Movimentos Sociais

A voz rouca das ruas e a esperança nos pés da juventude

 

31/05/2019 12:30

Início da manifestação em Belém, que reuniu mais de 70 mil pessoas neste 30/05/19 (José Raimundo Trindade)

Créditos da foto: Início da manifestação em Belém, que reuniu mais de 70 mil pessoas neste 30/05/19 (José Raimundo Trindade)

 
Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade dos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver (...)
(Milton Nascimento/Fernando Brant, Coração Civil)

As manifestações desta quinta (30/05) foram surpreendentes, superando em número de pessoas nas ruas às manifestações anteriores de 15/05. Em Belém do Pará a manifestação tinha mais de setenta mil pessoas, estabelecendo um panorama que há muito não se via. Em duas semanas mais de 150 mil jovens se mobilizaram e fez às ruas de Belém trepidar, ouvindo-se o roncador ruidoso das vozes juvenis estalando num uníssono: “NÃO MEXA COM A EDUCAÇÃO PÚBLICA, LUGAR DE MILICIANO É NA PRISÃO”!

O quadro político brasileiro se radicaliza. A direita claramente rachada apresenta uma tripla fissura: parte da mesma está comprometida com um projeto totalitário entorno do Bolsonaro, porém crescentemente fragilizado, seja pela ingovernabilidade própria da incompetência técnica e mistificação ideológica, seja pelo profundo quadro de crise econômica que se agrava aceleradamente, o PIB já registra sinais de declínio que apontam um quadro recessivo.

A segunda fração da direita se estabelece entorno da cultura ditatorial dos militares, extremamente conservadores e sinistramente antinacionalistas, um quadro muito curioso de militares que batem continência para bandeira de outra nação e adotam um estúpido caráter de destruição nacional. Vale aqui reforçar que esta fração neofascista reza pela mesma cartilha ultra neoliberal das demais frações de direita, com a diferença em relação ao terceiro segmento, abaixo descrito, que consideram a completa ruptura e destruição das instituições democrático-burguesas e, até mesmo, das instituições de organização básica do Estado.

O terceiro segmento constitui o que os analistas denominam de direita clássica, basicamente o Centrão e o núcleo que se organiza entorno do Rodrigo Maia. Esta direita quanto ao programa econômico apresenta a mesma perspectiva dos demais grupos: destruir a seguridade social e entregar o patrimônio público para o capital imperialista. A diferença aqui se refere a manter o mínimo de institucionalidade.

A luta de ruas que as jornadas de Maio repuseram nos coloca numa nova capacidade organizativa, mesmo que ainda não tenhamos alcançado a condição de imposição de uma agenda democrática radical, mas já avançamos na construção de um novo patamar de acumulo de forças.

As manifestações de hoje definitivamente nos colocam na perspectiva esperançosa do revigoramento da sociedade brasileira e da construção de uma gigantesca paralisação nacional em 14 de junho que emparede pela primeira vez em cinco anos a classe dominante brasileira e seus acólitos.

A agenda colocada refere-se a manutenção das lutas localizadas nas Universidades e Institutos Federais de Educação e uma crescente capacidade mobilizadora entorno da oposição a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 06/19. Como já tratamos em outro texto (Carta Maior, 28/05/19) barrar a reforma da previdência é a grande batalha da sociedade brasileira deste início de século XXI.

A Juventude nos colocou novamente no páreo da disputa pelo futuro da nação brasileira, compete agora construir a Greve Geral de 14/06 e avançar na agenda democrática e popular.

José Raimundo Trindade é Professor da UFPA

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