Movimentos Sociais

Milhares marcham pela paz em Porto Alegre

24/01/2003 00:00

“Não tem essa de humanizar o capitalismo. Tem que matá-lo mesmo”. A voz indignada, o rosto crispado, são do argentino Alberto Palavecino, que na tarde de quinta (dia 23) em Porto Alegre erguia uma bandeira da Asociación Madres de Plaza de Mayo. O grupo aguardava a chegada da líder Hebe de Bonafini para a grande marcha do Fórum Social Mundial, cujo principal apelo era contra a militarização, pela paz. Pleiteando a morte do sistema econômico dominante no mundo, a mesma bandeira dos presos políticos argentinos desaparecidos cujas mães estão mobilizadas até hoje, o delegado não fazia exatamente um apelo pacifista. O slogan de sua faixa era irredutível: “Ni um paso atrás! Polifônica ao extremo, plural nas dezenas de idiomas e centenas de estilizações, em camisetas e bottons, da figura de Che Guevara, a marcha do FSM reuniu pacifistas e revoltados do mundo inteiro.


Não há consenso sobre o tamanho grandioso da manifestação. Antes mesmo da partida, no Largo Glênio Peres, centro da capital gaúcha, os organizadores anunciavam 140 mil participantes. Se confirmado o número, será a maior aglomeração humana que Porto Alegre já viu nos últimos tempos: comícios do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva chegaram a reunir 80 mil pessoas em outubro de 2002. Jornais da França e da Espanha preferiram descrever o evento de abertura do FSM com “mais de 100 mil participantes”. Policiais da Brigada Militar ouvidos pela Agência Carta Maior, que acompanharam a marcha até o final da noite, afirmavam ser possível o número de 100 mil, pelo cálculo da área das ruas que a multidão caminhante ocupou a partir das 17h. Na manhã de sexta (dia 24), rádios gaúchas anunciavam “cerca de 60 mil pessoas”. Mas esse tipo de detalhe numérico exato talvez seja justamente isso: um detalhezinho diante da poderosa reunião de todas as classes sociais, econômicas e culturais do planeta, ao sul do mundo, ao norte da Patagônia, cada um com um pleito diferente.


Caminharam juntos, ao longo de três horas, trabalhadores sem-terra e professores universitários, petistas, comunistas e representantes do Partido Verde de Bruxelas, catadores de papel e militantes do movimento gay, integrantes do Comitê pela Democratização da Informática e povos indígenas da América Latina, defensores da água e da saúde pública e ministros de Estado, jovens estudantes, milhares deles, dos cinco continentes, e aposentados estupefatos com o extensão da marcha. “Esta é muito maior do que a que eu participei em Brasília”, contava Zuleide Cecchin, 65 anos, recém-chegada de Florianópolis.


A marcha dos slogans


O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, foi convidado a tirar os pés do Iraque simultaneamente em português, espanhol, inglês, francês, alemão. Uma bandeira norte-americana (de papel) foi queimada às 19h20min, sob aplausos, na avenida Borges de Medeiros, nas proximidades do viaduto que exibia centenas de pessoas alinhadas nas escadas. Malabaristas, atores de circo, estudantes de teatro e bonequeiros traziam formas, materiais e cores ainda mais exóticos ao conjunto. A miríade de faixas, cartazes e bandeiras era um espetáculo à parte pela pluralidade dos slogans. Alguns deles:


“Justiça tributária ainda que tardia”

“Campanha contra a mercantilização da educação”

“A justiça gera a paz”

“Cidadania e respeito: os catadores exigem esse direito”

“Geempa: alfabetização em três meses”

“El ojo por ojo ciega a todos”

“Salve o planeta”

“O Brasil tem fome de direitos”

“Solidariedade à Venezuela, contra o golpismo da direita do imperialismo”

“Campaña por el derecho a la educación a lo largo de toda la vida”

“Para cada povo a sua língua, para todos o esperanto”

“Nota Zero à ONU por absolver Sharon em Jenin”

“Capitalismo humanitário é coisa do Fundo Monetário”

“Ô, Lula, não vai a Davos/ O imperialismo nos quer manter escravos”

“Revolução só se faz com amor, cultura e paz”

“Pela revisão de Breton Woods”

"Firenze cittá aperta ripudia la guerra"

"Todos juntos por um mundo livre de minas terrestres"

"Não existem povos eleitos, somos todos iguais"

"No Carandiru, na periferia, universidade pública e popular em Sampa"

"Legalizar o aborto é possível"

"Se a la vida, no a la deuda. No debemos. No pagamos"

“Dois isqueiros por um real”



“Sempre para a frente, sempre para a esquerda”


A Agência Carta Maior ouviu dezenas de depoimentos ao longo da marcha. Gente de várias idades, credos, países, de várias lutas políticas, que dedicaram alguns dias do seu mês de janeiro para estar em Porto Alegre, na terceira edição do FSM. “Sempre para a frente, sempre para a esquerda”, pedia o sistema de som no alto do caminhão.


"Estou aqui para participar da oficina do problema do lixo do mundo, são sempre as mesmas multinacionais que controlam e fazem mal. Temos um projeto em Recife com catadores de lixo e queremos compartilhar com os brasileiros problemas e experiências."

