Movimentos Sociais

Adeus Porto Alegre 2003, até o ano que vem na Índia!

A principal marca do III Fórum Social Mundial é um anti-capitalismo militante, ativo, crítico. Este ano, ganhou contornos definitivos que combina presença de massa com reflexão.

03/02/2003 00:00

(Reprodução/bit.ly/31Fd30f)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/31Fd30f)

 

O Fórum Social Mundial, em sua terceira edição, encerra-se com os últimos trabalhos, debates, painéis, grandes conferências, nos pátios, corredores, auditórios, salas de conferências. No Gigantinho, o palco das grandes conferências, Eduardo Galeano , o autor do clássico “As Veias Abertas da América Latina”, encerrou com uma audiência espetacular; Fritjof Capra arrastou uma multidão no Acampamento da Juventude. Popstars terão dificuldades para suplantá-los em audiência e vibração. Na PUC e nos Armazéns, paira no ar uma sensação de despedida de um espaço em que se viveu durante cinco dias uma intensa solidariedade e exercício cidadão. O Fórum parece-se muito com as reuniões da SBPC nos anos setenta, quando realizávamos nos auditórios lotados, as aulas que não podíamos dar na universidade. Mas não há melancolia: há o reforço de convicções, testadas na convivência e nos debates.

O Fórum Social ganhou seu rosto definitivo nesta terceira edição. No sentido de um evento da política, que pode enganar na aparência como sendo um espetáculo, mas se afirma como uma nova forma que combina presença de massa com reflexão. Ele redefine uma dimensão que sempre assustou os mais críticos: o risco de que as grandes manifestações de massa propiciassem apenas sua manipulação. A politização não transforma tudo em política, o que seria um erro, mas não deixa que se escondam nas dobras de um apoliticismo tecnicista as grandes questões que interessam à cidadania. Ele abre a possibilidade antevista um dia por Tróstki, que disse uma vez que a tarefa do socialismo seria estarmos à altura da herança de Platão e Aristóteles.

Ou na formulação de Gramsci, de que todo cidadão é um intelectual: Porto Alegre realiza essa promessa.

E esta terceira vez erradicou as suspeitas, de parte a parte, entre movimentos sociais, organizações civis, partidos, organizações políticas, organizações não-governamentais, de que cada um utilizasse o Fórum para anular o outro: a prática unificou-os, até reensinando uma velha lição de que movimentos podem se transformar em partidos, que partidos sem movimentos podem se estiolar, que as organizações não-governamentais são também organizações políticas e não apenas nichos da competência técnica.

Reforço uma opinião já emitida em matérias anteriores: a principal marca do Fórum é um anti-capitalismo militante, ativo, crítico. Aliás, o Fórum diz porque Lula não tinha que ter ido a Davos: porque Porto Alegre já não é o anti-Davos; este é que é o anti-Porto Alegre, como Emir Sader com sua arguta percepção, já havia dito aqui mesmo na Agência Carta Maior. Aliás, de um ponto de vista mais egoisticamente brasileiro, o Fórum instaura uma nova relação com um governo como o do Lula: um diálogo crítico, sem subserviência, a serviço das promessas de transformação.

Sem programá-la, sem instrumentalizá-la, sem idealizá-la, o Fórum mostra a formação e a consolidação de uma cidadania mundial capaz de criar as alternativas, que não serão modelos, não serão clones uma da outra. Um outro mundo é possivel ? Um outro mundo já é possivel. À globalização capitalista, Porto Alegre respondeu, ecoando Seattle, Gênova, Washington, e dando um passo à frente. Nasce um novo internacionalismo. Até a Índia, no próximo ano.

Conteúdo Relacionado