Movimentos Sociais

Duas gerações de esquerda unem-se contra o Império

26/01/2003 00:00

Duas gerações de esquerda encontram-se no Fórum Social Mundial. Uma delas carrega a experiência acumulada ao longo do século XX, que teve na revolução soviética seu principal triunfo e, na decomposição desta, seu mais retumbante fracasso. Ligada historicamente à tradição clássica dos partidos comunistas e socialistas, essa geração chegou ao final do século derrotada pela hegemonia neoliberal e disposta a encontrar novos caminhos. A outra geração é formada por uma juventude desesperançada que mostrou, a partir de Seattle principalmente, sua inconformidade com o atual estado de coisas no mundo, e por novos movimentos sociais que agruparam alguns dos setores mais atingidos pelo modelo econômico neoliberal. Essa segunda geração tem em comum, entre outras coisas, uma desconfiança quanto à capacidade dos partidos políticos de esquerda atender suas demandas.
Nas duas primeiras edições do FSM, essas gerações encontraram-se, num clima ao mesmo tempo de cordialidade e desconfiança. Agora, no III FSM, começa a surgir um esforço de síntese e aproximação das diversas correntes políticas mundiais de esquerda e também das diversas gerações. Esse é o objetivo central do simpósio “O Mundo Pós-Neoliberal”, que iniciou sábado, dia 25, no Centro de Eventos da PUC, com um grande público, um indicativo da urgência e pertinência do tema.


Na abertura do simpósio, o deputado e dirigente nacional do PT, Raul Pont, estabeleceu uma relação entre os objetivos do debate e o acúmulo político do Fórum Social Mundial, desde sua primeira edição, em 2001, até aqui. Segundo Pont, as duas primeiras edições do FSM avançaram muito no diagnóstico de problemas e na troca de experiências. Essas experiências, acrescentou, enriqueceram as capacidades de reflexão e de sistematização da ação política. No entanto, ressaltou o deputado petista, os diagnósticos feitos até aqui apresentam carências teóricas e programáticas que precisam ser preenchidas. Uma das pretensões centrais do simpósio é justamente a de desencadear um debate sobre carências teóricas e programáticas detectadas no processo de discussões e atividades do FSM.


O fracasso da política tradicional


As carências do FSM, na verdade, confundem-se com as da esquerda. O escritor, jornalista e ativista político, Tariq Ali, apontou uma delas, que afeta principalmente os partidos políticos. "Este ano, temos milhares de pessoas a mais em Porto Alegre, o que indica algo que está faltando em outras partes do mundo. Essa carência está associada ao fracasso da política tradicional e dos partidos políticos, especialmente na Europa e na América do Norte, que não consegue satisfazer necessidades básicas da população", disse Ali, diretor da revista New Left Review. Segundo essa análise, a crise dos partidos tradicionais de esquerda se expressa na perda de espaços institucionais e na diminuição significativa da capacidade de interação com os setores sociais mais atingidos pelas políticas neoliberais.
A crise que afeta a maioria dos partidos da esquerda européia explica parcialmente, observou ainda Ali, o crescimento vertiginoso dos movimentos anti-globalização e, mais recentemente, do movimento pacifista que está surgindo na Europa. "Normalmente", assinalou o escritor paquistanês radicado na Inglaterra, "os movimentos pacifistas surgiam depois de iniciada a guerra e não antes". Foi o caso, por exemplo, da guerra do Vietnã, que só foi encontrar resistência dentro dos Estados Unidos após um longo tempo de combate. Para Ali, o surgimento precoce de um forte movimento pacifista na Europa e em outras regiões do mundo, protestando contra o iminente ataque dos Estados Unidos ao Iraque, reflete também a desconfiança desses setores sociais com a capacidade dos partidos políticos enfrentarem o tema da guerra.


