Movimentos Sociais

Invocando proteção dos orixás, marcha abre Fórum Social 2020 em Porto Alegre

Tradicional caminhada de abertura do evento aproveitou mobilização do povo de terreiro no Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa e reuniu milhares que marcharam juntos, sob chuva e ao ritmo dos tambores, segurando faixas com dizeres em defesa da democracia, contra a guerra e pela preservação dos serviços públicos de qualidade

22/01/2020 13:11

(Naira Hofmeister)

Créditos da foto: (Naira Hofmeister)

 
Eram 18h45 da terça-feira, 21 de janeiro quando as notas dos atabaques e agogôs começaram a reverberar, sinalizando que a marcha de abertura do Fórum Social das Resistências estava iniciando. A partir daquele momento, o som das rezas cantadas em iorubá, comandado por um grupo de ma%u1BDs e pais de santos que ocuparam o carro de som dominou, substituindo os discursos que se sucederam ao longo da concentração, no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico de Porto Alegre.

Antes que o caminhão percorresse a primeira quadra, três homens conduziram um ritual padê, no qual alimentos foram oferecidos para que “Exu abra os caminhos para a marcha passar e que dê tudo certo”, segundo um dos participantes. O tom religioso acompanharia a caminhada até o fim, na Usina do Gasômetro, onde as flores que enfeitavam o caminhão foram oferecidas às águas sagradas.

(Naira Hofmeister)

Foi o povo de terreiro que conduziu a marcha inaugural dessa edição do Fórum Social de Porto Alegre, formando uma grande ala vestida de branco, cantando e dançando suas rezas. Em seguida vinha o grupo das representações institucionais, com bandeiras da CUT e da CTB, de partidos como o PT e o PCdoB, e ainda a juventude do Juntos, ligada ao PSOL. Nessa parte, faixas, cartazes e camisetas traziam dizeres como “Resista! Lute!”, “Não à guerra, a juventude quer paz”, contra a privatização da saúde, a violência doméstica e o genocídio da juventude negra e em defesa da educação pública. As palavras de ordem que dominaram foram mesmo do movimento negro e do povo de terreiro.

A proposta era essa mesmo: colar na XII Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa, trazendo já para a abertura do Fórum a bandeira da unidade dos movimentos, limitação histórica que a edição 2020 identificou e se propôs a enfrentar.

A faixa principal trazia as assinaturas de ambos movimentos e os dizeres “UnidXs seremos fortes”. Nenhum rosto midiático segurava ela - os figurões, como deputados estaduais, federais, vereadores, lideranças sindicais e até o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, se misturaram à multidão, deixando o protagonismo para lideranças normalmente anônimas. Ao centro, uma mãe de santo e uma indígena, secundadas por representantes da juventude e de outros movimentos.

A indígena era Pietra Dolamita, do povo Apurinã, do sul do Amazonas, atualmente residente em Pelotas, onde cursa uma pró-graduação em Antropologia. Para ela, calhou muito a proposta de destacar a bandeira da liberdade religiosa na marcha de abertura do Fórum Social 2020. “Os povos originários são tidos por feiticeiros porque lidam com as ervas medicinais”, lamentou. Ela também vê convergência na agenda de defesa dos povos tradicionais e da população negra. “Estamos unidos contra o genocídio. Os negros estão sendo dizimados nas cidades e os indígenas, nas aldeias”, alertou.

No Largo Zumbi, samba enredo e reivindicação

As florestas, os guardiões, as águas sagradas, as bacias hidrográficas, Marielle Franco, LGBT , os sindicatos, Amarildo, Oxum e outras divindades africanas, buda e a fé cristã. Tudo isso foi lembrado no jogral comandado por Kitanji, liderança do Fórum Nacional de Segurança Alimentar dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, que listava as homenagens intercalando com a frase: “A tradição alimenta”, ao que o público respondia, “Não violenta”.

