Movimentos Sociais

Marcha contra a guerra abre III Fórum Social Mundial

22/01/2003 00:00

Na sua terceira edição, o Fórum Social Mundial que se inicia hoje à tarde, em Porto Alegre (RS) vai incorporar à sua principal bandeira – a oposição ao neoliberalismo e à globalização, num contraponto ao encontro das elites econômicas que ocorre simultaneamente em Davos, na Suíça – uma nova razão de ser: a luta contra a guerra, em especial contra o ataque que os EUA prometem fazer ao Iraque. A faixa que abrirá a tradicional caminhada pelas ruas da capital gaúcha, no final da tarde, resumirá as duas questões de ordem: “Contra o neoliberalismo e contra a guerra imperialista”.


Oficialmente, o encontro que deverá reunir em Porto Alegre cerca de 100 mil pessoas continuará evitando a apresentação de um documento oficial com posicionamentos políticos. Na prática, na terça-feira, 28, data do encerramento, virá a público um documento a favor da Paz que, embora não receba a chancela oficial do Fórum Social Mundial, será assinado pela quase totalidade das organizações que participam do Conselho Internacional do Fórum.


A ameaça de uma nova guerra deverá ser o tema predominante nestes seis dias em que acontecerão dez conferências, 37 painéis, mais de 1.700 oficinas de trabalho, reunindo oficialmente 30 mil delegados, de 5.500 organizações espalhadas por 126 países e outros 70 mil participantes na condição de ouvintes. Não é por outro motivo que a segunda maior delegação presente ao encontro é a dos norte-americanos, com 1.100 delegados de 230 entidades, que só perde para a delegação brasileira com 19.500 delegados representando 3.400 organizações. É quase certo que as manifestações contra a guerra se repetirão durante todo o encontro, tal como tem acontecido em todo o mundo, inclusive no próprio Estados Unidos que assistiu, semana passada, 100 mil pessoas irem às ruas em favor da Paz.


A posição contrária à guerra, embora unanimidade entre os participantes do Conselho Internacional, não foi capaz, porém, de derrubar umas das mais polêmicas decisões tomada no primeiro Fórum, quando da elaboração da Carta de Princípios do encontro: a não divulgação de documento oficial em chancelado pelo Fórum. Há, entre as organizações que participam do Conselho Internacional, uma quantidade considerável de entidades que temem que o movimento ganhe conotações ideológicas. “Hoje não é possível ao Fórum, como entidade, tomar decisão ou mesmo dar indicação de orientações pois muitas organizações temem que ao fazê-lo, o Conselho Internacional acabe se transformando em uma quinta internacional ou um comitê central”(N.R.: aos moldes do partido comunistas soviético), explica o belga François Houtart, do Centro Tricontinental, uma entidade voltada aos estudos, documentação e publicações que funciona junto à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Entre as entidades que temem essa “virada política” estão as menores, relacionadas a movimentos ecológicos, femininos, etc.


Estas 100 mil pessoas esperadas no Fórum Social Mundial ao mesmo tempo em que consolidam definitivamente o encontro como a mais importante manifestação contra a política neoliberal e a globalização, colocam em risco o futuro do próprio evento, na medida em que começa a ser difícil coordenar uma reunião de tal envergadura.


A sede do FSM 2004


Não é por outro motivo que o próprio Conselho Internacional, reunindo representantes de cerca de 80 entidades internacionais – de um total de pouco mais de 100 entidades com direito a voto – teve grande dificuldade em decidir como, aonde e de que forma se dará a reunião de 2004. Oficialmente, a quarta edição do Fórum Mundial Social deverá acontecer na Índia, num esforço de internacionalizar o encontro, proporcionando a chance de mais pessoas de outros países e regiões participarem dele.


Mas, como o próprio Conselho Internacional abriu a possibilidade do Comitê Indiano definir, até o final de fevereiro, o formato do encontro marcado para janeiro próximo, não está afastada a possibilidade de ocorrer um encontro apenas regional, reunindo representantes dos continentes Asiático e Africano. Se for essa a decisão, o IV Fórum Social Mundial só acontecerá em janeiro de 2005, novamente em Porto Alegre.


De qualquer forma, os debates dos dois últimos dias no Conselho Internacional apontaram para a necessidade de se tentar limitar o crescimento destes encontros, principalmente a partir do maior incentivo à realização de fóruns regionais e temáticos, nos quais debate-se especificamente um determinado assunto. A presença maciça é, ao mesmo tempo, a força e a ameaça do Fórum Social Mundial. Ameaça no sentido em que dificulta a organização, aumenta consideravelmente os custos – este anos gastou-se cerca de 24 milhões de dólares – além de impedir um maior acompanhamento dos debates e discussões. “Não é possível pensar que um fórum possa se expandir indefinidamente, com custos muito altos, que acabam colocando em risco a própria independência do movimento”, afirma Roberto Sávio, presidente da agência de notícia ítalo-espanhola IPS e membro do Conselho Internacional. “Neste Fórum de Porto Alegre discute-se de tudo, do problema da moradia ao gelo das calotas polares; dos animais em extinção, às guerras passando pela questão da fome. No final, sai daqui uma “maré” de propostas que por serem tantas acabam se perdendo”, complementa José Luiz Del Royo, brasileiro radicado em Milão, na Itália, que no conselho representa o Fórum Mundial de Alternativas.


Mas o número considerável de participantes é também o que impulsiona o encontro no seu principal objetivo – mostrar que há uma consciência crítica mundial contrária ao neoliberalismo e à globalização. “Deve-se ter a preocupação de não se perder a visibilidade do caráter de massa. Enquanto Davos é um fórum das elites, com pequeno público, a força do Fórum Social é o caráter massivo. Portanto, mesmo incentivando os fóruns regionais, é preciso fazer um fórum social massivo de tempo em tempo – três em três anos, por exemplo – ou uma jornada mundial, com manifestações em todos os países em um mesmo dia, de forma a dar visibilidade do grande número de pessoas dispostas a protestar e buscar uma alternativa”, lembra o belga Houtart.





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