Movimentos Sociais

Campesinos querem levar a Cancún o espírito de Seattle

24/01/2003 00:00

Foi o tempo em que trabalhadores rurais se preocupavam apenas com a questão da terra. A Via Campesina, maior organização mundial da classe, quer também politizar a luta. A pauta é ampla: vai do repúdio à Organização Mundial do Comércio (OMC) ao militarismo dos Estados Unidos. A organização terá representantes em alguns dos principais eventos do Fórum de Porto Alegre, como o brasileiro João Pedro Stédile (conferência “Terra, Território e Soberania Alimentar”, no dia 24) e o boliviano Evo Moralles (conferência “Como enfrentar o Império?”, no dia 27).



A definição contra a guerra e o militarismo foi tomada durante a primeira Assembléia Mundial da Via Campesina, que terminou nesta quinta-feira (23), em Porto Alegre. O encontro reuniu 350 delegados de 40 países e serviu para afinar o discurso da entidade durante o Fórum e organizar um novo cronograma de mobilizações.



Na agenda de 2003, o principal alvo será a quinta reunião ministerial da OMC, marcada para Cancún (México), em setembro. A liberalização da política agrícola e dos serviços está na pauta. De acordo com o holandês Nico Verhagen, secretário-geral da Via Campesina, a inserção do movimento popular camponês da luta política é inevitável. “Desde que a política agrícola mundial passou a ser pauta da OMC, em 1994, fomos obrigados a enfrentar a imposição de um modelo que prega uma agricultura intensiva, a concentração da produção e a própria eliminação dos camponeses”, justifica.



O projeto é repetir as mobilizações de Seattle, em 1999, quando aconteceu a terceira reunião ministerial da OMC. O tamanho e a intensidade dos protestos populares impulsionaram o movimento antiglobalização neoliberal em todo o mundo. Nascia então o espírito de Seattle. “Se políticas passaram a ser definidas globalmente, nossa luta também tem de ser global”, diz Verhagen.



Se as ações de Cancún chegarem ao porte de Seattle, alguns analisam que podem ser a pá de cal nas pretensões agrícolas da OMC. O próprio diretor-geral da organização, Supachai Panitchpakdi, admitiu que as negociações preparatórias estão lentas e alguns países ainda não deixaram claro suas posições. Mesmo assim, a delegação dos Estados Unidos presente na Via Campesina manifestou preocupação com o poder de barganha do governo do presidente George W. Bush. Isso porque entre 23 e 25 de junho, pouco antes do encontro da OMC, os Estados Unidos reunirão em Sacramento centenas de ministros da Agricultura e do Meio Ambiente de diversos países do mundo para finalizar o período preparatório.



O Ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, compareceu ao encerramento da Assembléia Mundial, elogiou a luta do movimento campesino, mas disse que o governo ainda não fechou posição sobre a OMC. “Nós iniciamos um processo de discussão no governo, mas ainda não temos uma posição. Todos os ministérios participam das discussões sob o comando do Itamaraty, entre eles o da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário. A política deverá mudar em relação ao governo Fernando Henrique, mas o debate ainda está aberto”, diz Rossetto.



A Via Campesina defende a retirada do tema da agricultura da OMC. “Política agrícola é um tema dos governos nacionais. Hoje em dia, apenas 10% da produção mundial de alimentos do mundo é comercializada no exterior”, diz Verhagen. Mas para o professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Bernardo Mançano, que está fazendo uma pesquisa sobre a evolução do movimento camponês, a Via Campesina será obrigado a sugerir uma outra instância para o debate, como a Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO). “Não tem jeito, o mercado internacional e a pressão política vão continuar existindo”, diz.



Sementes, patrimônio da humanidade




No dia 26, a Via Campesina lança em Porto Alegre a campanha “As sementes são patrimônio da humanidade”. Durante o Fórum, camponeses de todo o mundo farão a troca simbólica das sementes, em um protesto contra os alimentos transgênicos e a lei de patentes. “Esse é um dos conflitos centrais para os camponeses, já que as multinacionais do setor chegam a ter controle sobre a produção por causa da engenharia genética e a lei de patentes. Somos contra a propriedade privada e intelectual dos alimentos. A troca de sementes simboliza que elas não têm dono”, diz Verhagen.



Segundo ele, a luta da Via Campesina saíra fortalecida do Fórum de Porto Alegre. “O Fórum é um espaço para encontros, por exemplo, de movimentos camponeses com entidades de defesa dos consumidores, que podem se unir contra as políticas neoliberais”, diz o secretário-geral da Via Campesina.



“O Fórum é importante pois precisamos dele para darmos uma reposta única a políticas que destroem o mundo camponês”, diz a Belen Torres, da Associação Nacional de Camponeses União e Reconstrução da Colômbia. Belen é refugiada política e mora desde 1997 em Bruxelas, na Bélgica, onde cuida da área de relações internacionais de sua entidade. Ela era presidente da Associação e recebeu ameaças de morte depois ocupar latifúndios na Província de Casanare.



Já Stephen Bartlett, que produz hortaliças e mantém uma escola de agricultura urbana no Kentucky (EUA), acredita que o Fórum pode impulsionar a campanha contra a Alca. Segundo ele, a Alca é parte de uma agenda que está destruindo os pequenos produtores em todo o mundo, inclusive os norte-americanos. “A Alca incentivará a industrialização dos alimentos, o que reduz a qualidade, e ampliará o processo que deixa os pequenos produtores praticamente de fora da política de subsídios do governo norte-americano. Nos EUA, cerca de 80% dos subsídios vão para 5% dos produtores”, critica.



Bartlett organizou a vinda de 15 norte-americanos a Assembléia Mundial da Via Campesina e ao Fórum de Porto Alegre. “Trouxe agricultores de vários regiões, como Washington e Flórida, Massachussets. Viemos para conhecer a Via Campesina, fortalecer nossa rede e enriquecer nossos processos educativos”, diz Bartlett, que lidera o movimento Alternative Food Economy Organizer.




Serviço




Os seguintes eventos do III Fórum Social Mundial contarão com representantes da Via Campesina:



Dia 24, às 15h30, no Gigantinho

Conferência “Terra, Território e Soberania Alimentar”, com João Pedro Stédile, Francisca Rodrigues e Peter Rosset



Dia 25, às 20h30, no Auditório Araújo Viana

Lançamento do jornal “Brasil de Fato”



Dia 27, às 16h00, no Gigantinho

Conferência “Como enfrentar o Império?”, com Evo Moralles, Noan Chomsky e Arundathi Roy




Conteúdo Relacionado