Movimentos Sociais

Fortalecer a direita? As ruas e greves pedem sua "fatia do bolo"

Para Natália Szermeta, do MTST, as manifestações querem "uma fatia do bolo que não está chegando para a periferia e para os trabalhadores"

23/05/2014 00:00

Roberto Brilhante

Créditos da foto: Roberto Brilhante

Representantes de categorias em greve e movimentos sociais negam que manifestações e paralisações estejam acontecendo somente por causa da Copa do Mundo e que tenham como objetivo desgastar o governo da presidenta Dilma Rousseff. Entretanto, assumem que o megaevento realça as contradições de um país que financia estádios e obras bilionários, incentiva a especulação imobiliária e continua com sérios problemas de infraestrutura e serviços públicos.

"Estamos sendo atacados e chamados de oportunistas, de usar a Copa para fazer luta. Quero reforçar que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) faz luta e coloca essas pautas há muito tempo. Nós não achamos que seja oportunismo e menos ainda nossa intenção é derrubar ou diminuir a popularidade do governo Dilma. E muito menos alavancar qualquer candidatura de direita. Nós estamos tentando conseguir uma fatia do bolo que está sendo distribuído para todos e não está chegando para a periferia e para os trabalhadores", disse Natália Szermeta, uma das lideranças do MTST.
 
O maior falseamento que se pode fazer da situação do país é negligenciar a eclosão de greves, paralisações e manifestações, principalmente nos grandes centros urbanos: greve de policiais militares em Pernambuco, professores do estado, do município e rodoviários do Rio de Janeiro, 15 mil operários das obras da Petrobrás em Cubatão, professores da rede estadual de Minas Gerais e da prefeitura de Belo Horizonte, paralisações da Justiça Federal em mais de 5 estados, greve nacional da polícia civil nesta quarta-feira, 21, entre muitas outras mobilizações.
 
Nesta semana, São Paulo foi palco de novos atos dos professores municipais e do MTST e foi pega de surpresa pela greve dos motoristas e cobradores de ônibus que pararam a cidade terça e quarta-feira (20 e 21) apesar de seu sindicato. Além disso, funcionários, professores e estudantes da Universidade de São Paulo declararam greve geral para a próxima semana e os metroviários sinalizaram que também podem parar na próxima terça-feira.
 
Algumas categorias, como os professores e funcionários em greve do Rio de Janeiro, decidiram apoiar explicitamente os atos contra a Copa, inclusive se incorporando a eles. Para Tarcísio Motta, ex-diretor do Sindicato Estadual dos Professores de Educação do RJ (Sepe) e professor do Colégio Pedro II (em greve), "os gastos da copa e os desmandos da Fifa evidenciaram o papel dos governos enquanto parceiros dos lucros do grande capital, enquanto os problemas estruturais da população brasileira não são enfrentados. A greve dos Garis, dos operários do Comperj, dos rodoviários estão inseridas nesta conjuntura e abrem a possibilidade real de conquistas históricas para os movimentos sociais”.
 
Outras categorias decidiram pautar a mobilização independente da relação com o megaevento. Os professores municipais de São Paulo disseram que, de acordo com o calendário, estão na data-base de reivindicação de aumento salarial. “O nosso movimento não é contra a Copa, é pela educação. Tanto que dia 14, na assembleia que realizamos, foi votado que nos incorporássemos à manifestação na Paulista e 95% dos presentes foi contra. Lógico que nós não ignoramos as atitudes do governo que deferiu investimentos de recursos públicos na construção de estádios. Eu comparo, lógico. A prefeitura deu 420 milhões para construção do Itaquerão, para a Odebrecht. Com esse dinheiro daria para construir 210 escolas de Educação Infantil”, disse Cláudio Fonseca, presidente do Sinpeem (Sindicato dos Professores do Ensino Municipal de SP).

Os professores continuam em greve pela incorporação aos salários de 15,38% de abono complementar, o que contemplaria todos os servidores. Além disso, pedem a redução do número de alunos por professor na sala de aula (na educação infantil hoje há uma média de 35 crianças por sala), construção de mais escolas, programa voltado à saúde do professor e um projeto de segurança pública para as escolas.
 
 
Copa da especulação imobiliária
Nesta quinta-feira (22), o MTST realizou o ato "Copa sem Povo, tô na Rua de Novo", que reuniu, segundo os organizadores, cerca de 20 mil pessoas – 4 mil segundo a polícia militar.
 

(foto do Mídia Ninja)
 
Para Szermeta, do MTST, "as manifestações têm relação com a Copa: questionar o legado propagandeado pelo governo. O que nós temos visto nas comunidades no dia a dia é que esse legado, principalmente nas cidades-sedes e nas proximidades dos estádios, é o legado da especulação imobiliária, do aumento abusivo dos aluguéis. O governo errou na mão quando propagandeou que a Copa iria trazer um crescimento para o Brasil. Está trazendo na verdade um crescimento para as empresas privadas". Uma das reivindicações do ato é o controle público do reajuste de aluguéis urbanos, estabelecendo o índice inflacionário como teto dos reajustes.
 
Outra pauta do MTST tem a ver com mudanças no Minha Casa Minha Vida, programa do governo federal. Os sem-teto pedem que o governo pague o valor do terreno para as empreiteiras conforme sua localização pois, com valor fixado, a construção de moradias tende a acontecer em locais afastados, onde não há infraestrutura. O MTST promete fazer novos atos até que haja uma resposta do governo federal sobre suas pautas.
 
Mais categorias também estão explorando as contradições do mundial. Exemplo são os metroviários de São Paulo, que iniciaram campanha salarial nesta semana com o mote “Quero Transporte Padrão FIFA! Chega de sufoco, assédio e corrupção”.
 
 
Fortalecer a direita?
O ex-presidente Lula afirmou, em recente artigo publicado no jornal El País (“O mundo se encontra no Brasil”) que “à medida que se aproxima a eleição presidencial de outubro, os ataques ao evento tornam-se cada vez mais sectários e irracionais” e que “determinados setores parecem desejar o fracasso da Copa, como se disso dependessem as suas chances eleitorais”, provavelmente se referindo ao PSDB, PSB e Psol, que lançarão candidatos de oposição à presidência.
 
Para Motta, a crítica “precisa ser feita pela esquerda”. “Não se trata de enfraquecer um suposto governo de esquerda, mas de escancarar as políticas de direita implantadas e mantidas pelo governo petista”, defende. Tarcísio pensa que é preciso manter e aprofundar as críticas ao modelo de desenvolvimento do atual governo, demonstrando justamente aquilo que ele representa de continuidade neoliberal e de favorecimento das mesmas frações da classe dominante que já estavam no poder antes de Lula ganhar as eleições de 2002.
 

 
"Essa análise parte do pressuposto de que toda manifestação popular contra o governo tende a fortalecer a direita. Acho essa avaliação no mínimo desonesta. O que acontece é algo muito simples: as pessoas se sentem ludibriadas com a Copa do Mundo. A população, boa parte dela, percebeu que não era prioridade do governo. E está com raiva", disse Vladimir Safatle, professor de Filosofia da Usp, após aula pública que concedeu minutos antes de um dos recentes protestos contra o mundial.
 
De acordo com Toninho Ferreira, advogado das famílias da ocupação Pinheirinho entrevistado numa das manifestações contra a Copa, as manifestações tendem a ganhar força. "As manifestações são por melhorias no serviço público: educação, transporte, saúde e moradia de qualidade”, diz ele, “por isso a direita não estaria aqui, como não está".



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