Movimentos Sociais

Correntes majoritárias querem mudanças na política econômica

06/06/2006 00:00

SÃO PAULO – A maior tendência interna da Central Única dos Trabalhadores (CUT) apresentou um documento ao 9º Congresso Nacional da entidade em que defende a reeleição do presidente Lula, mas critica a política econômica em vigor. A Articulação Sindical, grupo ao qual pertence o atual presidente cutista João Antonio Felício, e que deve indicar seu sucessor, critica o uso “a ferro e fogo” do regime de metas de inflação, considerado o responsável pelos juros altos da economia e pelo baixo crescimento dos últimos anos.

“Esta política monetária – que torna a taxa básica de juros função automática da evolução dos níveis de preços – produziu a maior taxa de juro real do mundo, impondo limites ao Brasil no aproveitamento das potencialidades oferecidas por um cenário mundial singularmente favorável”, diz o documento, chamado “Fortalecer a Democracia e Valorizar o Trabalho” e distribuído para os 2500 delegados de todos os Estados brasileiros que participam do Congresso. O texto poderá ser emendado até o final do encontro, na sexta-feira (9).

Baseada em dados do IBGE e do Dieese, a Articulação Sindical reconhece que houve avanços. Cita, por exemplo, a redução da pobreza entre 2003 e 2004, resultado da retomada do crescimento econômico e das políticas sociais implementadas. Mas demonstra preocupação com o futuro próximo. “A valorização do Real, fruto das altas taxas internas de juros, do rígido sistema de metas de inflação e da própria geração de volumosos superávits comerciais aponta para um cenário menos otimista”, diz.

A Corrente Sindical Classista (CSC), que tende a compor chapa com a Articulação, também defendeu mudanças na política econômica em seu documento apresentado no 9º Congresso. No texto chamado “Repactuação pelas mudanças: por um projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho e distribuição de renda”, o grupo afirma que Lula, apesar da vitória em 2002, “não reuniu convicção, forças nem condições políticas para implementar um novo projeto de desenvolvimento que avançasse para a superação do neoliberalismo”.

A CSC reconhece o caráter contraditório existente no interior do governo. Cita, como exemplo, “a linha ortodoxa dos posicionamentos teóricos e práticos das equipes que ocupam o Ministério da Fazenda e o Banco Central, em contraposição às orientações e idéias prevalecentes em outras áreas como a Casa Civil, no BNDES, no Itamaraty e no Ministério da Ciência e Tecnologia”. E defende projetos que já foram apresentados pelos sindicalistas ao governo, mas que ainda não saíram do papel, como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e uma política permanente de valorização do salário mínimo.

A crítica, seja aquela feita pela Articulação, onde se concentram militantes do PT, seja a da CSC, que agrupa os do PCdoB, indica os pontos de vista que a direção cutista deverá defender na formulação do projeto de reeleição de Lula. Para isso, contam com um apoio imediato dentro do governo - o ministro do Trabalho e ex-presidente da central Luiz Marinho.

Que fique claro, porém, que o apoio a Lula não está em negociação nessa disputa por projetos. A CUT estará com ele, pois a outra opção seria o retorno do PSDB, justamente quem consolidou o modelo econômico em vigor no país, segundo os sindicalistas. Assim, a mudança nos rumos da economia não é uma condição para o apoio cutista, mas objeto de uma disputa que a central pretende travar. Diz a Articulação:

“Conviveremos nesse próximo período com dois cenários, claramente demarcados: de um lado, a possibilidade de continuidade de um projeto democrático-popular, mesmo com todas as suas insuficiências e agravado por uma dificuldade em manter maioria no parlamento, encarnado na figura de LULA; de outro, a volta da direita, encarnada pelo conservadorismo do PFL, PSDB e seus aliados”.

A CUT é a quinta maior central sindical do mundo, com quase 3500 entidades filiadas. Entre as pautas do 9° Congresso estão as discussões sobre os rumos do sindicalismo brasileiro, a escolha do novo presidente da central para os próximos três anos e a definição da maneira em que se dará o apoio a Lula durante a campanha de reeleição. A seguir, a programação completa:

5 de junho (segunda-feira)

16h às 21h00 – Credenciamento das delegadas e dos delegados efetivos
19h30 – Ato e Solenidade de Abertura do 9º Concut
21h – Atividade Cultural

6 de junho (terça-feira)

9h às 18h – Credenciamento das delegadas e dos delegados e efetivos
9h às 10h30 - Composição da mesa coordenadora dos trabalhos, leitura, debate e aprovação do Regimento Interno
10h30 às 11h - Apresentação, debate e votação dos recursos
11h às 13h30 – Conjuntura Internacional e Nacional - Apresentação dos Textos
13h30 às 15h – Almoço
15h30 às 18h – Conferência “A CUT e seu papel na construção de um projeto de desenvolvimento nacional, relação com governos democrático-populares e movimento social”. Conferencistas: Antonio Negri, filósofo italiano, professor titular aposentado da Universidade de Pádua (Itália) e do Colégio Internacional de Paris; e Emir Sader, sociólogo, professor e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj.
18h30 – Lançamento de Campanhas da CUT

7 de junho (quarta-feira)

9h às 12h – Credenciamento das delegadas e dos delegados efetivos
9h – Composição da Mesa Coordenadora dos Trabalhos
9h30 às 11h – Balanço do Mandato da Direção – gestão 2003/2006
Apresentação dos Textos
11h às 13h30 – Estratégia da CUT / § Eixo 1 . Eleições 2006 – o papel da CUT frente aos projetos em disputa / Debate e votação das resoluções
13h às 15h – Credenciamento das delegadas e dos delegados suplentes
13h30 às 15h – almoço
15h às 18h30 – Estratégia da CUT / § Eixo 2. Emprego, Salário, Desenvolvimento e Inclusão Social / § Eixo 3. Democratização do Estado, Políticas Públicas e Universalização de Direitos / Debate e votação das resoluções

8 de junho (quinta-feira)

9h – Composição da Mesa Coordenadora dos Trabalhos
9h30 às 13h – Estratégia da CUT / § Eixo 4. Fortalecimento da Estrutura e Organização da CUT / Debate e votação das resoluções
13h às 14h30 – almoço
14h30 às 16h – Estratégia da CUT / § Eixo 5. Relação com os movimentos sociais / Debate e votação das resoluções
16h às 18h30 – Estatuto

9 de junho (sexta-feira)

9h – Composição da mesa coordenadora dos trabalhos
10h – Encerramento do prazo para inscrição de chapas concorrentes à eleição da Direção Executiva Nacional e Conselho Fiscal.
9h às 10h – Plano de Ação e de Lutas
10h às 11h30 – Eleição da Direção Executiva Nacional e Conselho Fiscal
Apresentação e Defesa das Chapas
12h às 13h – Moções
11h30 – 14h30 – Coleta de Votos e Apuração
15h – Divulgação do Resultado da Eleição / Posse da Direção Executiva Nacional da CUT e Conselho Fiscal – gestão 2006/09


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