Movimentos Sociais

Começa encontro na capital do outro mundo

23/01/2003 00:00

Porto Alegre – “Não há mais lugares, sinto muito”. A frase é quase uma senha repetida à exaustão pelos recepcionistas dos hotéis de Porto Alegre nos últimos dias. A cidade, tradicionalmente esvaziada nesta época de férias escolares, recebe, há três anos, uma população flutuante que agora deve superar a marca de 100 mil pessoas. Táxis, restaurantes, ônibus, todos andam lotados. Sim senhor: o Fórum Social Mundial, principal evento mundial contra a chamada globalização neoliberal é, além de tudo, um bom negócio.



Caro e barato

Segundo a organização do Fórum, um total de US$ 23 milhões serão movimentados nestes cinco dias, entre aportes da prefeitura, governo do Estado e gastos dos próprios participantes. Caro? Sim, este dinheiro representa cerca de R$ 80 milhões. Barato? Sim, também, se dividirmos o montante pelo número de delegados: R$ 800 por cabeça.
Uma pechincha, se pensarmos no impacto político e social que o evento vem tendo desde sua primeira edição, há dois anos.



Marco decisivo

De 30 mil participantes, em 2001, o Fórum saltou para 65 mil, no ano seguinte, até atingir as marca atual. Como formulador de políticas e gerador de intercâmbio de experiências, o evento tornou-se referência na agenda política mundial. “Um marco decisivo na luta contra o neoliberalismo”, segundo o presidente cubano Fidel Castro. “A coisa mais importante que vem acontecendo internacionalmente”, analisa o sociólogo venezuelano Edgardo Lander”. “A reunião dos malucos do mundo contra a assembléia dos pretensos donos do mundo”, define o lingüista norte americano Noam Chomsky.



Principal tentativa

Na verdade, a importância de Porto Alegre reside no fato do evento ser a principal tentativa de se amalgamar um sentimento de revolta e contestação que se espalhou por diversos países, desde a batalha entre manifestantes e a polícia nas ruas de Seattle, EUA, em 1999, durante uma reunião da Organização Mundial de Comércio.

Este ano, o Fórum tem duas características marcantes. A primeira é uma contestação aberta à guerra planejada pelo governo Bush contra o Iraque. A segunda deve-se à eleição de Lula, no Brasil, acontecimento que de certa forma sacramenta aos olhos do mundo uma negação à globalização neoliberal.



Ocupação

A capital gaúcha vive dias de cidade ocupada por uma colorida e multifacética multidão que engloba, dentre outros, quase 20 mil brasileiros, 700 franceses, 750 argentinos, 600 italianos e 1100 norte-americanos. Norte-americanos? Exatamente. A chamada sede do império envia seus contestadores, que formam a segunda maior delegação presente, perdendo apenas para a brasileira. Os interesses se espalham entre os 1.710 debates programados para as 300 salas da Pontifícia Universidade Católica e pelos armazéns do Cais do Porto, do estádio do Gigantinho e do acampamento da juventude, que abrigarão as conferência principais.



Quem vem

São dias de trabalho, muito trabalho. Um dos que está na cidade é o filósofo húngaro István Meszáros, 84 anos, um dos principais pensadores marxistas da atualidade, autor do festejado “Para além do capital” (Boitempo Editorial), um alentado cartapácio de 1.100 páginas, no qual procura mostrar que as teses da revolução social estão longe de virarem peça de museu. Junto com ele, exporão suas idéias Eduardo Galeano, Tariq Ali, Samir Amin, Evo Morales, Sebastião Salgado, Noam Chomsky, João Pedro Stédile, Adolfo Perez Esquivel e muitos outros.



Woodstock

Mas o Fórum Social também tem seu lado Woodstock, nome da cidade norte-americana que abrigou o famoso festival de rock, em 1969. Nada menos que 30 mil pessoas aglomeram-se no acampamento da juventude, no Parque Harmonia, área de 250 hectares onde também ocorrerão debates e uma intensa programação cultural. Coleta seletiva de lixo, segurança e administração autogestionária fazem do acampamento uma atração à parte.



Abertura insolente

A abertura solene do Fórum acontecerá na tarde de hoje, na PUC, com a presença de autoridades e personalidades. A abertura insolente terá lugar nas ruas de Porto Alegre: uma imensa marcha, intitulada “Construindo outro mundo, contra a militarização e a guerra” terá início às 18 horas, saindo do Largo Glênio Perez, no centro da cidade. Seu destino será o anfiteatro do Pôr-do-sol, onde uma programação de shows inclui Paulinho da Viola e Sivuca.



Contraponto

O Fórum Social Mundial surgiu como um contraponto ao Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, Suíça. Reconhecido mundialmente como o foco das formulações neoliberais, o evento europeu, realizado sob pesadíssimo esquema de segurança, é hoje um convescote desmoralizado. A própria prefeitura da cidade cogita em não mais abrigá-lo, tais os transtornos que provoca.



Consenso

Em Porto Alegre esta pendenga soa mais distante do que os 12 mil quilômetros que separam as duas cidades. A diversidade aqui pode ser imensa. Mas há um consenso no ar: um futuro melhor para a humanidade terá muito mais a cara dos participantes dos acontecimentos do sul do Brasil do que os da cidadezinha encravada nos Alpes suíços.



*Colaboraram Katarina Peixoto, Denise Mantovani e Marcelo Auler

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