Movimentos Sociais

Morte e vida pós-64 marcam trajetória dos movimentos sociais

30/03/2004 00:00

São Paulo – Nos anos que precederam 1964, enquanto na América Latina a revolução tomava corpo em Cuba (1959) e inspirava a resistência em países como a Venezuela, Colômbia e Guatemala, no Brasil os chamados movimentos populares começaram a despontar como uma das principais forças de oposição ao que consideravam uma “política de entreguismo e dependência dos EUA”, o modelo de desenvolvimento do presidente Jucelino Kubitschek (1955-60). Desde meados da década de 50, movimentos como o sindicalismo urbano, as entidades estudantis, os movimentos da Igreja e, principalmente, as Ligas Camponesas, começaram a se fortalecer como atores políticos no cenário nacional, mobilizados em lutas por direitos (a maioria) ou alvoroçados pelas ideologias revolucionárias que estavam em voga no resto do mundo. “Havia um grande descontentamento com a crise que se abateu sobre o país e, ao mesmo tempo, uma sensação de que um projeto nacionalista poderia ser implantado no Brasil. Havia um sentimento de que os movimentos estavam fortes o suficiente para construí-lo com apoio de João Goulart”, relata Waldemar Rossi, na época militante do movimento sindical metalúrgico de São Paulo.

Com a posse de Goulart em 1961, as tensões entre o projeto de Kubitschek de alianças com os EUA, simbolizado pela chamada Aliança para o Progresso – abertura do país para a entrada de grandes multinacionais, treinamento das forças armadas brasileiras pelos EUA, entre outros –, e o projeto nacionalista do novo governo ficaram mais evidentes. “Assim que João Goulart assumiu a Presidência depois da renuncia de Jânio Quadros, o governo resolveu mudar os rumos da política e apostar no desenvolvimento interno de forma mais independente. Para isso começou a buscar o apoio dos movimentos populares para peitar os americanos, propondo uma série de reformas de base e envolvendo principalmente o movimento sindical urbano e rural. E foi aí que o bicho pegou”, conta Rossi.

As reformas de base propostas por Goulart – proibição de escolas particulares e destinação de 15% do PIB à educação (reforma educacional); impostos proporcionais ao lucro pessoal (tributária); venda compulsória de moradias a preços baixos ao governo (urbana); direito de voto para os analfabetos (eleitoral); reinvestimento dos lucros das multinacionais e demais empresas no Brasil (remessa de lucros); e principalmente distribuição das terras com mais de 600 hectares (agrária) –, apesar de não terem sido gestadas pelos movimentos, foram aplaudidas por eles. Mas, na mesma medida que contavam com o seu apoio, sofreram rejeição violenta principalmente por parte da classe média.

Mal súbito
O sentimento de força dos movimentos populares foi duramente golpeado com a eclosão da reação militar. Segundo Rossi, “quando aconteceu o golpe, não tínhamos uma organização política estruturada para resistir. O grande problema dos movimentos na época era que fazíamos uma luta por anéis e não pelos dedos. Nas cidades éramos corporativistas. O Partido Comunista Brasileiro, maior referência para a maioria dos movimentos, nos instruía a fazer a propaganda da revolução, mas não queria que fôssemos revolucionários; ou seja, não tinha como estruturar uma defesa armada ou de qualquer tipo em 64, ainda não estava pronto para assumir a revolução no país. Nossas lideranças se exilaram, a greve proposta para a ocasião não aconteceu. Os sindicatos foram aparelhados pela ditadura, e o que sobrou foi a criação dos grupos políticos clandestinos de resistência”.

