Movimentos Sociais

A renovação do Fórum Social Mundial e do seu Conselho Internacional

 

29/10/2020 12:54

(Guilherme Santos/Sul21)

Créditos da foto: (Guilherme Santos/Sul21)

 
Ao escrever essas notas reconhecidamente controversas em torno de uma experiência política que é singular e global, não estamos tentando “julgar” as intenções de qualquer pessoa ou grupo. Estamos pensando nos intelectuais e ativistas, em particular os brasileiros, que, ao tomarem a iniciativa de convocar cidadãos e movimentos sociais de todo o mundo, o fizeram de “boa fé”.

Não foi uma tarefa fácil organizar reuniões de pessoas com ideias e culturas políticas tão diversas. Alguém tinha que assumir aquela tarefa, típica dos “sonhadores” e dos “românticos”, de influenciar as mudanças do mundo, não de forma abstrata, mas sim pela convivência voluntária em uma espécie de “carnaval” partidário ou político.

Este experimento começou sem estruturas de governo ou hierarquias, mas com regras mínimas: uma Carta de Princípios e um Conselho Internacional, com ambiguidades e contradições intransponíveis, que logo se mostraram insuficientes para atingir os objetivos proclamados. Começou assim um processo que, passadas duas décadas, não pode ser avaliado, e que, no entanto, apresenta sinais de desgaste, inércia e declínio evidentes.

Nos últimos 20 anos, desde a criação do Fórum Social Mundial, milhares de organizações civis e movimentos sociais participaram desse processo social sob o lema “outro mundo é possível”. Patrocinado por Luiz Inácio Lula da Silva, e com a presença ativa de lideranças intelectuais, sociais e políticas relevantes, este projeto teve um amplo impacto em sua primeira década, embora certamente maior ou mais visível na América Latina do que no resto do mundo.

Posteriormente, esse fenômeno político – claramente voluntário e não violento – que envolveu os cidadãos do mundo tanto de forma individual como coletivamente, caiu na inércia. Por que um projeto tão único, apesar de suas frustrações e contradições, ainda é uma esperança e um caminho possível para mudanças globais progressivas?

Desde o início, podemos nos perguntar: após 20 anos, em que o Fórum Social Mundial contribuiu para diminuir os males do neoliberalismo e do capitalismo selvagem, contra os quais supostamente teria que lutar? Diante das evidentes realidades locais, nacionais e mundiais de crescente polarização social – como as figuras econômicas e políticas, e os dados amplamente mostram (apresentados até mesmo na sua antítese em Davos) –, nos resta apenas reconhecer, com um senso crítico e autocrítico, que o Fórum falhou.

E, no entanto, seu maior triunfo é a sobrevivência, sustentada basicamente por nossos amigos altermundistas brasileiros.

Por isso, para além de atitudes baseadas em dogmatismos, simulações ideológicas e alinhamentos com interesses que se sobrepõem a um mínimo bem-estar das classes populares em todo o mundo, é necessário e mesmo inevitável adotar definições claras, unívocas, sem ambiguidades ou contradições, como as que vemos hoje na própria Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, sobre a qual se faz necessária uma análise, artigo por artigo, que conduza a novas propostas de redação.

Como agora é urgente repensar a própria estrutura do Fórum e a integração e funções do Conselho Internacional, um Grupo de Renovação Internacional, composto por fundadores originais e um número crescente de indivíduos e organizações interessados, já lançou três apelos e criou um Grupo de Reflexão, no qual se considera indispensável rever os princípios e objetivos com os quais este fenômeno político nasceu, e nesse contexto, há basicamente duas posturas:

1) A dos que desejam manter a continuidade do processo como um “espaço aberto”, sem passar a uma ação unitária em nome do Fórum, e;

2) A dos que buscam avaliar e renovar o processo como um todo, para avançar na construção de um “sujeito político global”, de um “movimento-espaço” capaz de atuar para promover democrática e pacificamente as mais justas e urgentes transformações do mundo.

Como as tarefas do Fórum nunca foram definidas com clareza, fomentando a inércia, a passividade, a falta de legitimidade e as contradições evidentes, até agora o lema hegemônico e real parece ser o de “que cada um faça a sua parte”; ou seja, cada eixo, cada tema, cada problema deve ser enfrentado nas organizações e nos movimentos pelos seus pares, nas lutas e lideranças parciais e comuns, nos seus fóruns temáticos ou regionais, desvinculados do todo e sem contar com a força social e o poder unificador e unitário que o Fórum Social Mundial poderia e deveria ser.

