Movimentos Sociais

Ato contra a guerra cobra retirada das tropas do Iraque e do Haiti

Estudantes, partidos políticos e movimentos sociais protestam contra a política militarista dos Estados Unidos, exigindo a retirada das tropas do Iraque. Eles afirmam que, no Brasil, o mesmo imperialismo se afirma nas políticas neoliberais e em ações como o envio de soldados para o Haiti.

20/03/2006 00:00

Centro de Mídia Independente

Créditos da foto: Centro de Mídia Independente

SÃO PAULO – A luta contra a escalada militar é a luta contra o imperialismo e o neoliberalismo. Foi com essa afirmação que cerca de dois mil estudantes, representantes de partidos políticos e militantes de movimentos sociais marcharam pela Avenida Paulista neste sábado (18) para protestar contra os três anos de invasão do Iraque, completados nesta segunda-feira. Todos os anos, na mesma data, atos semelhantes acontecem em dezenas de países do mundo. O final de semana foi marcado por dois dias de Luta Global Contra a Guerra Imperialista, em Defesa do Povo Iraquiano e pela autodeterminação dos Povos. No Brasil, a relação entre a política militarista e imperialista norte-americana e a política capitalista, econômica neoliberal, tão presente no continente e mais próxima da realidade da população, vem sendo utilizada como estratégia de sensibilização pelo movimento antiguerra. A manifestação deste sábado, que saiu mesmo debaixo de chuva, teve paradas em frente ao Bank Boston e à Fiesp e terminou em frente ao Citibank.

“Há três anos, quando o imperialismo estadunidense despejou bombas sobre o povo americano, estava expressando, antes de mais nada, os interesses do grande capital internacional. A guerra no Iraque é a mesma expressão dos interesses do capitalismo que gera a crise na França, levando à juventude a transformar Paris na cidade luz da chama da resistência, e que no Brasil destrói a Amazônia. Se engana quem acha que o problema está só lá fora”, afirmou Dirceu Travesso, da direção nacional do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), lembrando a tentativa de implementação da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas no continente. “Aqui no Brasil, a burguesia cumpre os mesmos interesses do capitalismo. E o país manda tropas para o Haiti. Precisamos de um programa que rompa com esse imperialismo”, cobrou Travesso.

Para os manifestantes, o envio de soldados brasileiros para a missão da ONU no país caribenho não representa a solidariedade concreta que o país podia manifestar em relação ao Haiti, e sim algo que fere a soberania nacional em nome dos objetivos norte-americanos. “Não queremos soldados do Brasil no Haiti nem nos morros do Rio de Janeiro. As forças armadas brasileiras têm que estar prontas para enfrentar o imperialismo que toma conta das nossas terras, da Amazônia, do Aqüífero Guarani... Se há uma disposição para o enfrentamento, é isso que deve ser feito”, defendeu o representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Marcelo Rogério, que completou: “os empresário da Fiesp têm as mãos sujas do sangue do povo iraquiano também, porque têm relações orgânicas com aqueles que sustentam a guerra no Iraque”.

O ato também lembrou o papel de cada cidadão e cidadã no combate à política militarista do Estados Unidos. O Movimento Boicote a Bush distribuiu cópias de notas de dólares com informações sobre as seis maiores empresas doadoras ao governo norte-americano – Altria (ex-Phillip Morreis, Kraft Foods), Exxon-Mobil (Esso), Chevron-Texaco, Pepsi Co, Coca-Cola Company e McDonald´s – pedindo que a população deixe de comprar seus produtos e, assim, diminua a força dessas companhias dentro da administração Bush. De acordo com uma pesquisa realizada no ano passado pela Global Market, 20% dos consumidores na Europa e no Canadá já estão boicotando os produtos norte-americanos como uma forma de protesto contra a guerra no Iraque.

“A gente acha que não pode fazer nada, mas o interesse primeiro deles é o dinheiro, e contra isso temos esta arma: não comprar produtos que, em forma de remessa de lucros e royalties, vão se transformar no futuro em bombas”, explicou Emerson Prado, mais conhecido como Grilo, do Movimento Boicote a Bush.

A manifestação, que terminou com uma mística e um disparo de ovos com tinta vermelha nas paredes do Citibank, também foi solidária à resistência palestina, contra o ataque ao Irã e às ameaças à Venezuela.

PROTAGONISMO FEMININO
A campanha “Mulheres dizem não à guerra”, lançada nos Estados Unidos pelo grupo Code Pink, está recolhendo assinaturas em todo mundo pedindo o fim da invasão do Iraque. No “Chamado das Mulheres pela Paz”, elas afirmam que este não é o mundo que querem para as mulheres e para seus filhos, pedem o fim do derramamento de sangue e da destruição e que os recursos dos países sejam usados para garantir as necessidades básicas das famílias, e não para o financiamento da guerra. As feministas também reivindicam a representação das mulheres no processo de construção da paz e o compromisso com a igualdade completa da mulher no Iraque após o término da guerra. Exigem ainda que o controle do petróleo e dos outros recursos naturais do Iraque esteja nas mãos dos iraquianos, e denunciam as leis de privatização e desregulamentação impostas sob a ocupação.

No Brasil, o abaixo-assinado é coordenado pela Marcha Mundial das Mulheres, uma rede feminista que reúne organizações que luta pela igualdade de gênero em todo o país. A Marcha realizou uma mística em frente ao Bank Boston durante o ato deste sábado, que simbolizou a resistência dos povos às políticas militaristas e imperialistas de Bush e mostrou como a mulher é uma das principais vítimas dos conflitos armados.

“As políticas neoliberais e militaristas são uma forma de organização da sociedade machista. E, nas situações de guerra, as mulheres são as maiores vítimas. Há casos extremos de campos de concentração de estupros, às vezes organizados pelo próprio aparelho estatal, usados como extensão do território de guerra. Uma pesquisa também mostrou que as bases militares americanas em vários países são as maiores compradoras daquilo que chamamos de pornografia radical. Trata-se, portanto, de uma guerra imperialista associada à exploração das mulheres”, explica Julia Dei Giovanni, da Marcha Mundial das Mulheres.

“No Brasil, nos sentimos distantes da guerra, mas é importante ver como a política de militarização se expressa de outras formas, desde a privatização do espaço público até à violência nas cidades. Embora essa violência não apareça como guerra aguda, ela começa a ser naturalizada; a militarização começa a ser vista como normal na organização da sociedade, nessa guerra crônica que a gente vive. É isso que precisamos denunciar”, completa Julia.

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