No campo, as Ligas Camponesas, nascidas em Pernambuco por volta de 1954 como parte de um processo de re-ascensão do movimento de massas, tinham aglutinado milhares de camponeses na luta pela reforma agrária e simbolizavam a resistência campesina. “As Ligas camponesas eram um movimento de massas e sofriam todo tipo de influências políticas, ideológicas e partidárias. E cada corrente dessas tinha uma relação e uma leitura diferenciada sobre o governo Goulart. Mas do ponto de vista político-ideológico, Goulart estava mais próximo das Ultabs (União de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil, dirigidas pelo PCB) e do processo que ele mesmo detonou, de legalizar o sindicalismo no meio rural. As Ligas ajudavam com seu movimento de massa a pressionar o governo para que fizesse uma lei de reforma agrária, com o lema “reforma agrária na lei ou na marra”, explica João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Após o golpe, a repressão que cassou os dirigentes sindicais nas cidades grassou solta também no campo. “Violência de magnitude similar àquela aplicada em Canudos e Contestado abateu-se sobre as Ligas, com lideranças camponesas torturadas, assassinadas ou banidas do país”, escreve Antônio Cândido, professor de sociologia da Universidade Federal da Bahia. Mas foi a radicalização das lideranças das Ligas, combinada com a burocratização das suas instâncias decisórias, que, segundo Cândido, levou ao enfraquecimento e à rápida dissolução do movimento ainda em 64.

Ontem e hoje
Desarticulados e caçados pela ditadura, muito militantes e lideranças que não aderiram aos grupos clandestinos submergiram em organizações da Igreja, cujas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), criadas inicialmente para disseminar a liturgia entre os fiéis e suprir uma carência crônica de padres, começaram a se transformar em células políticas de resistência e trabalho de base. “Os militares achavam que as CEBs eram um bando de gente rezadora e nos deixaram em paz nos primeiros anos. Foi a partir daí e de organizações como as juventudes agrária, estudantil, operária e universitária católicas que começamos a reconstruir a organização nas fábricas, nos sindicatos, nas escolas e no campo. Na minha opinião, aquilo que chamamos de movimento social renasceu desse processo”, explica Rossi.

Para Frei Betto, assessor especial do presidente Luis Inácio Lula da Silva, os movimentos sociais, assim como se estruturam hoje, surgiram, na verdade, apenas nos anos 70 e 80. “Antes de 64, o que tínhamos eram movimentos sindicais e rurais, na maioria aparelhados pelo PCB e pelo PCdoB. Antes de 64 se falava em reformas de base - nada de reforma estrutural –, havia muito nacionalismo com pitadas se socialismo. Foi apenas a partir dos anos 70 que os movimentos sociais (não estamos falando dos partidos), como os conhecemos hoje, começaram a surgir efetivamente”, diz o assessor de Lula, citando os movimentos de mulheres, negros e indígenas como exemplo.

Para Betto, bem como para o coordenador do Grito dos Excluídos, o ex-padre Luis Basségio, uma das maiores diferenças entre os movimentos pré-64 e pós-70 à atualidade é a inclusão, nas lutas, de bandeiras e de ações que, além de táticas, são estratégicas. “Hoje temos movimentos sociais, como o MST, sindicais, partidários, pastorais e setoriais (mulheres, negos, homossexuais etc) autônomos e sem vinculação partidária, que, além das lutas “corporativas”, têm perspectivas de mudanças estruturais mais amplas”, afirma Betto. E Basségio conclui: “Acredito que houve um avanço político grande com a “independização” dos movimentos da rigidez das estruturas partidárias. Quer dizer, abriu-se um espaço maior para a expressão política autônoma dos historicamente excluídos. Hoje temos grupos organizados que não existiam no período 55-64”.

Já para Stédile, é inegável que o as experiências dos movimentos pré-64 foram fundamentais para a reconstrução dos movimentos sociais. “Temos orgulho em dizer que a experiência das Ligas Camponesas ou das Ultabs alavancaram a organização do MST. Pudemos conversar com vários dirigentes desses movimentos, e sempre perguntávamos quais os erros que tinham cometido e quais os acertos. Esses erros e acertos nos ajudaram a compreender qual seria a melhor forma de construir, do ponto de vista organizacional, um movimento de massas no meio rural brasileiro. Na história do Brasil, jamais um movimento camponês tinha se organizado em nível nacional, e tinha sobrevivido por mais de dez anos. Mas nós estamos aqui, firmes, seguindo nossa luta contra a pobreza e contra a desigualdade social”.

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