Recentemente, o Conselho Internacional do Fórum Social Mundial voltou a divulgar o texto de um dos líderes brasileiros, Chico Whitaker (a quem respeitamos muito, mas com quem temos grandes diferenças), escrito em 2012, chamado “Novas perspectivas no processo Fórum Social Mundial?”. Junto com isso, em outro:

Após o fim da discussão de GTI, “Adeus ao Fórum Social Mundial? Possíveis perspectivas do Fórum Social Mundial”, ao se referir ao Fórum realizado na Tunísia em 2013, Chico reitera argumentos de que, com o devido respeito, não podemos deixar de nos qualificar como muito conservadores. Ao rever o sentido de movimentos que tiveram certa relevância na época, como o Occupy em Nova Iorque e os Indignados na Espanha – que aliás ocorreram totalmente à margem do Fórum –, ele apresenta uma visão desses acontecimentos, cuja dinâmica trata apenas com uma visão distanciada, e podemos muito bem qualificá-la como “romântica” ou “sonhadora”.

Ele diz, por exemplo, que “no meu sonho, tenho visto a multiplicação dessas reuniões de bairro, por toda a cidade, com uma grande variedade de temas e questões levantadas…”. Muito bem, mas por que não estimular essas ações e reações, de forma clara e aberta, na pura e dura realidade, a partir de e por conta do Fórum Social Mundial? Em vez disso, reitera-se que “devemos continuar a organizar encontros bonitos e emocionantes, onde, de forma democrática e auto-organizada, dizemos o que fazemos e descobrimos o que os outros estão fazendo…”.

Isso é bom e necessário para articular e construir a união que nos dará a força de que precisamos. É aqui que os argumentos se tornam inconsistentes. Unidade e força para quê? Há também um quase “horror sagrado” do “controle vertical” e do “assembleísmo”, que são típicos dos partidos políticos perversos de esquerda.

“Requer o abandono de práticas marcadas por mais de cem anos de ação política vertical, dentro de uma esquerda que defende a mudança, mas aceita o autoritarismo, a violência, o princípio de que os fins justificando os meios, a instrumentalização dos outros para o benefício de seus próprios objetivos.

Mas, além disso, do ponto de vista de quem “sabe” o que acontece nos altos escalões da organização, outra pergunta se formula: “como as maiorias – manipuladas, insatisfeitas ou iradas – enxergam nossas propostas? Elas têm conhecimento de que tivemos o privilégio de saber sobre os mecanismos que governam o mundo, sobre os meios usados %u20B%u20Bpelos poderosos para explorar os seres humanos e a Mãe Terra, sobre as causas das guerras que matam milhões, sobre especulações de milhões de dólares com dinheiro e comida? Etc, etc e etc…”.

Assim, questiona-se se esta é uma visão horizontal ou vertical do mundo. E, no entanto, surge a proposta da “construção de uma nova cultura política, alicerçada na aprendizagem mútua, na reflexão coletiva, no respeito pela diversidade, na horizontalidade das redes… com decisões tomadas por consenso e não por voto que alienam ou excluem minorias”.

 Este é um argumento democrático confiável? Estamos buscando a “exclusão” de quem? Das “minorias” ou das “maiorias”? Quando há um confronto de ideias no qual se atribui ao “outro”, seja ele maioria ou minoria, da direita ou da esquerda, com posições ou objetivos alheios, as coisas não podem seguir um caminho democrático.

Ao analisar a Carta de Princípios, documento elaborado há 20 anos, podemos reconhecer, apesar de suas óbvias ambiguidades e contradições, que ela tem sido uma referência útil, embora insuficiente, para orientar as atividades do Fórum.

No entanto, a ausência nela de normas operacionais claras sobre a condução e autogoverno desse processo, como a referência nula ao que foi posteriormente constituído como um Conselho Internacional, mostra a necessidade inevitável de repensar a organização e funcionamento do Fórum, assim como do próprio Conselho Internacional, pouco representativo e ainda carente de legitimidade, tanto substantiva quanto metodológica ou processualmente.

Todos concordaríamos em buscar consensos para manter a unidade, mas na ausência deles, o caminho indicado pelas maiorias é, se não o único, pelo menos o melhor caminho, e o mais democrático. De qualquer forma, vale a pena perguntar, consenso e unidade para quê? Não fazer nada, não agir em nome do Fórum e de sua potencial força política global?

