Movimentos Sociais

Marcha e panelaço marcam início do II Fórum Social Mundial

Caminhada pelas ruas de Porto Alegre reuniu milhares de pessoas de mais de 150 países. Inspirados nos últimos protestos na Argentina, muitos levaram panelas e talheres. O evento exibiu profusão de bandeiras, orientações de partidos e movimentos sociais, que pediram o fim do ciclo neoliberal

31/01/2002 00:00

(Ayrton Centeno/Sul21)

Créditos da foto: (Ayrton Centeno/Sul21)

 

Porto Alegre - A chuva fina que caía desde o período da manhã começou a parar por volta das 16 horas e o céu foi se abrindo aos poucos. Foi a deixa para uma multidão que chegou a 50 mil pessoas, de acordo com os organizadores, e 25 mil, segundo a polícia gaúcha, desse início à passeata inaugural do II Fórum Social Mundial, ontem, último dia de janeiro. O trajeto de quase cinco quilômetros – do Mercado Público Municipal até o Anfiteatro do Pôr-do-Sol, passando pela rua Borges de Medeiros – foi coberto em pouco mais de três horas.

Uma profusão de bandeiras vermelhas destacava-se num mosaico que abrigava o PT, o PCdoB, o PSTU e o PSB brasileiros, a Refundação Comunista italiana, a KCTU, poderosa central sindical sul-coreana, o Partido Obrero argentino e inúmeros outras organizações estrangeiras. Houve até espaço para as provocações de grupos anarquistas argentinos e brasileiros, que não encontraram eco na legião que cortou o centro de Porto Alegre.

“Esta é a resposta que temos ao mundo desumanizado da globalização neoliberal”, discursou João Felício, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do alto de um dos caminhões de som que se esgueirava em meio ao burburinho.

Vozes na passeata

Caminhando entre a multidão, Leandre Dion, da Assembléia Nacional de Quebec (Canadá), também deixou o seu recado. “Frente à mundialização da economia, é muito importante aprender a democratizá-la também para os povos, e não só para os governantes. O mais importante de nossa participação aqui é aprender a escutar os grupos populares e poder melhorar a atuação política, democratizando a economia”.

O deputado federal Inácio Arruda (PCdoB-CE), o dirigente do PSTU, José Maria de Almeida, além de lideranças estudantis e dirigentes de movimentos sociais, esforçavam-se por atrair a atenção dos participantes, que era disputada também por batuques, marchinhas contra “FHC e o FMI” e palavras de ordem em inglês, francês, coreano, alemão, espanhol, italiano e português. O ritmo foi marcado pelo som das panelas e talheres levados por milhares de manifestantes, certamente inspirados nos últimos protestos na Argentina.

A solidariedade aos parceiros de Mercosul, aliás, também foi marcante nos discursos. “Viemos para protestar contra a globalização liberal, o imperialismo e, neste momento, sobretudo nos solidarizar com os argentinos”, afirmou o pernambucano Fernando Maranhão, dirigente da Federação dos Sindicatos de Trabalhadores de Universidades (Fasubra), uma entidade que trouxe 200 representantes para o Fórum.

“A chuva propiciou uma passeata mais confortável que a do ano passado”, observou o cartunista Santiago, para quem uma caminhada dessas, sob sol abrasador, decididamente não é programa dos mais saudáveis.

Quarteirões finais

Com o pique do início dos protestos, o malinês Makanfing Ronate, da organização não-governamental Jubile 2000/CAD Mali, compareceu ao evento para denunciar o sofrimento do povo africano. “Mali é um país africano que sofre muito e eu estou aqui para lutar pelo fim das injustiças sociais. A minha associação combate os problemas sociais e defende um renascimento cultural da África. Eu estou muito otimista e espero que os africanos tomem consciência e lutem pela sua independência. Na primeira edição do Fórum, a África não estava devidamente representada, hoje, temos cerca de 200 representantes participando do evento”, contou.

O tom de Babel carnavalizada deu o toque de bom humor a uma manifestação que, apesar da contundência de suas consignas, não dispensou drag-queens, palhaços de perna-de-pau, bonecos gigantes e longos raps cantados nos caminhões de som. Quando chegou ao anfiteatro, a multidão lotou o espaço em frente ao gigantesco palco montado pela organização do evento.

“São milhões, desde Seattle, que dizem “a humanidade não está à venda””. Vestido de botas, chapéu e bombacha, o governador Olívio Dutra saudou os participantes, lembrando que um dos ideais do Fórum é combater uma lógica econômica “que aprofunda a desumanização da sociedade e radicaliza a violência, da qual uma das vítimas mais recentes

foi nosso companheiro Celso Daniel, prefeito de Santo André”. A fala de Olívio abriu uma noite de shows musicais e discursos de ativistas de diversas organizações internacionais.

Surpresas no trajeto

Após alguns quarteirões de caminhada, uma chuva de papéis picados denunciou uma ocupação de um prédio particular (antiga Sul América Seguros). Edymar Cintra, coordenadora nacional do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), esclareceu que a ocupação, organizada por 300 famílias e 42 crianças, havia ocorrido na última madrugada e que o movimento já começou a discutir o caso com o governo do Estado. “A ocupação foi para tornar evidente o movimento, denunciar a falta de uma política habitacional brasileira adequada e uma forma de participar do II FSM”, afirmou. O senador Eduardo Suplicy (PT), durante a passeata, foi até o prédio e conversou com os manifestantes.

Na altura do antigo viaduto Otávio Rocha, a marcha inesperadamente parou. Era uma homenagem a uma grande bandeira cubana que estava pendurada na estrutura. "Cuba, Cuba, Cuba, o povo de saúda!", entoaram repedidas vezes os manifestantes que estavam naquela região.

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