Jennifer Crawford, da Réseau québécois des groupes écologistes, de Quebec.


"Um outro mundo possível tem que discutir o problema da Aids. É por isso que estamos aqui."

Solange Rocha, da SOS Corpo.


"Eu prefiro que o Fórum seja no Brasil e não na Europa. Aqui tem uma mistura incrível de gente diferente que pensa junto como fazer um novo mundo. Isso nos leva a crer que há algo que pode ser feito sobre esse perverso modo de vida que domina o mundo."

Brigitte Kepinsky, da La Vie, da França.


"Essa é a oportunidade de o Brasil integrar todas as forças não-governamentais do mundo. Um grande momento propositivo para que os governantes possam ter seus olhos voltados para isso. O Ministério da Assistência e Promoção Social vê nesse Fórum um instrumento para discussão e implementação de políticas públicas".

Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social do Brasil.


"Não concordamos com a globalização no modo como ela está e estamos aqui para ver o que vai acontecer no mundo a partir de agora. Defendemos a gratuidade de todos os serviços; é muito perigoso acabar com os serviços públicos".

Nara Weyns, de uma organização sindical da Bélgica


"Queremos mudar o mundo e convencer todos a fazer isso. Em 15 de fevereiro, faremos uma grande manifestação na Europa contra a guerra e esperamos atingir 1 milhão de manifestantes. Temos que parar George Bush antes que o capitalismo fique ainda mais forte, o que representaria grandes riscos para Venezuela, Colômbia e Brasil. Se conseguirmos detê-lo, todo o mundo ficará mais forte."

Jonathan Neale, da Globalise Resistance, Reino Unido.


"Nós fizemos durante todo o ano um grande trabalho de prevenção contra a violência doméstica. Agora, é a hora de mostrar para todo o mundo a nossa luta".

Maria Guamian, uma Promotora Legal Popular, ONG de Porto Alegre.


"Faço parte de uma organização política juvenil e podemos aqui confrontar idéias com todos os movimentos sociais do mundo."

Maurizio Martina, da Sinistra Giovanile, Itália.


"Para simbolizar nossa unidade na diversidade, nossa pluralidade."

Télia Negrão, do Coletivo Feminino Plural, que portava uma colcha de retalhos.


"Estou numa campanha pelo não-pagamento das dívidas dos países de Terceiro Mundo, que é ilegítima. Muitos dos problemas são resultados da atuação do Primeiro Mundo e suas políticas exploratórias. As pessoas dos países ricos deveriam fazer algo porque têm responsabilidade sobre isso".

Ingrid Stolpsteeid, da Jubileu, Noruega.


"Estamos aqui por causa da ocupação israelense na Palestina e pela injustiça dos EUA ao lidar com esse problema."

Ahlam Samhan, jovem brasileira que ajudava a segurar uma enorme bandeira da Palestina.


"Porque aqui está um monte de gente que pensa como eu".

Sara Rothelius, de uma organização de jovens, Suíça.


"Aqui você pode conhecer pessoas que trabalham para a construção de um outro mundo. Conhecer, ouvir e trocar experiências para tentar resolver a fome, a guerra, violações de direitos humanos. Mas é preciso lembrar que o trabalho cotidiano na cidade onde você vive também é muito importante."

Lorenzo Lenci, da Itália.


"Viemos apresentar um workshop sobre a crise na Turquia porque acreditamos que o 3º Fórum Social Mundial é muito importante, uma oportunidade para trocar experiências".

Cem Somel, da Turquia.


"Estamos aqui porque na Bolívia formou-se um Estado maior, um contra-governo, que favorece as transnacionais e não o país".

Ximena Centellas, da Bolívia.


“Para clamar por justiça e paz e para denunciar os problemas enfrentados pela comunidade palestina em todo o mundo. A maciça maioria das pessoas daqui está solidária com o povo palestino”.

Emir Mourad, membro da delegação palestina no Fórum Social Mundial.


“Para nós o FSM é importante para denunciar agressões aos direitos humanos sofridas pelos povos colombianos”.

Jayme Caicedo, membro da Plataforma Interamericana de Direitos Humanos.


“O Fórum incentiva os povos a participarem da luta pela paz, pela solidariedade e pela integração da América Latina”.

Malsa Garcia, prefeito da cidade de Santa Ana, da Martinica.


“Pensamos que é possível construir outro mundo, onde haja uma maior unidade latino- americana e onde possamos lutar contra o inimigo comum representado pelos Estados Unidos”.

Dolores Cautivo, de um movimento social do Chile.



A grande marcha do terceiro FSM não tinha fim. Os primeiros passos foram dados pouco depois das 18h, diante da prefeitura de Porto Alegre, e já passavam das 21h quando parte da delegação cubana ingressava na área do Anfiteatro Pôr-do Sol, a última parada dos manifestantes, que à noite recebe shows musicais. Por volta das 22h pequenos grupos ainda desfilavam organizadamente, entre eles o Grupo do Teatro do Oprimido de Santo André e um punhado de adolescentes erguendo um globo terrestre vestido com a bandeira do Brasil. De certa forma, mesmo o FSM se encerrando no próximo dia 28, marchas de indignados não têm fim nunca.



Com a colaboração de Camila Agustini e Maria Paola de Salvo





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