Parece que a intenção de Chico Whitaker – cuja boa fé e boas intenções não questionamos, em seu último texto por WhatsApp, em 26 de setembro – visa apontar com maior abertura não apenas as dificuldades de decidir sem romper a unidade do Fórum, mas para atender à natureza e viabilidade de uma ação. Junto com isso, poderíamos nos perguntar o que o Fórum pode e não pode fazer?

Como agir? Com quem? Para quê? São questões abertas que não têm solução fácil. Por isso, consideramos que devem ser tratadas como algo verdadeiramente substancial. Poderíamos muito bem decidir agir; no entanto, para fazer o quê? Para fazer apenas afirmações ou para outra coisa? Nisto, existe uma regra de ouro: aquele que propõe, age. E agir, no que diz respeito aos problemas globais, implica definir muito bem os objetivos e os caminhos, buscar apoio, reunir forças. Ou não?

A liberdade de expressão e demonstração são armas poderosas, mas insuficientes. Sua abrangência está condicionada, em grande parte, pela difusão dos acontecimentos e, como sabemos, os grandes meios de comunicação estão nas mãos da direita em quase todo o mundo. Por isso, a ação pacífica e não violenta deve ir das redes digitais às ruas e praças públicas, mas também às universidades, igrejas, sedes sindicais e camponesas, e até mesmo às próprias empresas, com a realização de greves parciais ou gerais, como a suspensão do pagamento de impostos, boicote ao uso ou consumo de determinados produtos ou serviços.

Por exemplo, se decidimos agir contra os paraísos fiscais e a lavagem de dinheiro (fatos irrefutáveis, claramente ilegais e ilegítimos na esfera financeira global), não é razoável pensar em um boicote (suspensão de movimentos, cancelamento de contas) contra bancos e empresas que possuem contas em offshores? Ou esta é uma ação completamente ilusória e impraticável?

É possível ou não lançar ações e boicotes contra empresas que produzem ou vendem armas? Ou contra as indústrias mais antiecológicas e poluentes? Defender com mais força a libertação de Assange, que nos deu informações muito fortes sobre crimes de guerra e crimes contra a propriedade em todo o mundo, é pedir demais?

Ninguém tem as soluções na palma da mão. Elas devem ser buscadas individual e coletivamente, discutidas com base em uma definição clara de questões ou problemas substanciais e com agendas. É exatamente isso que buscamos levantar e compartilhar do GRFSM- México (Grupo de Renovação do Fórum Social Mundial do México). Não se trata de ignorar ou negar o que foi conquistado em 20 anos, mas sim de avaliar o processo com objetividade e respeito às diferenças de opinião, e assim já estaremos no caminho de iniciar discussões aprofundadas, sem falsos temores.

Portanto, com sentido crítico e autocrítico, nós que fazemos parte do Grupo Renovador do Fórum no México expressamos o seguinte:

– Reconhecemos o valor de todos os esforços para criar e manter um processo de convergência e unidade na diversidade das organizações civis e movimentos sociais em todo o mundo;

– Reconhecemos que o modelo de organização e funcionamento do Fórum Social Mundial falhou em seu objetivo principal de contribuir para deter ou neutralizar o avanço de um capitalismo predatório, que exacerbou a polarização entre riqueza e pobreza em todo o mundo e levou o planeta à beira do colapso ecológico;

– A estratégia de manter a unidade de reflexão e comunicação em eixos temáticos distintos tem sido insuficiente para integrar organizações e movimentos sociais em ações comuns;

– A crise pela pandemia de covid-19 exacerbou as desigualdades, o desemprego e a precariedade da saúde e da economia da grande maioria das pessoas e dos países, o que torna mais urgente a renovação do Fórum Social Mundial.

Propomos que os diversos Grupos Renovadores do Fórum coloquem no centro da discussão, e como grande prioridade, a organização de debates sérios, dentro e fora do Conselho Internacional, para a avaliação geral e autocrítica do processo, bem como a redefinição de objetivos e estratégias para gerar decisões sobre a ação democrática e unitária que o Fórum tanto precisa. É hora de fazer, é necessário, é útil. Vamos fazer agora!

Óscar González César é diplomata e poeta. Estudou Direito na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México), Direito Internacional Comparado na Universidade de Nova York e fez mestrado e doutorado em Ciências Sociais na UNAM. Seu trabalho está direcionado principalmente a temas ligados aos Direitos Humanos. Texto distribuído pelo Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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