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Indígenas precisam disputar eleições no Brasil, diz líder xavante

30/11/2006 00:00

Ritual Xavante/Nicolas Reynard/Unesco

Créditos da foto: Ritual Xavante/Nicolas Reynard/Unesco
A questão indígena nunca foi uma pauta prioritária nos governos. No primeiro governo Lula não foi diferente. Apesar de o movimento indígena apoiar Lula nas eleições de 2002, ele não viu as principais reivindicações contempladas. As demarcações de terras não foram suficientes e o agronegócio da soja avançou sem piedade pelos territórios dos índios. Mesmo com a população indígena crescendo na última década, os direitos dos índios, garantidos na Constituição de 1988, continuam sendo deixados à margem.

Ainda assim, o movimento apostou mais uma vez em Lula, acreditando que ele ainda seria melhor do que o seu concorrente que, como cita Hiparidi, pregava apenas o “progresso”. Em termos de infra-estrutura, a previsão para os próximos anos, mesmo com a reeleição de Lula não é muito animadora. Como em quase todo o Brasil, na região do Xingu não é diferente o que as comunidades indígenas vem enfrentando: a construção de hidrelétricas e barragens.

Hiparidi Top´tiro é um dos coordenadores do movimento indígena. Xavante, vive em sua aldeia, onde moram 120 pessoas, em Sangradouro, no Mato Grosso, estado como ele mesmo descreve como sendo o “berço do agronegócio de Blairo Maggi”. A aldeia de Hiparidi, cujo maior problema, segundo ele é o alcoolismo, vive em um território demarcado como terra indígena que abrange uma área de 100 mil hectares. “Não é suficiente, ainda tentamos ampliar. O ideal é que chegasse a 300 mil hectares”, afirma o xavante.

Em entrevista à Carta Maior, Hiparidi avalia o movimento indígena no Brasil. Ele afirma que houve um amadurecimento na construção de propostas e uma consolidação das bases. Mas, se por um lado, as propostas e as reivindicações dos indígenas são, hoje, pontuais e claras, o movimento ainda se depara com o tratamento precário da saúde de seus povos e com a negociação dos seus direitos por pouca coisa, como a construção de casas populares.

CM - Qual a sua avaliação sobre o movimento indígena?
HT - Hoje, o movimento indígena amadureceu nos últimos 8 anos. Para a Constituição de 88, o movimento indígena foi importante. O governo quer mudar o estatuto. A gente tem claro para nós onde deve e onde não deve mudar. São coisas claras e pontuais. Antigamente nós não tínhamos. Estamos cientes dos perigos que corremos. Se a gente não assumir, não falar mais alto, a gente vai ser engolido cada vez mais. A base do movimento indígena é forte. Desde a base, as aldeias, até os dirigentes indígenas está amadurecendo e estão batendo no governo. Antes era muito fragmentado, hoje não, estamos tendo comunicação, é uma coisa mais avançada. Mesmo assim, o A base do movimento indígena é forte. Desde a base, as aldeias, até os dirigentes indígenas está amadurecendo e estão batendo no governo. Antes era muito fragmentado, hoje não, estamos tendo comunicação, é uma coisa mais avançada. Mesmo assim, o movimento indígena é ridicularizado pela oposição que vem da Funai, da Funasa e de algumas das próprias organizações não-governamentais, porque cada vez mais queremos as questões indígenas tratadas por nós. A oposição diz que temos divisões internas, temos isso sim, mas temos conseguido nos unir para levar as questões do nosso interesse, que é o maior. A gente exige que seja respeitado, por exemplo, o direito à agricultura e à terra, a educação diferenciada. A gente exige também que os pesquisadores, que irão estudar a questão e conhecimentos indígenas, façam um acordo com o movimento. Outra coisa que a gente exige muito é que os conhecimentos associados sejam repartidos com a gente. Tudo isso é uma pauta do movimento indígena nacional. O movimento indígena hoje está maduro e preparado para encarar o que é provocado pela sociedade de fora. Nós temos programas para avançar, temos propostas no papel para o governo, agronegócio e empresariado. Hoje, gritamos em cima dessas propostas, é isso que queremos que vocês sigam, aí sim nós iremos acalmar.

CM - No próximo dia 23 de novembro está planejada uma corrida de tora em Brasília entre as etnias para levar uma reivindicação para o governo federal. O que vai conter na reivindicação?
HT - Na carta política, pedimos o respeito aos nossos direitos enquanto indígenas. Vai ter a [questão da] construção das hidrelétricas nas áreas indígenas. A licença ambiental é estudada pelos antropólogos, biólogos e geógrafos, mas, mais uma vez, a gente é deixado de lado. Quem vai ser atingido diretamente somos nós, mas somos consultados para ver os estudos que eles fizeram e não participar junto. Esse tipo de coisa tem que acabar. Outra coisa é a demarcação de terras indígenas. O acordo não está sendo respeitado, o atual governo Lula não está seguindo [a lei]. Alguns setores, como por exemplo, Ministério da Agricultura e de Minas e Energia é totalmente contra a demarcação de terras indígenas. A questão fundiária é muito complicada e, cada vez mais, o agronegócio está mais invadindo as áreas indígenas ou o seu entorno. A outra reivindicação é que os estados do cerrado dialoguem com as comunidades indígenas e não apenas seduzir as comunidades e as lideranças e, depois, mais uma vez, nos dividir. Por isso, cada vez mais o movimento indígena tem que fortalecer as suas instituições e o seu movimento para que tenha a sua voz cada vez mais forte.

