Movimentos Sociais

Movimento global contra a guerra quer ser nova superpotência

20/01/2004 00:00

Mumbai - Depois de demonstrar sua força no protesto mundial contra a guerra no Iraque em 15 de fevereiro do ano passado - um fenômeno de massa internacional nunca antes visto com tanta intensidade e interconexão -, o movimento contra a guerra, composto, na verdade, por milhares de pequenas e grandes organizações no mundo todo (literalmente), está se articulando de forma organizada no Fórum Social Mundial com o objetivo de criar uma frente ampla e coesa capaz de atacar simultaneamente todos os aspectos do que considera parte do projeto norte-americano de consolidação da hegemonia militar e econômica no mundo.
Em um contexto mais global, a campanha antiguerra – ou antiimperialismo norte-americano, como vem se configurando -, elegeu alguns aspectos centrais durante os inúmeros debates no FSM: a presença militar dos EUA no Afeganistão e no Iraque, a ofensiva israelense contra o povo palestino – e, mais especificamente, a construção do “muro da vergonha” (projeto israelense de separação dos territórios de Israel e Palestina) -, as bases militares norte-americanas em todo o mundo e o desarmamento mundial, incluindo as armas nucleares. Outras ações militares dos EUA ou apoiadas pelo governo Bush, de caráter mais regional (como o Plano Colômbia, por exemplo), serão trabalhadas localmente.
A grande diferença do movimento antiguerra atual em relação ao movimento pacifista das décadas de 60 e 70 é, além da articulação mundial (que engloba praticamente todos os países europeus, a maior parte dos países asiáticos, a América Latina, vários países africanos, além de Estados Unidos e Canadá), uma ampliação da pauta, que, desta vez, não se concentra em um caso único (como na época a invasão americana do Vietnã), mas que, a partir da luta contra a expansão militar dos EUA e seus aliados, e o apoio aos movimentos de libertação dos países ocupados, pretende fazer frente ao projeto mais amplo de consolidação da hegemonia econômica americana, que vem se projetando mais intensamente com o governo Bush.
A forma de ação do movimento global antiguerra também se sofisticou com o acesso à tecnologias como a Internet, hoje o principal instrumento de articulação de ativistas de todo o mundo. Nesse sentido, a rede que está se consolidando no FSM – e que deverá se ampliar nas próximas semanas, com a inclusão de organizações que não estiveram em Mumbai -, está definindo tanto uma agenda de mobilização para 2004 quanto estratégias de ações permanentes, elaboradas a partir das experiências dos grupos participantes. A idéia, afirmam os ativistas, é construir uma frente tão forte de oposição ao imperialismo que ela faça jus ao que, segundo militantes americanos, o New York Times afirmou semanas atrás: que o movimento global antiguerra está se tornando a segunda potência mundial depois do governo dos Estados Unidos.
Práticas e estratégias: 20 de março é dia de protesto global
A primeira grande ação da coalizão do movimento antiguerra para 2004, definida já no ano passado, durante o último Fórum Social Europeu, é uma repetição aumentada do protesto global de 15 de fevereiro, essa vez em 20 de março, data que marca um ano da invasão norte-americana do Iraque. O foco, que no ano passado era a oposição à invasão, este ano será a exigência de desocupação do Iraque e do Afeganistão, além da paralisação do Muro da Vergonha por Israel no Oriente Médio, uma vez que as Nações Unidas já declararam a construção uma ação ilegal. Estas questões incluem também o apoio aos grupos rebeldes israelenses, à luta pela autodeterminação no Afeganistão e o apoio à causa palestina.
Além do dia 20 de março, dia 6 de outubro foi definido como dia internacional de protestos contra as bases militares dos EUA. Nesse dia, uma frota internacional de barcos tentará fechar a base na ilha de Diego Garcia, e serão organizadas manifestações mundiais no dia das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Durante o ano todo, a Coalizão Antiguerra também estará promovendo um Tribunal Internacional de Crimes de Guerra no Iraque para julgar vários aspectos da invasão dos EUA, que, por enquanto, terá sessões na Bélgica, na Itália, no México e no Japão e será concluído em março de 2005 em Istambul, na Turquia. Em termos mais permanentes, a Coalizão fará campanhas de boicote a produtos norte-americanos e israelenses. Neste sentido, também deve eleger a empresa que mais se beneficiou economicamente da invasão do Iraque e, além de boicotar seus produtos de forma mais intensiva, deve marcar um dia global de ação direta contra as suas filiais em todo o mundo, proposta apresentada, inclusive, pela escritora indiana Arundathi Roy em sua fala de abertura do FSM.
Para o pacifista israelense Michael Warshawski, um dos mais conhecidos defensores dos direitos dos palestinos, o novo movimento antiguerra tem se mostrado muito mais forte do que o pacifismo da década de 70, principalmente por mobilizar as novas gerações e englobar um número muito grande de diferentes tendências pacifistas, como defensores de direitos humanos, meio ambiente, feministas, religiosos, etc. “É um movimento que contrapõe valores, o do neoliberalismo e aquele que quer colocar o ser humano à frente de tudo, de qualquer interesse político ou econômico”, avalia Warshawski. Para ele, no entanto, a invasão do Iraque foi necessária para conectar esse movimento, ao mostrar a brutalidade do poder hegemônico norte-americano.
Mas, apesar de reconhecer a efetividade dos protestos (que acabaram deixando o governo britânico em maus lençóis, por exemplo), Warshawski acredita que ainda é preciso avançar da fase dos protestos para ações concretas e de efetividade imediata. “Vejo no FSM um problema que vem sendo discutido desde o seu nascimento: a relação dos movimentos sociais com os partidos políticos. É verdade que os partidos desencantaram a juventude, mas temos que reconhecer que o poder dos governos tem um papel fundamental no jogo que estamos disputando”. Segundo Warshawski, o desafio está em como capitalizar a força dos movimentos para mudanças nas estruturas de poder dos países.
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2004
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