Movimentos Sociais

Novos tratados ameaçam soberania alimentar na AL

25/01/2003 00:00

Os tratados de livre comércio são os novos instrumentos encontrados pelos Estados Unidos para perpetuar sua hegemonia econômica frente aos demais países das Américas. O alerta foi dado pelo economista norte-americano Peter Rosset, durante a conferência “Terra, Território e Soberania Alimentar”, que reuniu nesta sexta-feira (24) um público de 25 mil pessoas no Gigantinho.


Na mesma conferência, João Pedro Stédile (MST) e Francisca Rodriguez (Via Campesina), mostraram como a posse da terra pelos trabalhadores rurais é, ao lado do controle das sementes, uma condição fundamental para garantir a soberania alimentar dos países da América Latina. Stédile disse que, apesar da vitória de Lula nas eleições presidenciais, o MST não deve deixar de promover invasões de terra quando necessário: “O MST vai continuar organizando os trabalhadores como sempre fez. Se tivermos que invadir terras, isso não servirá para pressionar o governo, mas sim para ajudá-lo a fazer a reforma agrária”, disse.


Rosset afirmou que os instrumentos de liderança utilizados nas últimas décadas pelo centro do capitalismo mundial - representados por instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional – começam a perder sua força, daí o interesse dos EUA em garantir a assinatura de acordos multilaterais como a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) ou bilaterais como o firmado recentemente com o Chile.


“Um acordo como a Alca obrigará os países do Sul a abrir seus mercados e negociar a partir de uma falsa igualdade de condições. Nos EUA, parlamentares garantem aos agricultores que a Alca não impedirá que suas produções continuem sendo subvencionadas. O mesmo acontece em relação às grandes corporações norte-americanas, que vêm recebendo todas as garantias do governo de que não perderão seu espaço e poder no continente”, disse Rosset.


Logo nos primeiros anos da Alca, segundo Rosset, a força da economia dos EUA iria inundar os mercados dos países latino-americanos de produtos, dificultando o desenvolvimento das empresas nacionais. Além disso, o texto pretendido para o acordo é, seguindo ele, uma armadilha jurídica: “Os povos da América Latina têm que se esforçar para impedir a assinatura da Alca. Depois de assinado o acordo, será muito difícil voltar atrás e estes países estarão amarrados para sempre a um modelo econômico que visa perpetuar sua servidão frente à hegemonia norte-americana”, disse.


O canadense Pat Money falou sobre outra questão que representa ameaça à soberania alimentar da América Latina: a tentativa de controle genético de sementes por grandes corporações da indústria agro-alimentar. Segundo Money, empresas como as multinacionais Monsanto e Dupont, por exemplo, continuam gastando milhões de dólares para desenvolver pesquisas de desenvolvimento de alimentos geneticamente modificados, também conhecidos como transgênicos.


“O ser humano cultiva o milho há 12 mil anos, o trigo há 10 mil anos, o arroz há cinco mil anos. As grandes corporações agro-alimentares querem agora se apropriar desse conhecimento, privatizá-lo como tentam fazer com a água. Por trás dessa estratégia, existe a intenção de roubar do agricultor o poder de manipular as sementes dos alimentos que cultiva e, desta forma, torná-lo completamente dependente dessas corporações”, disse Money.


Apesar das garantias dadas pelas empresas de que a produção de alimentos transgênicos se dá de maneira segura, Money apresentou relatórios mostrando que no México o milho transgênico “contaminou” o milho natural, que passou a apresentar modificações genéticas de forma espontânea. Caso semelhante está ocorrendo no Rio Grande do Sul, onde plantações de soja já apresentam anomalias após terem sido “contaminadas” por milho geneticamente modificado.




Conteúdo Relacionado