Movimentos Sociais

Juventude põe em prática inclusão social no FSM

24/01/2003 00:00

Experiências radicais de inclusão social já se incorporaram ao cotidiano de uma das grandes vitrinas do Fórum Social Mundial, o Acampamento Intercontinental da Juventude. Nos bastidores da convivência com milhares de jovens de vários Estados, países e idiomas, estão trabalhando, há dias, centenas de trabalhadores rurais sem-terra, desempregados urbanos, sem-teto, meninos e meninas de rua e cooperativas de trabalhadores como as dos catadores de papel. Essa multidão que os senhores de Davos preferem considerar excluída da sociedade de consumo, que não tem passaporte, cartão de crédito nem acesso à Internet, está se esfalfando da manhã à noite para erguer barracões e servir comida barata e saudável aos militantes de várias causas do mundo inteiro. Acompanhar o dia a dia deles é ganhar uma aula de como se sobrevive na selva do capitalismo à brasileira sem perder a generosidade.


Desde 2001, o Fórum Social Mundial é cobrado a colocar em prática as horas de debates que sinalizam para a construção de um mundo mais solidário, menos financeiro. Em geral quem cobra isso só viu o evento pela TV. Boa parte dos setores excluídos se integra às atividades do FSM há três anos. Desta vez, o número é mais expressivo, até pela ampliação de 15 mil acampados, em 2002, para cerca de 30 mil nos próximos dias. O Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), por exemplo, nasceu junto com o FSM, em 2001. No acampamento, eles fornecem cerca de 200 refeições (almoço e jantar) por dia, mais café da manhã, lanches e frutas de produção orgânica. Trabalham desde as 6h30min, vendem as refeições (carreteiro com salada) a R$ 3 e dividem os lucros num grupo que vai chegar a 60 pessoas em breve, acampadas no Parque da Harmonia.


“Eu trouxe de casa o meu próprio fogão a gás”, conta Cláudia Nogueira, 28 anos, mãe de três crianças. Ela pretende levar o fogão de volta, até por que é o único que tem. “A gente teve que se juntar e buscar financiamento. Compramos uma cuba, que vai dar trabalho para os desempregados depois do Fórum e ajudar a estruturar o movimento”. Antes de virar líder do MTD, Cláudia era agente comunitária de saúde. Para montar a infra-estrutura da cozinha e dos estandes no FSM, o MTD teve apoio de pastorais, sindicatos e da Via Campesina.


Além das próprias barracas de plástico preto, que se destacam no visual multicolorido do acampamento, os desempregados foram voluntários na hora de erguer galpões com paredes de barro, palcos e toldos de vários tamanhos. Iniciada em dezembro, essa atividade de infra-estrutura, que contou com operários da construção civil, engenheiros, professores e estudantes de arquitetura, teve uma participação expressiva do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), também responsável pelo fornecimento de refeições.


Experiência de acampamento


“Para montar barraca na grama não tem especialista melhor do que nós”, brinca o ex-acampado e hoje assentado Mauro Cibulski, 31 anos, pai de um bebê de dois meses. “Dentro do FSM nós sempre fomos bem-aceitos”, ele recorda. Cibulski calcula que há 150 integrantes do MST engajados full-time nas atividades do Fórum, 50 dos quais no acampamento. Em cinco bancas de alimentos, eles providenciam aos acampados produtos como pães integrais, sucos de melão e pêssego, melancia, geléias, conservas, e também refeições vendidas a R$ 3 e R$ 4 (carreteiro ou arroz com frango e salada). Até quinta-feira (dia 23), não havia refrigerantes à venda no acampamento. Dá para tomar Coca-Cola o ano inteiro, certo? Não custa fazer uma pausa de uma semana no consumo mais calórico. Os cereais, frutas e verduras são fornecidos pelos assentamentos do MST de Nova Santa Rita, Eldorado do Sul, Piratini, Charqueadas e Veranópolis.


O retorno dessa integração ao FSM vem para o MST de várias formas. Cibulski destaca três pontos: (1) é importante gerar renda e trabalho para os agricultores, (2) mostrar para os conterrâneos e também para os estrangeiros como se organiza a luta pela terra no Brasil e (3) se engajar nos ideais mundiais de solidariedade, providenciando comida a preços acessíveis. Desde 2001 são realizadas as MSTour, excursões para os assentamentos do movimento, que atraem sobretudo delegados internacionais.


