expectativas do encontro e do que significa o trabalho de La Poderosa batizada assim em homenagem à motocicleta de Che Guevara, que foi usada pelo revolucionário para conhecer boa parte da América Latina.

O fórum receberá moradores e moradoras de favelas e comunidades rurais de todo o continente para debater feminismo, comunicação e educação popular, dos povos indígenas, da economia popular, e também o modelo de organização de La Poderosa, que de forma orgânica e apartidária, realiza assembleias semanais para mobilizar as comunidades, encontrar soluções e planejar estratégias, de maneira consensual.

“[Viemos da] necessidade de se organizar coletivamente, sem mesquinharias políticas, sem personalismo, para que não haja uma voz que fale pelo bairro, mas sim em conjunto,  para que as assembleias estejam se reunindo, pensando e falando por si só. Para que seja a comunidade que fale, não só uma pessoa. E assim começamos. E assim eu comecei”, conta Ruíz.

Espera-se que 3 mil pessoas participem do 2º fórum da organização – o primeiro foi em Havana. O Brasil foi escolhido como sede para oferecer um contraponto popular à situação pela qual o país passa. Confira abaixo a íntegra da entrevista.


Fidel Ruíz participando de manifestação na Argentina. (Foto: Reprodução)

Brasil de Fato: Qual é a história de La Poderosa?

Fidel Ruíz: Ela nasceu em 2004, há 14 anos, diante da necessidade de se organizar coletivamente, sem mesquinharias políticas, sem personalismo, para que não haja uma voz que fale pelo bairro, se não que em conjunto, as assembleias estejam se reunindo, pensando e falando por si só. Para que seja a comunidade que fale, não só uma pessoa. E assim começamos. E assim comecei eu, aos 9 anos, em um espaço de futebol popular.

Para nós, o futebol popular é um espaço de educação popular, não um esporte. Entendemos que assim como o futebol é muito popular na Argentina, muitas das crianças sonham com ser jogadoras de futebol, com ser Messi ou Maradona, mas também entendemos que o futebol é o escape a todos os problemas que surgem na comunidade. Na falta de educação, na falta de trabalho, na falta de habitação, na falta de serviços públicos, de um espaço cultural, de um parque.

Todas essas coisas tentamos contemplar ou discutir e começar a lutar através do futebol popular que é um dos espaços de educação popular que temos hoje em La Poderosa. E assim, comecei, e assim começou, La Poderosa, uma maneira diferente de se organizar.

Você está em La Poderosa desde os 9 anos. Me conte um pouco sobre você, onde nasceu, onde vivia, por que sua família começou a participar e o que que te levou a participar.

Eu nasci, me criei e sigo vivendo em Zavaleta, uma villa, uma favela ao sul da cidade de Buenos Aires. Para se ter uma ideia, fica a 15 minutos do Obelisco, que é um dos lugares mais famosos da Argentina. E a 15 minutos do Obelisco, há pobreza. E lá nasci. E aí foi onde começou La Poderosa, há 14 anos, e minha família começou a se envolver, minha mãe e irmãos, também vendo a constância que tinha a organização.

Nós nos acostumamos a organizações políticas que vão em busca de votos nas eleições e não para um fim social que realmente sirva ao bairro. Sempre subestimaram as lutas populares e os diferentes níveis sociais que existem nos territórios. E assim minha família foi se envolvendo, com o futebol e as atividades. Meus irmãos frequentavam um espaço de educação popular, de arte e assim fomos nos engajando, também porque todas crianças que viviam ao lado da minha casa começaram a participar desse espaço, então todas as mães também foram, e minha mãe, por exemplo, foi conhecendo o que era La Poderosa.

E então foi assim que comecei a percorrer esse caminhozinho, participando do futebol popular, depois participando de diversos espaços de educação popular e conforme fui crescendo passei a acreditar nessa organização – já acreditava, mas pela parte prática – até que pudesse pensar e escolher esse caminho de atuação política. Para mim, assim como para muitos de meus vizinhos, a política sempre foi muito importante, sempre gostamos dela.

O que acontecia era que a palavra "política", nos bairros humildes e populares, é uma palavra com má reputação, justamente pelo que comentava antes, pelo mau uso da política nos bairros. Então, nos organizamos de maneira coletiva, assembleias semanais, onde vamos decidindo, vamos pensando e realizando coisas para o bairro.

