Movimentos Sociais

MST acompanha a “Outra Campanha” zapatista; em debate, o futuro de duas nações

18/05/2006 00:00

José Batista

Créditos da foto: José Batista
SÃO PAULO – Desde a ascensão do MST como maior movimento de massas no Brasil e do surgimento do Movimento Zapatista no México na década de 1990, as duas organizações têm sido consideradas as mais importantes expressões sociais da história recente da América Latina.

Organicamente distintos em sua origem e organização – movimento nacional, o MST se consolidou na luta política do campesinato pela reforma agrária, enquanto os zapatistas, restritos ao estado de Chiapas, optaram por um levante armado pelo reconhecimento da identidade indígena com plenos direitos -, ambos os movimentos se caracterizam por uma formulação ideológica – aí sim muito próxima – dos objetivos de sua intervenção na conjuntura política e social nacional, que arrebanhou admiradores e adeptos em muitos setores da sociedade, inclusive em nível internacional.

Há tempos, os campos de ação e elaborações políticas de ambos os movimentos extrapolaram a esfera corporativa e se expandiram para um debate mais amplo sobre os conceitos de sociedade e desenvolvimento, centrado claramente no enfrentamento ao neoliberalismo e à hegemonia do capital internacional na condução da vida do planeta.

Mais recentemente, porém, o discurso em torno da formulação de uma alternativa política de modelo de sociedade se corporificou de forma dissociada mas estranhamente similar no Brasil e no México. Diante da perspectiva de eleições gerais em ambos os países em 1996, ainda em 1995 surgiram duas propostas de organização nacional que têm como objetivo aglutinar os movimentos sociais dos respectivos países em torno de um grande debate sobre a cara do futuro desejado.

No Brasil, sob liderança do MST e da Igreja (através da campanha Jubileu Sul), se formalizou em outubro de 2005 a chamada Assembléia Popular, uma articulação de dezenas de entidades e movimentos de base em torno de um amplo debate sobre “o Brasil que queremos”. Cogitando primeiramente apresentar uma grande plataforma de demandas e propostas ao país ainda em 2006, a Assembléia abandonou a idéia por um projeto mais demorado de consulta e construção nos municípios e estados, a ser amadurecido até 2007.

No México, em julho de 2005 o Subcomandante Marcos reaparece em público com a Sexta Declaração da Selva Lacadona, extenso documento onde os zapatistas avaliam os dividendos dos últimos 11 anos e traçam planos para o futuro: basicamente, romper com a institucionalidade, negar o processo eleitoral de 2006 a lançar uma Outra Campanha, movimento de articulação nacional dos movimentos e forças sociais em torno de um projeto popular de sociedade a ser construído a partir de 2006, devagar e sem pressa, no mais puro estilo indígena.

Em janeiro deste ano, Marcos, auto-intitulado Delegado Zero, montado em uma moto dá início ao “recorrido” de seis meses, um processo de assembléias, reuniões, debates e articulações com os movimentos sociais de todos os estados para a divulgação da Outra Campanha e a arrancada de sua construção. É esta experiência que os dirigentes do MST, Djacira Araujo e José Batista, acompanharam por um mês, entre abril e maio. Em conversa com a Carta Maior, Bastista falou da experiência e do debate político conseqüente para o movimento e suas articulações. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Carta Maior – Como se deu a idéia de mandar representantes do MST para acompanhar a Outra Campanha zapatista no México?

José Batista - Foi uma decisão do MST de vivenciar essa experiência, que parte do movimento zapatista, mas que é um debate com o conjunto da sociedade civil mexicana. Fomos ao México para acompanhar esse processo no inicio de abril, e vivenciamos um momento imprevisto: a adesão massiva de entidades estudantis, de pequenos partidos que não participam do pleito deste ano, grupos anarquistas, etc, acabou formando uma caravana que acompanha o Subcomandante, e nós nos juntamos a ela.

CM – Como vem se conformando a Outra Campanha do ponto de vista prático e organizativo?