O sentido do lema “o mundo não é uma mercadoria”


E a guerra lança um novo desafio à esquerda mundial, que recém acaba de lamber as feridas da derrota no final do século XX. Como enfrentar o poderio do Império – palavra que começa ser consolidada como melhor expressão conceitual do poderio e da ação política dos EUA – de um modo consistente e capaz de formular alternativas viáveis politicamente. A reunião proporcionada pelo Fórum Social Mundial fornece uma oportunidade rara para essa reflexão. Na maioria dos debates sobre a guerra realizados até aqui no III FSM, a luta em favor da paz está sendo associada à crítica ao atual sistema econômico mundial. O iminente ataque dos EUA ao Iraque e a falência do Consenso de Washington são analisados como duas faces da mesma moeda. As duas gerações presentes ao encontro começam a reconhecer-se como agentes de uma mesma luta, que tem um forte caráter anti-capitalista. Daniel Bensaid, professor da Universidade de Paris, observou que o lema “O mundo não é uma mercadoria” expressa o reconhecimento de que estamos entrando em uma crise civilizatória marcada pela tríade consumo, irracionalidade e violência. “Nunca a alternativa entre socialismo e barbárie foi tão atual”, disse Bensaid, um antigo lutador da velha geração.


Tariq Ali concordou com Bensaid e apontou aquelas que considera ser as três principais marcas do capitalismo no século XX: a crença na supremacia do consumo, a especulação como eixo central da atividade econômica, e a depredação da esfera pública. A hegemonia resultante desse modelo, acrescentou o escritor, tem um lado político e um cultural. Esse último manifesta-se por um sistema de comunicação e produção simbólica que trabalha sistematicamente para despolitizar a população. Ali citou o caso paradigmático da Itália, onde praticamente toda a rede de televisão é de propriedade do político que controla o governo. “O objetivo é baixar o nível político e cultural até o chão. Temos um sistema midiático que diz: as únicas coisas importantes do mundo são comprar e f...(verbo normalmente impublicável). Sou a favor das duas coisas, mas não penso que elas devam ser transformadas em filosofia”, concluiu.


O comentário de Tariq Ali estabelece uma ponte entre a hegemonia política e simbólica do neoliberalismo e a crise dos partidos de esquerda tradicionais. Segundo ele, socialistas, comunistas e social-democratas não conseguiram dar uma resposta satisfatória a essa hegemonia. “Os social-democratas promoveram algumas das piores privatizações da Europa. Com políticos desse tipo, você pode fazer duas coisas: cuidar de si mesmo ou buscar novas formas de ação política. Essa juventude que está nas ruas protestando contra a guerra e o neoliberalismo optou pela segunda”. Ali deixa claro sua posição sobre o que fazer: “fica cada vez mais clara a incompatibilidade entre capitalismo e democracia. Os EUA estão se lixando para a questão da criação de uma ordem democrática global. O que importa é defender os interesses do Império a qualquer custo. Por isso, criar alternativas socialistas ao capitalismo global é a principal questão com a qual nos defrontamos; imaginar o contrário é uma ilusão utópica”.


O que fazer?


Na linha clássica do “que fazer?”, o sociólogo argentino Atílio Borón, coordenador do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso), enumerou três condições para construir a alternativa defendida por Ali. “Precisamos de uma boa teoria, agentes sociais e um programa”, sintetizou. Borón não hesitou em citar uma velha máxima do movimento comunista internacional – “sem teoria revolucionária não há prática revolucionária” -, admitindo que a esquerda apresenta importantes carências nesse ponto. O surgimento de um novo tipo de esquerda no início do século XXI é, também, uma expressão dessa carência, de uma dificuldade em diagnosticar corretamente as mudanças ocorridas no mundo e, a partir daí, definir estratégias de ação. Borón reconheceu o surgimento de novos agentes sociais anti-capitalistas, que não são mais oriundos do velho proletariado industrial, constituindo um movimento muito mais plural, difuso e autônomo. Em um certo sentido, as palavras de Borón, Ali e Bensaid, definem o Fórum Social Mundial como um ponto de encontro entre a esquerda clássica do século XX e a nova esquerda do século XXI. Para o sociólogo argentino, é preciso construir um programa mínimo, de caráter anti-capitalista, que articule essas duas gerações e unifique suas lutas. “A solução para os males do capitalismo não está dentro do capitalismo”, defendeu. E fez uma advertência final, dialogando com o tema das carências teóricas e programáticas, apontado por Raul Pont na abertura do encontro: “a esquerda tem uma tendência patológica a equivocar-se; a direita nunca erra”.










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