Movimentos Sociais

Em ação nesta madrugada, mulheres destroem viveiro da Aracruz no RS

08/03/2006 00:00

Verena Glass

Créditos da foto: Verena Glass
PORTO ALEGRE – Cerca de 2 mil agricultoras ligadas à Via Campesina realizaram uma ação relâmpago na madrugada desta quarta (8) nas dependências da empresa Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro (RS), município que fica a cerca de duas horas de Porto Algre. O ato, que também comemorou o dia internacional da mulher, foi um protesto contra a expansão da monocultura de eucalipto no estado do Rio Grande do Sul, atividade que vem crescendo vertiginosamente e que, segundo as agricultoras, tem transformado a região em um deserto verde improdutivo do ponto de vista da soberania alimentar.

Transportadas por 37 ônibus até a área de viveiros da Aracruz, a mulheres, na noite ainda cerrada, destruíram estufas e bandejas de mudas de eucalipto em uma ação que, em si, não demorou mais de 20 minutos. Ação encerrada, as agricultoras voltaram para Porto Alegre para participar da marcha comemorativa do 8 de março da Via Campesina.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, reprovou, na tarde desta quarta, a ação no horto florestal da Aracruz Celulose. Ao condenar a atitude, Rossetto disse que ações dessa natureza nada têm a ver com o programa de reforma agrária e que, portanto, esse é um assunto que deve ser tratado pelo Poder Judiciário. Segundo o ministro, essa ação não reflete o ambiente de debate e troca de experiências que está ocorrendo na Conferência da FAO.

CRÍTICA AOS DESERTOS VERDES

Segundo Cristiane Gomes, coordenadora nacional do MST, a crítica aos ‘desertos verdes’ da monocultura de eucalipto, que ocupa grandes extensões de terra que, outrossim, poderiam ser utilizadas para produção de alimentos por família a espera da reforma agrária, vem se fortalecendo entre os movimentos sociais com a ampliação da área de cultivo. Só a Aracruz, afirma Cristiane, planta cerca de 50 mil hectares de eucalipto por dia que, grosso modo, geram apenas um emprego a cada 185 hectares. Com outras duas empresas - a Votorantim e a Stora Enso -, já são cerca de 250 mil hectares a área ocupada por eucalipto no estado

"Se o deserto verde continuar crescendo, em breve vai faltar água para bebermos e terra para produzir alimentos. Não conseguimos entender como um governo que quer acabar com a fome patrocina o deserto verde ao invés de investir na Reforma Agrária e na Agricultura Camponesa", afirma o manifesto da Via Campesina, elaborado especialmente para ser entregue aos participantes da II Conferencia Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR) da FAO.

BARRADOS PELA PM

De volta a Porto Alegre por volta das 8:00h da manhã, as 2 mil mulheres, seguidas pelos cerca de 1,5 mil integrantes do acampamento da Via Campesina Brasil, montado esta semana por ocasião da CIRADR, marcharam cerca de 5 quilômetros ate a PUC, onde ocorre o evento da FAO, para entregar aos representantes dos 81 paises presentes no evento a sua declaração sobre reforma agrária e desenvolvimento rural.

Na chegada à PUC, houve um curto confronto com a Bragada Militar, que tentou impedir a aproximação das mulheres à entrada da universidade. Um empurra-empurra inicial se transformou e uma pressão dos manifestantes sobre as grades e os policiais, que reagiram com cacetadas e chegaram a espancar alguma mulheres. Por fim, representantes do ministério do Desenvolvimento Agrário e da FAO conseguiram liberar a entrada de 50 representantes. A ministra do Zimbábue, que presidia a plenária, interrompeu os trabalhos para ceder a palavra a duas militantes da Via Campesina, que fizeram a leitura de um manifesto do movimento sob muitos aplausos.

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