JB - Marcos foi delegado pelos comandantes zapatistas para fazer este debate. Ele só. Ou seja, num primeiro momento sai Marcos, com dois acompanhantes, para fazer o recorrido em todo o território mexicano até junho, os seis meses do mais intenso debate eleitoral. Nos estados, são as organizações locais que cuidam das agendas - debates, assembléias, conversas nas universidades e reuniões menores com os “aderentes”, as lideranças dos movimentos locais, sobre a implementação da Outra Campanha. Normalmente, a metodologia é a seguinte: Marcos ouve todas as representações locais – problema de moradia, de despejo, de pessoas que estão sendo expulsas por empresas das terras comunais, etc, já que há muita resistência local que acaba se articulando através da Outra Campanha, e depois se pronuncia. Ou seja, o recorrido acabou se tornando uma espécie de consultório dos problemas.

CM – Há, nesse processo, um momento de sistematização? Quer dizer, deve haver muita informação produzida nestes eventos.

JB - Uma característica dos zapatistas é ouvir muito. As reuniões são longas, demoradas, o tempo de fala das pessoas é livre, e esses encontros demoram três, quatro horas. No final, normalmente Marcos faz uma fala, sistematizando as manifestações e trabalhando a filosofia da Outra Campanha e impulsionando a auto-organização.

CM – Existem prazos ou planificações para este processo?

JB - O que se prevê - pelo menos o que aparece em algumas falas do Marcos, mesmo que de forma não muito clara -, é que, num segundo momento, virão a esses locais os comandantes zapatistas para permanecer por mais tempo para ajudar na organização. Que fique claro, porém, que o objetivo do movimento não é expandir a luta zapatista do ponto de vista corporativo. O que se propõe é uma organização maior do que o movimento indígena, um grande movimento que articule todas as lutas. O México é uma espécie de caldeirão de lutas sociais fragmentadas. Existem movimentos que fazem enfrentamentos ao Estado, alguns armados, outros não, mas de forma isolada – de muitos nem se tem conhecimento. Guerra de baixa intensidade? Não, não é uma guerra de baixa intensidade, a guerra contra as comunidades nem é mais militar, é de desestruturação social, através da bebida, da prostituição, da lógica do mercado entrar em uma cultura muito particular dos indígenas campesinos.

CM – Como a Outra Campanha está se relacionando com corrida eleitoral desse ano? E como estão se posicionando os grandes movimentos e organizações sociais?

JB - A partir da experiência da Outra Campanha, as pessoas e os grupos que aderem tem que tomar uma posição. O discurso da Outra Campanha não é que não se deve votar nas eleições; mas quem está priorizando as eleições não está na Outra Campanha. Isso limita muito a participação das grandes organizações, as mais representativas a nível nacional. Inclusive as que estão ligadas à Via Campesina não estão oficialmente na Outra Campanha. Detalhe: também não estão oficialmente defendendo nenhum candidato na corrida eleitoral.

CM – A dificuldade de apoiar os zapatistas advém do questionamento à institucionalidade?

JB - A outra campanha, se eu fosse fazer um resumo, é a cara pública da posição política zapatista de questionar a institucionalidade. A proposta zapatista é: se eles não nos reconhecem, também não os reconhecemos. E a negação não surgiu agora com a Outra Campanha, esse é um período de consolidação de uma experiência que se construiu nos municípios autônomos, a autogestão total, na educação, na saúde, etc. Nas regiões autônomas eles instituíram formas de gestão sem eleições, registram os filhos sem ir ao cartório, fazem casamentos, enfim. E na avaliação daquelas comunidades isso traz muito mais respostas do que a política pública oficial. A aposta é: vamos construir nossa dignidade com as nossas próprias forças. O que comunica mais com a sociedade é a experiência interna deles, mas eles não estão propondo esse modelo como regra. A posição é: nós já não temos apoio nenhum do Estado, então não precisamos nos preocupar com a questão eleitoral, com quem vai ganhar; nós já estamos rompidos com esse tipo de sociedade há 500 anos, e estamos reiterando esse rompimento.

CM – Mas há apoio das grandes organizações?

JB - A Outra Campanha está sendo uma espécie de divisor de águas: está lançando para a sociedade mexicana um debate que, a principio, não tem as principais organizações sociais como apoiadoras, dentro do movimento sindical ou campesino. Mas eles são como Jesus: onde tiver dois ou três reunidos em meu nome, estarei aí.

CM – Há, por parte da Outra Campanha, alguma restrição ao ato de votar?

