Movimentos Sociais

Lula não quer que guerra se sobreponha à fome

25/01/2003 00:00

Luiz Inácio Lula da Silva embarcou ontem (sexta-feira) para Davos, na Suíça, com uma preocupação. Mesmo sabendo que o provável ataque americano ao Iraque domina as discussões dos empresários e líderes governamentais reunidos no Fórum Econômico Mundial, ele deixou claro a assessores que não quer dividir o foco das atenções com a necessidade da mudança da ordem econômica em benefício dos povos do terceiro mundo, em especial os subnutridos.


Tal como fez em Porto Alegre, aonde falou no final da tarde para um público estimado entre 60 mil e 100 mil pessoas conforme o autor do cálculo, é provável que Lula nem sequer cite diretamente os EUA e o Iraque. Apenas reafirmará – como fez no anfiteatro Pôr-do-Sol, obra da gestão petista à frente da prefeitura da capital gaúcha – sua posição a favor da paz e lembrará que os gastos bilionários com armamentos, se fossem direcionados para a compra de alimentos, supririam as necessidades calóricas dos milhões de habitantes da terra que passam fome.


“O mundo não está precisando de guerra. O mundo está precisando de paz. O mundo está precisando de compreensão (...) Eu quero poder dizer ao mundo como seria bom se em vez de os países ricos produzirem e gastarem dinheiro com tantas armas, a gente gastasse dinheiro com pão, com feijão e com arroz para matar a fome do povo. Eu fico imaginando quantos bilhões e bilhões e bilhões de dólares se gastam numa guerra. Soldado matando soldado, soldado matando inocente, e próximo de nós, crianças levantando os olhos e mendigando um prato de comida que muitas vezes se joga fora”, advertiu.


"Tenho orgulho em ser de esquerda"


Para enfatizar sua preocupação com o lado social, Lula pretende repetir em Davos frases que fizeram sucesso junto ao povo de Porto Alegre, tais como quando falou das crianças subnutridas: “Quero dizer em Davos que não é possível continuar numa ordem econômica onde poucos podem comer cinco vezes ao dia e muitos passam cinco dias sem comer no planeta Terra. Dizer a eles que é preciso uma nova ordem econômica mundial em que o resultado da riqueza seja distribuído de forma mais justa para que os países pobres tenham a oportunidade de serem menos pobres. Dizer a eles que as crianças negras da África têm tanto direito de comer como as crianças de olhos azuis que nascem nos países nórdicos”.


A imprensa nacional sequer comentou mas, nas suas 24 horas na capital gaúcha, Lula teve uma grande preocupação: marcar posição de que se reunirá com a nata do capitalismo na Suíça como autêntico representante das esquerdas. Foi quase uma pré-justificativa da sua decisão de acatar o convite dos organizadores do Fórum Econômico, o que foi muito criticado pelos coordenadores do Fórum Social.
Bateu na mesma tecla por diversas vezes, mas de forma mais enfática ao receber, na manhã de ontem, uma comissão do Fórum Social Mundial, no hotel Sheraton: “Tenho orgulho de ser da esquerda”, confessou, acrescentando estar consciente de que “não podemos errar no Brasil, pois deixaríamos o projeto das esquerdas sem credibilidade por mais 50 anos”.


Ao povo, no Pôr-do-Sol, sua promessa foi no mesmo sentido: “haja o que houver, aconteça o que acontecer, tentarei cumprir cada palavra que está contida no programa de governo que me elegeu para presidente da República deste país”. E, tentando explicar algumas medidas que seu governo tem tomado e que desagradam à parte da esquerda brasileira, como o recente aumento dos juros, explicou: “Governar é como uma maratona, você não pode começar a 80 por hora porque o teu fôlego pode acabar na primeira esquina. Você tem que dar os passos sólidos, concretos, para que você possa terminar o governo com a certeza do dever cumprido”.


Lula se preocupou em massagear o ego dos organizadores da reunião em Porto Alegre. Mesmo destacando a necessidade de o movimento manter sua autonomia com relação aos governos, reconheceu a importância do Fórum, inclusive na sua eleição: “eu sou obra e resultado do trabalho que vocês fizeram ao longo de todos esses anos”. Não foi só isto, deixou claro que só foi convidado para a Suíça por conta do fórum de Porto Alegre: “Se não fossem vocês, eu não seria convidado”.


A habilidade dele, tanto diante da comissão do Fórum como ao falar ao público, o fez passar por Porto Alegre sem nenhum revés, mas não foi suficiente para modificar algumas críticas. Ainda há membros do Comitê Internacional do Fórum que não escondem o desagrado com a presença do presidente brasileiro na Suíça. Acham que ele arrisca sua imagem e dará visibilidade a um encontro que tenderia a não ter muito destaque na imprensa mundial.


Lula enalteceu tanto o encontro de Porto Alegre que acabou criando uma pequena contradição. Ao se despedir, pedindo aos “companheiros” coordenadores do Fórum Social Mundial: "pelo amor de Deus, não desistam porque vocês conseguiram em três anos construir uma das coisas mais extraordinárias que a sociedade civil mundial conheceu. Embora estejamos a tantos mil quilômetros de Davos, a verdade é que depois do fórum de Porto Alegre Davos já não tem a força que tinha antes de existir o Fórum Social Mundial”. Indiretamente, Lula acabou concordando com aqueles que dizem que será a presença dele que dará destaque mundial à reunião da Suíça.


Mas esta escorregada não chegou a ser destacada tanto quanto uma outra que alimentou aqueles que já o criticam dizendo que ele não tem apontado claramente as linhas que pretende adotar, permanecendo com discursos típicos de campanha. Lula, ao encerrar sua fala, tal como quase aconteceu em Brasília no seu discurso de posse no parlatório, parece ter esquecido que as eleições terminaram dia 27 de outubro e que ele já é presidente há 24 dias, despediu-se do público falando: “Muito obrigado e até a vitória, se Deus quiser, companheiros”.





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