(Naira Hofmeister)

Em pouco menos de três horas, o percurso incluiu as avenidas Borges de Medeiros, Loureiro da Silva e João Goulart. Quando a marcha chegava ao Largo Zumbi dos Palmares, uma cantora assumiu o microfone para entoar, à capela, o samba-enredo de 2018 da escola carioca Paraíso de Tuiuti, que celebra a cultura negra e condena a escravidão com versos como:

“Ê, Calunga, ê! Ê, Calunga!
Preto Velho me contou
Preto Velho me contou
Onde mora a Senhora Liberdade
Não tem ferro nem feitor”

Neste local, onde tradicionalmente há uma parada da marcha pela liberdade religiosa, estava montada uma das feiras modelo de Porto Alegre, e não foi possível entrar no largo - o que levou a reivindicações. “O Largo Zumbi dos Palmares é nosso”, provocavam os participantes em coro. Vera Quintana, liderança negra, anunciou uma vitória do movimento, que conseguiu recursos públicos para erguer um busto do poeta Oliveira Silveira no local. Silveira foi o idealizador do Grupo Palmares, que nos anos 70 sugeriu o 20 de novembro como data máxima da negritude brasileira no lugar do dia da abolição da escravatura, anteriormente celebrado. A tese vingou e hoje o 20 de novembro é feriado em cerca de 500 cidades brasileiras

Também houve espaço para cobrar apoio público para o Carnaval - em Porto Alegre, originalmente a festa era realizada na região por onde passava a marcha, mas foi transferida há alguns anos para um local distante do centro, no Porto Seco de Porto Alegre. Nos últimos dois anos, por falta de verbas públicas, o Carnaval ou foi cancelado, ou realizado mas sem competição entre as escolas.

Uma faixa pedia a declaração do Bará do Mercado como patrimônio imaterial da cidade. Para os praticantes das religiões africanas, a entidade habita o coração do Mercado Público de Porto Alegre, sendo um local de culto e reverência. Mas a atual administração, comandada pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB), trabalha em um edital para privatizar a gestão do espaço, o que pode dificultar o acesso do povo de terreiro até o local.

(Naira Hofmeister)

Olívio Dutra: "Democracia não é só uma palavra bonita, é para o povo, como comida"

Uma das figuras mais populares da política no Rio Grande do Sul, o ex-governador Olivo Dutra (PT) conclamou os participantes da marcha de abertura do Fórum Social das Resistências a "demonstrar o rigor do povo", que "não se cala, não se submete, não é ovelha e nem bando, que aliás, é quem está no governo".

Olívio animava os participantes da marcha, que mesmo abaixo de chuva, foram até o Largo Glênio Peres, no Centro Histórico de Porto Alegre. Em seu discurso, o ex-governador usou palavras simples e frases diretas para ilustrar a importância da defesa do regime democrático.

"A democracia não é só uma palavra bonita. Ela é, para o povo como a comida, fundamental", resumiu.

Para ilustrar, recordou o retorno do Brasil ao mapa da fome e mencionou os dados da Oxfam para o Brasil, segundo os quais a fortuna de cinco pessoas equivale a todo o patrimônio somado de 110 milhões de brasileiros. "Devemos restabelecer a democracia porque ela, além de desconcentrar poder, pode, inclusive, desconcentrar riqueza".

Olívio lembrou as rupturas institucionais que ocorreram ao longo da história recente no Brasil, como golpe militar de 1964, e a deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016. "Cada vez que o povo chegava perto do poder, eles deram golpes", acusou.

Saudou aos "caminhantes" e "resistentes" e recordou que tão importante quanto assegurar a democracia é lutar para ampliá-la. "Os três poderes que temos, Executivo, Legislativo e Judiciário, não são propriedades de uma igreja, um partido, um governante ou seus financiadores. Uma democracia mitigada é um golpe. Não podemos abdicar de lutar pelo Estado Democrático de Direito, que é o governo do povo, para o povo e pelo povo".

Concluiu seu discurso com um de seus tradicionais bordões: "Democracia neles, para que o povo seja sujeito e não objeto da política".

Conteúdo Relacionado