CM - Nesses últimos 4 anos, como foi o trato do governo federal com a questão indígena?
HT- Nesse primeiro governo do Lula teve menos atenção para questão indígena. É lamentável. O acordo que o governo Lula fez com a gente, antes dos primeiros quatro anos [do primeiro mandato], é que tivesse um presidente indígena na Funai. Não houve. Que tivesse mais demarcação de terras e mais atenção à saúde e à educação indígenas. Só teve atenção para aqueles [casos] mais escandalosos, como o Raposa Terra do Sol. Não serviu como base. Apagou aquele incêndio, então, acha que foi a contribuição, que resolveu e acabou. Mas o nosso direito vem sendo burlado, para atender à elite, ao agronegócio, e a outras coisas. A O que a gente apostou e apoiou não foi cumprido. A gente aposta que nesses próximos 4 anos agora essa atitude dele mude.

CM - Dentro do governo, os indígenas não têm ninguém que represente e defenda os seus direitos?
HT - Essa é uma discussão que a gente vem tendo: “Como fazer?” “Como agir?”. Hoje não temos ninguém que diga: “Eu sigo a causa, é o que eu vou levar, meu interesse é a questão indígena”. O que existe é a questão partidária e acordos. Daí tenta levar [para o governo] o mínimo da questão indígena. Se a gente negociar diretamente com as pessoas, vem [o ganho]. O que se dá é a negociação mínima, porque eles acham que é muito radical a nossa posição, mas não se levam em consideração os nossos direitos que foram violados. Isso é uma discussão complicada com a gente mesmo. Nunca, talvez, não agora vai conseguir inteiramente o que a gente quer. Porque sempre tem um intermediador.

CM - Como a saúde indígena tem sido tratada?
HT - A burocracia que a Funasa tem é super complicada. A gente não consegue chegar na presidência. Eles formaram vários blocos (setores): daí reclama aqui, reclama aqui; e até chegar [na presidência], o governo já acabou. A saúde indígena, hoje, é questão partidária, não é de conhecimento. O exemplo mais claro é o Mato Grosso, que é o PMDB quem manda, mas na verdade, no Brasil inteiro está assim, acontece também em outros estados. Até distritos especiais de atendimento, próximos à comunidade, eles colocam uma pessoa responsável indicado pelo PMDB, essa pessoa não foi indicada pela comunidade. São aliados do governo quem assumem cargos do governo e esses departamentos que são das áreas indígenas. Tem outros partidos também, como o PCdoB, porque são aliados do governo.

CM - Como a reeleição de Blairo Maggi como governador do Mato Grosso afeta a causa indígena?
HT - Estamos temendo os próximos quatro anos dele. Está previsto a construção de usinas, por exemplo, no Xingu, no rio Culuene. No rio das Mortes, o rio principal, que passa pelas terras indígenas xavantes, vai construir usinas também. Tememos que não haja demarcação de terra e se introduza mais a área de soja nas terras indígenas.

CM - O que Blairo Maggi propõe como moeda de troca para negociar os direitos indígenas?
HT - Ele pega algumas lideranças principais para seduzir. Fala que é amigo, leva na fazenda dele, recebe no palácio dele, dá não sei o quê. É uma coisa mínima. Minha aldeia fica em, Sangradouro, Mato Grosso, onde é o berço do agronegócio do Blairo Maggi, quetem seduzido o povo por dar alguma coisa, como casas populares. É uma coisa muito barata. É vergonhoso isso que alguns dos nossos caciques ainda fazem. A gente acaba tendo brigas internas mesmo. A gente está tentando fazer com que não aconteça mais, porque enfraquece a nossa organização interna. Para evitar esse tipo de coisa, buscamos, cada vez mais, deixar claro quem é quem. Nenhum partido é nosso amigo; pode até ter simpatia pela nossa questão, mas no é amigo. A gente confiava no governo do PT, mas quando assumiu o governo mudou. Agora a oposição do governo é que chama a atenção para a questão indígena.

CM - Como foi o posicionamento do movimento indígena nessas últimas eleições presidenciais?
HT - A gente avaliou que, nesse momento, ainda era apostar mais uma vez no governo Lula. A gente não apoiou o Geraldo Alckmin por que ele veio com “progresso, progresso, progresso”. A gente declarou apoio [ao Lula]. Até então, nós participamos da construção da proposta do governo Lula na questão indígena. Nós fizemos propostas, agora se vai executar ou não, esperamos o ano que vem. A gente vai pressionar.

CM - Como é a relação do movimento indígena na América Latina?
HT - A gente vem amadurecendo, um país é diferente do outro. O Evo Morales é um exemplo para nós. Nós temos uma rede de intercâmbio avançada, tem comunicação, participamos de conferências: há uma troca de experiência de como se age com cada problema. Um exemplo que a gente sabe que acontece na Bolívia, a gente traz e eles – pessoal dos EUA, México, Bolívia, Venezuela etc - levam a nossa experiência Na América, uma construção da unificação do movimento indígena é até avançada.

CM - Quais são as expectativas do movimento indígena para o futuro?
HT - O movimento indígena está atento, além disso, nós temos experiências anteriores, dos governos anteriores. Nós estamos pensando em ter os próprios candidatos nos próximos 5 anos, essa é uma discussão ainda interna. O maior problema disso é de onde tirar o dinheiro para a nossa campanha. Esse é um grande segredo, por isso que a gente não lançou um candidato ainda neste ano.

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