JB - A outra Campanha não prega o voto nulo. Diz: se vocês querem votar, participar do processo eleitoral, muito bem, a questão é não criar ilusão. Quer dizer, essas pessoas [os candidatos] não têm projeto de mudança, são todos iguais. A Outra Campanha propõe um debate além dessa estrutura de sociedade que está aí, que está em crise, que foi feita para sustentar um modelo de acumulação de riqueza, de perda da cultura, já que hoje o México é uma aduana dos EUA. Propõe um levante pacífico e organizado de caráter nacional para enfrentar o imperialismo.

CM – Vocês chegaram a ter um encontro ou uma conversa oficial com Marcos enquanto representantes do MST?

JB - Não. Estivemos em três regiões autônomas em Chiapas, conversamos com as juntas de bom governo, os municípios autônomos e, no mais, participamos da caravana do recorrido. Nossa principal tarefa no México era ter uma visão mais próxima possível do que é a realidade.

CM – Nesse sentido, o que mais aproxima os dois movimentos, neste momento, do ponto de vista ideológico?

JB - A avaliação de que o capital internacional se institucionalizou se aproxima muito à nossa análise. No sentido de que mesmo se muda o governo, não há alteração da situação. O que altera é a pressão social. A nossa relação com os zapatistas não é de agora, temos uma forte relação de identidade, se percebe isso. A diferença é que os zapatistas no início tiveram uma tática de luta diferente da nossa, e eles são um movimento localizado. Com um enfrentamento muito mais radical do ponto de vista da autonomia.

CM – Como você vê a experiência de autonomia zapatista? Ela seria viável como modelo de organização social mais ampla? O MST poderia adotar esta idéia?

JB - Eles estão experimentando, estão num processo, e ainda é muito arriscado dizer qual é o limite destas experiências isoladas. A saída para a sociedade é isso, ou eles criam isso como uma força organizativa e social, ou podem ser aniquilados. Pode ser uma possibilidade de limite. No nosso caso, a nossa relação política com as instituições é marcada pela autonomia política. Uma coisa é aceitar as várias formas de contribuição com o movimento, outra é ofertas em troca de condicionalidades, exigindo que não façamos mais ocupações, marchas. A nossa experiência até agora é que a nossa relação com as instituições governamentais e não governamentais não impediu ainda que o movimento desse seguimento à sua forma de organização. A autonomia é muito relativa: é ficar no mato e não aceitar o Estado, ou é manter seus princípio, apostar nas relações políticas sem abrir mão deles? Nós estamos permanentemente nessa construção, e talvez esteja aí a complexidade do movimento.

CM – O MST tem apontado, nos últimos tempos, para um enfrentamento mais focado no grande capital – além dos latifúndios, os transgênicos, as corporações multinacionais do setor de semente, o agronegócio, etc. É o mesmo foco zapatista.

JB - Pela característica do capital – e aí talvez está a explicação porque o MST e os zapatistas se tornaram uma referência –, o campo, a terra, ou seja, o espaço geográfico, passou a ser o maior objeto de disputa do capital no período mais recente. Antes, o enfrentamento se dava no chão da fábrica, mas a forma como o capital se constituiu através da sua internacionalização nos colocou nesse enfrentamento. A disputa da terra, do território passou a ser vital para o capitalismo internacional. E assim como nós, que percebemos que a solução não se dará apenas no campo, mas no debate com a sociedade, os zapatistas adotaram este rumo. Nós viemos para o enfrentamento do neoliberalismo como inimigo, em 96, 97, 98 nós apanhamos tanto, tivemos gente presa e morta. A terra, o monocultivo, o latifúndio, os recursos naturais, viraram condição fundamental para o capital e para manter essa estrutura de sociedade. Terra é poder, sempre foi poder no Brasil. Então, quando o MST faz este debate com a sociedade, quando investe no processo de ouvir, nas marchas para Brasília, nos debates e nas elaborações sobre a conjuntura, a cultura, as riquezas do Brasil, é a construção de um projeto. Há um tempo o MST vem elaborando, e a Assembléia Popular é a materialização desse processo.

CM – A Outra Campanha e a Assembléia Popular parecem processo bastante identificados em seus objetivos.

JB - A Assembléia Popular, assim como os movimentos no México, que estão em processo de se conhecer e articular, está buscando uma identidade nacional. No Brasil, esse processo de unidade dos movimentos sociais é mais antigo, vem se construindo desde a luta contra a ditadura. O movimento urbano teve seu auge com o movimento estudantil e operário, e agora optou pelo caminho da disputa institucional. Esse espaço, o debate de concepção de sociedade, sobrou agora para a Assembléia Popular.



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