Movimentos Sociais

Mensagem ao Fórum Social Mundial: Segundo manifesto de Porto Alegre - de espaço aberto a espaço de ação

 

04/08/2020 12:46

(Adriana Franciosi/Agencia RBS)

Créditos da foto: (Adriana Franciosi/Agencia RBS)

 
Assinamos a carta: Frei Betto, Atilio Borón, Bernard Cassen, Adolfo Perez Esquivel, Federico Mayor, Riccardo Petrella, Ignacio Ramonet, Emir Sader, Boaventura Santos, Roberto Savio, Aminata Traoré, e todos signatários da declaração de Porto Alegre.

Desde 2005 até hoje, nós perdemos colegas brilhantes, como Eduardo Galeano, José Saramago, François Houtart, Samir Amin, Samuel Ruiz Garcia e Immanuel Wallerstein. Mas compartilhamos muito com eles, e achamos que sabemos o que eles pensariam. Aqueles que estão vivos queriam enviar esta mensagem ao Fórum Social Mundial (FSM), para que ela tenha mais um elemento de incentivo e reflexão. O espírito de nossa iniciativa está representado na mensagem de adesão do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel: “Obrigado pela iniciativa de reviver a força e a esperança do Fórum Social Mundial. Há muito tempo estávamos pensando em algo semelhante para encontrar caminhos pelos quais possamos nos identificar, na diversidade de pensamentos e ações para enfrentar os desafios de nosso tempo. De agora em diante, queridos irmãos, adiciono minha assinatura e dedico a vocês o meu abraço”.

O Fórum Social Mundial, que celebra seu vigésimo aniversário em 2021, é apenas um espaço aberto, mas pode ser, ou deveria ser, também, um espaço de ação? Esta questão vem sendo discutida há anos em seu Conselho Internacional e até agora não havia possibilidade de se chegar a uma conclusão.

No Fórum Social Mundial de 2005, também em Porto Alegre, lançamos o “Manifesto de Porto Alegre”, preocupados que estávamos com a crescente marginalização do evento no cenário global. Sabíamos que estávamos violando a regra de que o Fórum não pode fazer declarações, mas nos parecia uma maneira de contribuir com os ricos debates em Porto Alegre para a política internacional. No ano seguinte, o “Chamado de Bamako” foi transmitido, no mesmo sentido. Nenhum deles teve uma resposta.

Após 15 anos, nossa preocupação se tornou extremamente real. O Fórum nasceu em 2001 pelo esforço generoso e visionário do grupo brasileiro e pelo apoio que encontraram no tempo de Lula. A internacionalização progressiva levou o Fórum a todos os continentes. A ideia de abrir um espaço para movimentos sociais e intelectuais críticos trocarem experiências e ideias, a fim de combater o pensamento único do neoliberalismo, era uma ideia revolucionária com grande impacto no mundo.

Diante da ameaça do início da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, o Fórum Social Mundial mostrou seu imenso potencial ao pedir marchas de rejeição massivas e coordenadas globalmente. No entanto, essas iniciativas não prosperaram.

Infelizmente, o Fórum não aceitou nenhuma mudança em suas regras e práticas, embora estejamos na véspera de duas décadas de sua criação. A ideia de um espaço aberto, sem a possibilidade de interagir com o mundo exterior como sujeito político global, fez do Fórum um ator marginal, que não é mais um ponto de referência. Nos últimos anos, pelo menos três grandes movimentos populares mobilizaram milhões de pessoas em todo o mundo: o da luta contra as mudanças climáticas, pela igualdade de gênero e o antirracismo. Lá, o Fórum Social Mundial esteve totalmente ausente como ator coletivo global. Mas sua ideia criativa de lutar contra o neoliberalismo com uma visão holística e não setorial, mantém toda a sua força e validade, juntamente com as lutas anticolonial e antipatriarcal, e pelo respeito à natureza e aos bens comuns que hoje nos convocam.

A ação é necessária. O mundo mudou, e não para melhor. Hoje, não estamos enfrentando apenas as consequências devastadoras de quarenta anos de capitalismo neoliberal, como somos dominados pelos mercados financeiros e ameaçados pelas rápidas mudanças climáticas, que poderiam tornar impossível a vida humana na Terra. Pobreza maciça e crescentes desigualdades dividem nossas sociedades, juntamente com racismo e discriminação.

A resistência também está crescendo. O ano de 2019 registrou um fluxo avassalador de movimentos, principalmente de jovens, em um grande número de grandes cidades ao redor do mundo. Eles sabem que o velho mundo está morrendo e desejam ansiosamente construir um novo mundo, de justiça e paz, onde todos os homens e mulheres sejam iguais, onde a natureza seja preservada e a economia esteja a serviço da sociedade. Muitas alternativas estão sendo preparadas, mas não há espaço que possa reuni-las e construir novas narrativas comuns e globais, baseadas em experiências populares e capazes de orientar ações futuras. Ativistas e acadêmicos progressistas são tão fragmentados que correm o risco de perder não apenas a batalha, mas também a guerra.

A covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus, é apenas mais uma crise, que pela primeira vez afeta todas as pessoas ao mesmo tempo, embora não com a mesma intensidade. O mundo se tornou uma vila na qual somos interdependentes. Nunca antes ficou tão claro que, de fato, temos que agir e fazê-lo juntos. O Fórum Social Mundial ainda tem um grande potencial para dar voz a ele e ajudar os movimentos a colocar suas alternativas em um contexto global, onde novos discursos e práticas podem convergir. Por isso, aqueles de nós que participamos do Fórum Social Mundial, desde a sua criação, e assinamos as declarações de Porto Alegre e Bamakò, pedem um “Fórum renovado”. Estamos enfrentando uma crise global multidimensional; são necessárias ações em nível local e nacional. global, com uma articulação adequada entre eles.

O Fórum Social Mundial é a estrutura ideal para promover essa ação, e é disso que trata esta iniciativa.






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