De uma praça até lutar para que urbanizem os bairros onde estamos e que haja moradia digna, lutar por isso. E fazemos várias coisas que nos faltam no bairro mas também buscamos uma estratégia para que se atendam às reivindicações do bairro. Sempre dizemos, nas villas, que por viver em uma situação de precariedade, sem água e sem gás, sem serviços públicos nem nada, vivemos desde cedo lutando e reivindicando.

Então dizemos que a La Poderosa não nos ensinou a lutar, e sim, nós ensinamos ela a reivindicar porque os bairros já lutam desde sempre. E assim me envolvi e aqui estou, creio nessa maneira de construir, porque cresci assim.

E você vive até hoje em sua villa.

Não há algum lugar no mundo onde eu me sinto como no meu bairro, na minha casa, com meus amigos e famílias, uma história e uma vida nesse bairro que não há par, estou acostumado nessa cultura, a cultura villera, que tem uma diversidade enorme de pensamentos, culturas, diferentes nacionalidades, como as paraguaias e bolivianas, Peru e Chile, onde a dinâmica no bairro e o cotidiano você vai aprendendo.

Hoje, todos comemos sopa paraguaia, arroz chaufa, todas essas coisas que fazem com que o bairro tenha uma mente diferente. E também há a solidariedade, que no bairro há muita, e pouco se mostra na mídia.

Como é a situação das favelas na Argentina?

[As favelas] são muitas. E vão crescendo cada dia mais. Há um montão de favelas, tanto na província de Buenos Aires, como em nível nacional. E vão crescendo pela própria necessidade, conforme vem gente para as comunidades de outros países, porque passam necessidades em seus países, então, se mudam para os bairros humildes que vão crescendo mais e, muitas vezes, por exemplo, na cidade de Buenos Aires, nossas bairros não crescem para os lados e sim para cima, porque já não há terra onde ocupar e construir uma casa.

Nas outras províncias, em outros estados sim, os bairros vão crescendo para todos os lados, há muitos bairros que eram pequeninos e hoje são enormes. Se expandiram muito.

Qual a importância desse encontro que acontece agora em Porto Alegre?

O mais importante é que nós queremos defender nossas vidas, nossa democracia e nossos direitos. Nós estaremos aqui em 27, 28 e 29 de julho, para defender nosso presente, para construir um futuro diferente.

Mas nós vamos discutir desde baixo, vizinhos e vizinhas de diferentes favelas de toda a América Latina vão se juntar para começar a discutir como lutar em nível regional.

Não acreditamos numa luta setorizada, que fique em si, e sim em uma luta gigante, na qual todas essas experiências territoriais também vão estar acompanhadas por um Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, pelas Mães da Praça de Maio, pessoas do México, mães colombianas e diferentes personalidades que também entendem que têm que apoiar todas essas lutas. Que têm que fazer parte dessas batalhas.

Não vão estar apartados, não vão estar nem atrás, nem à frente, e sim ao nosso lado, incentivando essa luta, porque acreditamos que hoje faz falta e por isso vamos ter muitas atividades e debates, como Direitos Humanos, esporte, cultura, educação, terra, gênero. Entendemos que todas essas questões têm que embasar nossa atuação, para sabermos como gerar um plano de luta que crie cada vez mais unidade latino-americana e que motive os que estão afastados, os que sempre disseram que não se importavam com nada, que não querem trabalhar, que não querem estudar, estamos pensando em como transformar essa América Latina.

Então vamos nos mobilizar e ir às ruas. Especialmente nesta quinta-feira (27), porque é o dia de nascimento de Marielle Franco, que é uma referência para nós. E vamos denunciar isso. Não é por acaso que ela foi assassinada. Não é por acaso que morra um jovem com menos de 18 anos a cada 23 horas na Argentina. Não é por acaso que se matam defensores de Direitos Humanos na Colômbia.

Então, vamos nos mobilizar por isso, para mostrar como a única união é a da humildade, porque temos que cuidar uns dos outros, porque o Estado nos esqueceu. Vamos nos juntar, construir e conjugar essas experiências que até agora estavam perdidas.

Qual a expectativa de participação nesse encontro? Há pessoas de muitos lugares, não?

Há pessoas vindo de caravanas da Argentina, mais de 30 ônibus, muitos países, diferentes referências sociais, de muitos estados do Brasil, porque entendem que é agora ou nunca, temos que transformar o hoje.

Nos anos 1970, muitos companheiros, durante a ditadura militar argentina, perderam sua vida por acreditar nessa luta, e hoje cremos que temos que dar a nossa também, porque se não semearmos hoje, vai demorar muitos anos mais para transformamos nossas realidades. Que nossos jovens se contagiem e construam nosso futuro.
 
Publicado originalmente no Brasil de Fato

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