Movimentos Sociais

No Senegal, mulçumanos e americanos discutem juntos Fórum Social de 2002

Realizou-se nesta semana, em Dakar, a 2ª reunião do Conselho Internacional do FSM. Como lembrou Bernard Cassen, do 'Le Monde Dipolomatique', a característica internacionalista do movimento faz dele um antídoto a preconceitos e ódios étnicos

01/11/2001 00:00

(Reprodução/bit.ly/2OPA1yF)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/2OPA1yF)

 

DAKAR, Senegal – Mais de 50 movimentos sociais e organizações ligadas à luta pela transformação social em todo o mundo abriram na segunda-feira (29), em Dakar, a segunda reunião do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM). É o penúltimo encontro do grupo antes do próximo FSM, que ocorrerá novamente em Porto Alegre, entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro de 2002. Como se previa, o evento esta sendo marcado pelo debate sobre os atentados de 11 de setembro e a guerra de revide desencadeada pelos Estados Unidos na seqüência. No primeiro dia, esboçou-se uma unidade notável entre os pressentes. A ampla maioria das intervenções concentrou-se no esforço de rearticular a resistência global ao neoliberalismo e lutar por alternativas, na conjuntura difícil que surgiu após o início da guerra. A partir de hoje, a reunião deverá discutir em detalhes a "arquitetura" do FSM 2002. Estão previstas mudanças importantes em relação ao encontro do próximo ano.

Novo internacionalismo, alternativa à barbárie

Estão presentes a Dakar alguns dos personagens mais destacados do nascente movimento global contra o neoliberalismo. Um deles, o francês Bernard Cassen, que preside o grupo ATTAC em seu país, lembrou que a própria característica internacionalista do movimento faz dele um antídoto aos preconceitos e aos ódios étnicos. “Aqui, árabes e judeus, negros e brancos, latino-americanos e estadunidenses, muçulmanos e cristãos convivem e buscam juntos um mundo marcado pela solidariedade", frisou Cassen. O filipino Walden Bello, do "Focus on the Global South", advertiu que, apesar dos fracassos sofridos pelos EUA no terreno militar nos últimos dias, "não devemos subestimar a longa experiência bélica da Casa Branca, nem sua capacidade de aprender com os erros do passado". Recordou que, desde a primeira hora, estavam claros os objetivos imperiais da guerra: "O World Trade Center ainda estava em chamas quando o secretário de Comércio dos EUA afirmou que a melhor maneira de combater o terror é ampliar o livre comércio". O mesmo Bello propôs que, embora seja necessário adotar muita flexibilidade tática, após 11 de setembro, o movimento não deve recuar de suas posições estratégicas: "só mantendo acesa a esperança de um mundo novo, desmercantilizado, poderemos nos apresentar como alternativa aos projetos do Império". O belga François Houtart, do Fórum Mundial das Alternativas, destacou um dos principais desafios dos que lutam por substituir a globalização comandada pelo capital pelo internacionalismo da solidariedade: "É preciso articular os novos movimentos com as organizações dos trabalhadores, que se opõem diretamente ao capital. Precisamos compreender que se trata de culturas diferentes de resistência, e que portanto a tarefa não é fácil - no entanto, continua indispensável".

Uma trégua às instituições globais?

Bem mais polêmica foi uma proposição apresentada por Francisco Whitaker, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. Ele sugeriu que os movimentos que se reúnem em torno do Fórum Social Mundial iniciem, no próximo ano, um diálogo com a ONU, FMI, Banco Mundial e governos dos diversos países, visando encontrar saídas para o combate à fome e ao risco de "destruição do mundo". Disse ver na proposta uma forma de retomar iniciativa e recuperar visibilidade, após 11 de setembro. Foi contestado, entre outros, pelo belga Eric Toussaint, do Comitê pela Anulação da Dívida Externa do Terceiro Mundo (CADTM). "Abrir este diálogo agora, quando estes senhores precisam se esconder atrás de grandes muros para realizar seus encontros, seria oferecer-lhes uma relegitimação inaceitável", disse Toussaint.

50 mil contra o neoliberalismo em 2002

Começou a ser tocado ontem, e avançará hoje, o debate sobre a pauta múltipla do FSM 2002, vista pelos organizadores como a "arquitetura" do evento. Eles estão diante de um "bom problema". Mais de 50 mil pessoas são esperadas em Porto Alegre 2002, e será preciso oferecer a elas oportunidade de participar ativamente das atividades.

A primeira resposta dos organizadores é espalhar o II FSM por toda a cidade de Porto Alegre, e não mais apenas pela Universidade Católica. As grandes reuniões (conferências) ocorreriam em anfiteatros para 2 mil pessoas, pelo menos. Seu número passaria de 16 para
26. As oficinas e seminários devem se multiplicar, assim como os grandes debates com personalidades da resistência ao capitalismo global. Esse será o tema de nossa próxima coluna.

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