“Nos últimos anos o MST sobreviveu devido à grande articulação internacional que teve, na América Latina inteira, México, Estados Unidos, Europa e África. E o Fórum fortalece isso”, lembra o assentado. “Nós tentamos trazer as pessoas desempregadas de volta para o setor produtivo, tentamos incluir um monte de gente, e com isso fazemos um grande favor não para os governos, mas para a sociedade”. E ainda tem gente que vira o rosto para os sem-terra, enche a boca para chamá-los de “baderneiros” e exibe um livrão de Sebastião Salgado na mesinha da sala. Se o descendente de poloneses Mauro Cibulski acredita que um mundo diferente é viável? “Claro que sim”, ele revida. “Eu não estaria no MST desde 1989 se não acreditasse”.


Garotos desgarrados


Homens e mulheres desempregados ou militantes da luta pela terra pelo menos têm ou tiveram uma ocupação, um primeiro emprego ou identidade profissional na vida. O quadro de exclusão que imobiliza um grupo fragilizado como o dos meninos de rua é ainda mais grave. Os integrantes do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua que se engajam em oficinas, shows de hip-hop, confecção de bandeiras, painéis coloridos e credenciamento dos participantes carentes (isentos da taxa de R$ 10) do FSM não têm teto, são quase sempre desgarrados das famílias, não freqüentam a escola. Tem nome, idade, alguma roupa, e só. Um dos educadores do grupo, Anderson Gomes, 17 anos, morador de Alvorada, diz que “o Fórum abre o espaço e a gente procura ocupar esse espaço”. Os garotos estão ajudando a promover dessa vez o Fórum Brasileiro de Hip-Hop.


“A gente está participando da construção do FSM porque acredita que é possível tirar os meninos de rua da fossa de lama onde eles estão. A doença está se espalhando cada vez mais rápido. Estar aqui ajuda na nossa visibilidade, fica mais fácil chegar nas comunidades para conseguir apoio”, completa Gabriel Souza, 17 anos.


Anderson e Gabriel concedem a entrevista com um profundo ar de tédio. Não é má vontade, é como se dissessem “saco, estamos aqui ensinando dois branquelos de classe média como a vida pode ser dura lá fora”. Eles já viram meninas de rua de 12 anos morrerem de desnutrição, overdose ou violência sexual, sem pai nem mãe, debaixo da ponte, a ponte ao lado de um shopping center, em Porto Alegre mesmo, a meca dos partidos de esquerda. Anderson e Gabriel ainda não completaram 20 anos e já viram boa parte do que há de ruim para se ver no mundo. Conversar com eles é perceber as perguntas estúpidas do jornalismo diário voltando com a violência de um bumerange.


“Como assim quais são os nossos desejos mais urgentes? Ih, moça, vai faltar página nesse seu bloco”. Se eles acreditam que um outro mundo é possível? Suspiros. Como diz a desempregada Cláudia Nogueira, “esperança tem soado como esperar e nunca ver, o Lula não vai mudar nada sozinho, a mudança é com a gente mesmo”. O quartel-general do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua no Acampamento Intercontinental da Juventude fica ao ar livre, junto à orla do rio Guaíba, próximo à Sala 5 das conferências, onde se erguem rodas gigantes de madeira que ajudaram a pintar. Eles estão vendendo cartões, CDs e livros para poder pagar, por exemplo, a passagem de ônibus que leva às atividades do Fórum.


Desde 2002, os catadores de papel também estão incluídos no cotidiano do FSM. No acampamento que toma 250 hectares na região central de Porto Alegre, um galpão próprio de reciclagem complementa a estrutura de dezenas de cestos para coleta seletiva de lixo. A idéia é reciclar todo o lixo seco produzido pelos milhares de acampados, dentro da proposta de autogestão dos coordenadores. Na prática, o processo gera renda para os trabalhadores da Unidade de Triagem de Resíduos Sólidos Domiciliares da Lomba do Pinheiro, responsáveis pelo galpão.


Márcia Regina Soares, coordenadora e membro da Associação Nacional dos Catadores, diz que o dinheiro da venda dos materiais reciclados vai ser dividido entre os 18 catadores deslocados para o Acampamento. Em média, um reciclador recebe 300 reais por mês. “Os dias aqui vão aumentar as nossas vendas, o lixo já chega limpo, seco, quero dizer”. O grupo trabalha das 8h às 17h30min e eles têm certeza de que lutam, no seu dia a dia, para construir o “outro mundo possível”, mais integrado ao meio ambiente, mais respeitador da finitude dos recursos humanos e naturais. “Esse nosso trabalho é importante para a humanidade”, diz Márcia, catadora de papel, salário de cem dólares por mês. Quantos empresários e financistas em Davos conseguiriam dizer o mesmo, com a mesma confiança?




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