Movimentos Sociais

Comunidades carentes criam negócios alternativos

26/01/2003 00:00

São 1.371 restaurantes espalhados pelo território peruano nos quais cinco mil mulheres preparam e servem cerca de 170 mil refeições por dia - não, não se trata de mais uma rede de fast food a la McDonalds. O negócio é uma bem sucedida iniciativa da ONG Grupo Red de Economia Solidária del Peru (Gresp), que visa combater a fome e gerar trabalho e renda para comunidades pobres. O projeto proporciona três refeições diárias, ao custo de 30 centavos de dólar cada, às cinco mil mulheres que desempenham diferentes funções na rede de restaurantes. O lucro das demais refeições, vendidas a um dólar à população em geral, é repartido entre as trabalhadoras, proporcionando rendimentos complementares de cerca de 30 dólares por mês. Esse exemplo ilustra a importância da economia solidária como instrumento de luta contra a fome, a pobreza e a exclusão social.



Mas não é só isso. “Vejo a economia solidária como alternativa ao capitalismo. Uma proposta socialista de organizar a economia de uma forma autogestionária, democrática e igualitária”, diz Paul Singer, economista e recém-nomeado Secretário Nacional de Economia Solidária do governo Lula, que esteve neste final de semana na capital gaúcha para a abertura da oficina de construção do Fórum Brasileiro de Economia Solidária dentro das atividades do III Fórum Social Mundial.



Iniciativas de economia solidária têm se espalhado pelo mundo nas últimas duas décadas. Estimativas da Comunidade Européia indicavam, em 1995, a existência de mais de um milhão de associações na Europa, reunindo de 30 a 50% da população, dependendo do país. Só a França conta com 750 mil associações que empregam 1,27 milhão de assalariados.Lá os movimentos associativos, proliferados na Europa nos anos 70 em decorrência da crise econômica e do desemprego, amadureceram a ponto de criar um banco cooperativado. Em 2000, foi nomeado o primeiro ministro de economia solidária daquele país e, a partir daí, políticas públicas de apoio a esse tipo de economia passaram a ser adotadas. O sucesso pode ser medido pelo resultado do banco, que, em ação conjunta com outros quatro grandes bancos franceses arrecadou, apenas em 2001, 280 milhões de dólares, o que possibilitou a criação de seis mil empresas e 15 mil empregos.



Na África, os projetos solidários aparecem como forma de organização da economia informal, que hoje garante a sobrevivência de 80% da população. No Sul da Ásia, a força está nos movimentos de microcrédito. “A economia solidária pode se tornar um importante motor econômico, mas só em sociedades democráticas, cujos governos garantam reformas nas instituições e menor controle das grandes empresas sobre a economia”, afirma a filipina Niceta Lucero da Confederação Mundial do Trabalho Regional Ásia que participou, com repesentantes de 20 redes mundiais, do painel “Economia Solidária como estratégia de desenvolvimento humano” do III FSM.



O assunto cresce em importância no mundo e no Fórum Social Mundial. Em 2001, a economia solidária esteve presente em duas oficinas. No II FSM, o tema foi colocado em discussão em variados painéis e motivou a elaboração, pelo Comitê Brasileiro, de uma proposta de apoio à economia solidária. Neste ano, o assunto saiu das discussões teóricas e ganhou a prática na Rede Solidária do Fórum, composta de 37 associações. Por todo o evento, estão espalhados cerca de 415 empreendimentos disponibilizando alimentação, artesanato e bazar de forma solidária e sustentável.


Segundo o coordenador da Rede Solidária, Milton Pantaleão cerca de 5000 trabalhadores estão envolvidos na produção de bolsas, camisetas e certificados e outras atividades que prometem arrecadar R$5 milhões nos seis dias do FSM. O Acampamento da Juventude é uma verdadeira cidade auto-gestionária, onde pequenos grupos compartilham responsabilidades e dividem lucros atuando na segurança, alimentação, reciclagem de lixo e manutenção do local.


O cenário Brasileiro



A economia solidária atingiu uma dimensão surpreendente no Brasil. À parte a importância adquirida dentro do Fórum Social Mundial, chegou aos movimentos sindicais, à igreja e às universidades. Como não há estatísticas oficiais sobre o setor, uma das prioridades de Paul Singer como Secretário Nacional será, em parceria com o Fórum Brasileiro de Economia Solidária e institutos de pesquisa como IBGE e IPEA, fazer um mapeamento da diversidade e volume de produção do conjunto de empreendimentos no país.



Uma das preocupações do novo secretário é a proliferação de falsas cooperativas, impostas aos trabalhadores. Um dos maiores desafios será enfrentar o preconceito e o desconhecimento em relação ao que significa economia solidária e sua importância de protagonista na construção de um desenvolvimento democrático. No Brasil, na avaliação de Singer, a economia solidária ainda é uma atividade econômica rival das empresas capitalistas. Já no continente europeu, a solidariedade econômica está ligada ao terceiro setor e as ONGs, em forma de cooperativas, recebem recursos públicos para ajudar na área de saúde, educação e outras políticas normalmente desenvolvidas pelo governo.



“Na Europa e na América do Norte, a economia solidária está ocupando um lugar crucial estratégico na luta por outro capitalismo”, diz Singer. África, Índia e países da América Latina começam a trilhar o mesmo caminho. “É um movimento ascendente que vai se desenvolver e transformar. O papel dos governos é auxiliar”, afirma em tom de compromisso. Uma coisa é certa: a criação de uma Secretaria Nacional de Economia Solidária ligada ao Ministério do Trabalho é um passo importante em direção ao amadurecimento de um novo modelo político e econômico de mercado que pode funcionar como laboratório para o Terceiro Mundo.



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